Segue o jogo

Tulio Brandão fala sobre as performances de Gabriel Medina e John John Florence no Billabong Pipe Masters.

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“O título é do surfista que mais pontuou este ano. Mais que isso, de um monstro, um freak, super habilidoso, uma estrela de sua geração.”

John John Florence foi derrotado. Perdeu o título na traiçoeira variação de maré de sua casa, Pipeline, no round 3, por dois décimos, para o surfista que menos venceu na temporada. Uma multidão de havaianos protestou, em coro, mas a World Surf League (WSL), firme, manteve o resultado contra o surfista do arquipélago. Os locais mais agressivos, que ensaiaram um quebra-quebra, foram levados algemados.

“What!? What!? What!?”, diria o excelente comentarista Barton Lynch.

Não, claro que não. Os primeiros polinésios do arquipélago já sabiam que, em 2017, o surfista mais querido pelo tour (vale dizer, também um baita surfista), o cara que tinha bandeirinha de apoio até na casa da WSL, o campeão, só perderia a coroa se uma tragédia incontornável se abatesse sobre a Costa Norte de Oahu.

A tal tragédia incontornável ficou bem longe de acontecer. Baixada a maresia emocionada da torcida, o que se viu, na disputa com Ethan, foi uma bateria parelha, com ondas bem similares. Na dúvida, é justo que o voto vá para o campeão. Fomos induzidos a acreditar em marmelada um pouco pela forma com que foram construídas as notas do garoto australiano, sempre muito próximas do necessário, e pela enorme variação entre os juízes. Se você ainda desconfia, tire o som do heat analyzer e avalie apenas as ondas. Vale o exercício. Na bateria de Gabriel contra Josh Kerr, valeu o mesmo critério. Na disputa parelha, venceu o candidato ao título.

O título, portanto, é do surfista que mais pontuou este ano. Mais que isso, de um monstro, um freak, super habilidoso, uma estrela de sua geração.

Agora, o outro lado. O tabuleiro da WSL continua intrincado, e, sim, há uma resistência cultural explícita de alguns atores da entidade a alguns surfistas. Não é, Peter Mel?

Depois de levantar a torcida brasileira em Pipeline, Gabriel Medina cai nas quartas de final.

Antes da reação, uma coisa é ter consciência disso, a outra é lamentar. Sem mimimi. Este é o jogo, e assim que deve ser jogado. Você não imaginou que essa avalanche de surfistas brasileiros assumindo definitivamente a condição de nova potência do esporte fosse passar sem qualquer resistência. O jogo é deles, as regras do jogo foram inventadas por eles, e nossa cultura, em certa medida, incomoda as convenções.

Gabriel Medina sabe disso. Adriano também. Filipe Toledo está por dentro, assim como todos os demais brasileiros – em 2018, serão 11 ao todo. Dois deles foram campeões mundiais; eles e outros lutarão por novos títulos dentro dessa perspectiva, até que a história do esporte naturalize definitivamente o brasileiro no topo – se nos mantivermos vivos, com o pé na porta, neste novo “Bustin down the door”.

São inegáveis os espaços conquistados. Além dos títulos, das vitórias e de outros troféus, avançamos com nosso modelo. Não custa lembrar, por exemplo, que até alguns anos atrás comemorar onda à moda latina era ato criminoso. Adriano virou alvo da própria entidade, que fazia vídeos críticos a seus “claimings”. Questionado, ele respondeu: “este sou eu”. Hoje, soco no ar virou obrigação. Até John John encena seu pacote de gestos “cool” para demonstrar satisfação. Mas não se enganem: a missão dos brasileiros continua sendo a consolidação da própria cultura.

Em 2017, foi jogo jogado. A luta foi boa. Gabriel encurtou o espaço com duas vitórias consecutivas na Europa, assustou, não deixou barato. Fez bonito. Filipe venceu duas e redefiniu o surfe em J-Bay. Adriano ganhou uma, com autoridade de campeão mundial. O havaiano, que assombrou o mundo em Margaret River – levou a temporada porque sobrou no início e foi mais constante depois.

Em Pipeline, a briga entre Gabriel e John John durou até as quartas de final, quando o brasileiro encarou um mar difícil e um surfista impossível naquelas direitas, o bom francês Jeremy Flores. O veterano avançou com uma fúria extra, motivada por uma disputa no round 4, contra o mesmo Gabriel, em que se sentiu injustiçado.

Jeremy Flores elimina Medina e carimba a faixa de John John Flores na grande decisão.

Com raiva, em Pipeline, Jeremy é osso duro de roer. Foi cirúrgico e agressivo, acabando com as chances de título de um surfista que, até então fazia muitos acreditarem na tal tragédia incontornável em Oahu. O brasileiro já havia atropelado Kelly Slater e nada parecia fazer crer que ele pararia nas quartas de final.

Jeremy, neste modo furioso, avançou até a final e, na última onda, aguou o chope do bicampeão do mundo, que encerrou sem conseguir a vitória que mais lhe falta ao currículo. Em casa. Comemorou com poucos amigos, quase solitário, uma vitória inesquecível, um dia em que derrubou, em sequência, os dois prováveis maiores surfistas dos próximos anos. Lavou a alma.

O bom Ian Gouveia, garoto cheio de raça, disposição e técnica de tubo em Pipeline, beliscou um terceiro lugar. Esteve bem em todos os tamanhos de mar, para os dois lados da onda, e mereceu mais que nunca a permanência na elite, ainda que não tenha sido diretamente através da pontuação. Em 2018, para ir mais longe, precisa encontrar um ajuste mais fino na linha de onda, aproximando-se do modelo do pai.

O outro a cair na semifinal foi Igarashi, que tem se revelado em direitas médias e tubulares. Fez final no mesmo lugar em 2016, num mar que não representa a história de Pipeline, e voltou a brilhar agora, em ondas não muito diferentes. Igarashi, um bom surfista em algumas ondas, me faz lembrar há quanto tempo Pipeline não se apresenta de maneira plena no dia decisivo. A esquerda tubular anda desaparecida faz anos.

Em 2018, provável último ano do modelo atual de disputa, pelo menos cinco surfistas devem ir, como diz um amigo, “para a explosão”, para o tudo ou nada. Além do bicampeão e de seu principal rival, Gabriel Medina, há lugar certo para Filipe Toledo (num ano especialmente interessante, com a inclusão de Keramas e da piscina de onda do Kelly no circuito), Julian Wilson e Jordy Smith, além de Adriano de Souza, sobretudo se tiver uma boa largada na perna australiana. Quem vai ganhar? O espectador.

Tomara que ainda seja de graça.