Conhecendo a Urca

Fabio Gouveia fala sobre a primeira experiência nas bombas da Urca do Minhoto (RN).

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Fabio Gouveia e sua 9’6 Bixigun Model na Urca do Minhoto (RN).

Há muito tempo escutei falar sobre a Urca, em alguns papos antigos com Armando Diniz e outros surfistas locais do Rio Grande do Norte. As primeiras imagens que havia visto eram apenas da onda em si, e não lembro ao certo o ano, talvez 2010.

Mas, acho que foi em 2013 que fizeram uma expedição pra valer, e foi quando realmente vi que era pura verdade, realidade. 

De lá pra cá, principalmente depois do último swell, onde feras do big surf brasileiro e o canal Off foram aproveitar, foi que a vontade de conhecer, que já era uma certeza, ficou ainda mais latente em minha mente.

Mesmo com os chamados e pilhas para aquele swell vindos do amigo e ídolo paraibano Chicó Moura, não pude ir. 

E foi incrível como no curto espaço de tempo, uma outra “bomba” havia se formado. De início, estava prestes a embarcar direto para Noronha, onde teria a possibilidade de pegar a Cacimba do Padre gigante, mas, aos 45 do segundo tempo, fui pilhado pelo amigo de longas datas Eduardo Fernandes a embarcar com uma galera boa de Recife rumo à Urca.

Pronto, a partir daquele dia (dois dias de antecedência), uma ansiedade enorme bateu, a ponto de estar o dia inteiro pensando como seria a empreitada. Gunzeiras não saíam da minha cabeça, pois todos diziam que o swell realmente seria big e maior que o anterior, já que a lua cheia movimentaria a maior maré do ano e tudo se encaixaria. 

Alertas já estavam sendo feitos para toda aquela costa, desde Noronha.

Voei de Floripa em uma quarta, chegando a Recife na madrugada da quinta para dormir pouco e acordar cedo para encontrarmos o resto da turma. Ao acordar na casa do meu amigo Rato Fernandes, constatei que, ligeiro que só ele mesmo, já havia arrumado a carreta com o jet e as pranchas, pois não queria perder tempo, pois logo outro legend local, Rogerio Soares, passaria por ali para na sequência buscarmos o fotógrafo Clemente Coutinho e o big wave rider Alexandre Ferraz, que, juntamente com Guto, iria em outro carro de apoio. 

Aliás, Guto iria gravar toda a session com seu drone.

Já no bairro de Boa Viagem, encontramos com alguns repórteres da TV Globo local, pois o Globo Esporte iria acompanhar nossa empreitada. Roger Cazé e seu cameraman Marcos e o assistente Careca, bem como Marcelinho, do Globoesporte.com. Que massa, estava muito amarradão que tudo aquilo estivesse acontecendo. Era uma ansiedade da gota serena para pegar a estrada. Acho que às nove da manha estávamos fazendo uma leve revisão na carreta do jet e partimos rumo às nossas 7 horas de estrada com destino ao Rio Grande do Norte.

Mini Barra de La Cruz em Caiçara do Norte.

Chegamos à cidadezinha praiana de Caiçara do Norte no fim da tarde, a ponto de já observar a força das ondas. Uma lagoa já havia se formado em parte da estrada que ligava a vila à Pousada Urca do Minhoto, local de nossa hospedagem.

Ali, avistamos um belo point break, e sua direita que enroscava nos lembrou uma mini Barra de La Cruz, no México. Que visual! Marolas de meio metro faziam a festa de uma galerinha local e suas pranchas merrequeiras.

Arrumar todo o material para o embarque às 8 da noite era a função do momento, pois tínhamos que preparar tudo para o horário da maré seca, já que acordaríamos às 2 da matina para embarcar rumo à Urca.

Às 2:30 da manhã nos deparamos com o primeiro problema. Nosso bote de apoio encontrava-se com falha no motor (já havia sido testado no dia anterior e estava ok, mas…). Rogerinho Soares, que já manja um pouco dessas máquinas, mexeu pra cá, mexeu pra lá e botou o bicho pra funcionar.

Botamos o jet na água para que Rato Fernandes fosse ao encontro da nossa embarcação de pesca, afim de nos esperar lá no ancoradouro. Mas ali já dava pra sentir a potência do swell. Ele havia chegado e com muita força.

Já na vila e com nossas mochilas e parte dos equipamentos, constatamos que não seria possível embarcarmos ali, já que um forte quebra côco de um metrão estava constante e seria muito arriscado para os repórteres e câmeras da TV. 

E no momento que que decidíamos o que fazer, uma série entrou encavalando e escalando a beira da praia, levando canoas que ali estavam rumo à rua paralela por trás das casas da beira-mar. Com um cenário de filme e de tensão, alguns moradores iam acordando para ver e agir diante daquele fenômeno da natureza.

A barca.

Um certo caos havia se instalado e dei mole de não fazer o registro com o meu celular. Na real, acho que a adrenalina não me deixou tirá-lo da bolsa à prova d’água naquele momento, mas até porque também tivemos de partir para o plano B, que era embarcar em frente à nossa pousada, já que no point break as linhas eram mais demoradas e com um quebra côco menor.

Só aí já foi um grande embaço, até porque outras duas embarcações que esperavam, cada uma com no mínimo 8 pessoas, se dirigiram para ali afim de receber as tripulações. Mas ambas estavam despreparadas, sem um jet ou bote de apoio. E nessa, Eduardo Fernandes bravamente foi dando carona um a um rumo ao outside.

Bom, esse embaço todo durou cerca de duas horas e só conseguimos começar a navegar com o sol começando a raiar. Mas beleza, todo mundo bem e ainda sem enjoo, fomos nos divertindo, batendo fotos, filmando e contemplando o espetáculo da natureza, sol nascendo e lua cheia, para a nossa alegria, pois o astro havia nos iluminado muito durante as escuras para toda a nossa função. Que o diga Rato Fernandes… Não foi fácil.

Surfistas e repórteres rumo à Urca.

Três horas de navegação quando cruzávamos o outside. Naquele momento, a turma entrou em êxtase quando Rato veio acelerando o jet e falando sobre as primeiras ações que viu. Galera, tá animal! Tem uns tubos animais! A turma tá quebrando no tow In e vi o Douglas José pegar duas morras na remada! O moleque tá sinistro!

Não demorou pra nos impressionarmos com a quantidade de barcos ancorados no canal. Havia pelo menos uns 7. E logo vimos Cauli Seadi, Rodrigo Monster Resende, Aldemir Calunga e Pedro Calado, sendo os quatro primeiros no reboque e Calado na remada.

Já remando em minha “Bixigun” 10’0” e munido de roupa com flutuadores, claro, fui calmamente fazendo o reconhecimento do pico, já que entrar pelo outside requer certos cuidados, pois fica difícil se posicionar e saber qual o real tamanho do mar. E logo de cara já vi que o “barco” (gunzeira) ali seria complicado, pois em minhas primeiras tentativas em ondas menores, notei o quanto aquela onda era cavada e rápida.

Pedro Calado e Douglas remavam sem parar, já que existia uma corrente. E nessa, logo vi um cara com uma gun azul tendo dificuldades para encaixar no drop. Constatei depois que era Ruclécio, um brother de longas datas que fazia tempos que não o via. Que legal o encontra-lo ali. E em pouco tempo fui batendo papos com Pedro Calado, enquanto as ondas que entravam eram quase todas surfadas pela turma do tow.

Visual das bombas potiguares.

Rato botou Rogerinho em algumas lindas, Cauli também deixava Resende no lugar certo. O que era aquilo! Tubos quadrados e ligeiros. Que coisa sinistra! E as duplas foram se invertendo: Calunga veio em altas e Rato pegou um de seus tubos de sua vida. Mas só o vi no final, de braços erguidos em meio a um spray. Acho que o menino estava estocando vento… (risos). 

A onda era perfeita para o tow in!

Constatei, logo de início, o que Calado reforçava. E nós, na remada, não estávamos tendo vida fácil. Remava com uma gun 10 e com todas as minhas forças, e só entrava atrasado, sempre meio despencando. Vi Calado com uma 7’6, mais embaixo, botar pra dentro de uns dois tubos, mas sem sucesso na saída. 

Meu atleta Junior Lagosta se encontrava em outro barco e o chamei para testar pela primeira vez uma gunzeira. “Que barco é esse?”, indagou ele, em risos.

Peguei uma 9’6 que também havia levado, gunzeira essa que havia feito para o ex-atleta do CT Marco Polo e confisquei no dia anterior à minha partida. 

Passei a investir em uma maneira lateral, dropando na diagonal, mas não obtive sucesso. Foram duas das piores vacas que já levei.

Não consegui encaixar a gun no “quadrado” oco. Inclusive, em uma delas, a pancada foi tão violenta que subi cuspindo sangue. 

Ao tossir fortemente, creio que alguma veia ou sei la o quê, acabou rompendo-se e o sangueiro foi forte, a ponto de me preocupar e tentar interromper as cuspidas, afinal, estava no meio do oceano e não sei que tipo de peixe tinha por ali (risos!).

Rogerio Soares e a perfeição da Urca do Minhoto.

Mas aos poucos fui me recuperando, quando, remando de volta, vejo Alexandre Ferraz despencando em uma morra! Não consegui ver a base da onda, pois havia uma ondulação na frente. Só depois vi que ele havia quebrado sua gun e aguardava para ser rebocado.

Alguns outros surfistas potiguares estavam no pico e remando, no entanto, a maioria de prancha pequena e tendo dificuldades. Se precisávamos de uma gun para a remada, não queríamos ter uma gun para a hora do quadrado. Porém, pranchas sem remada pouco adiantavam, pois a correnteza era forte.

Neste momento, Calunga estava remando, como também o Almeida Junior. Ruclécio pegou uma morra, e quando pensei que havia vacado, aparece longe, no canal, remando de volta e amarradão. Onda linda! E lindas estavam as que a turma vinha no reboque. Uns tubos monstros, cada salão que cabia um fusca! Era uma mistura de Nias com talvez P-Pass (nunca fui), ou sei la o quê. 

Olhava aquilo incrédulo, pois estávamos no Brasil, no Nordeste. Quando que no passado iria imaginar em uma onda daquelas? Nunca!

Consegui me divertir vendo também o Lagosta dropar algumas grandes e amarradão no pranchão. Ao sair pra um descanso, pois a empreitada até o pico por si só ja havia me deixado cansado, e depois das vacas era prudente tomar um liquido e repor as energias.

Eduardo Fernandes sempre em busca dos melhores cilindros.

Já no barco, vi que alguns amigos se encontravam por perto. Não cheguei a ver Bernardo Pigmeu na água, pois nossa embarcação só havia chegado às oito e ele estava ali desde que havia clareado. Mas tava lá um bicho cabeludo e barbado. Demorou pra que o reconhecesse.

Rodrigo Jorge e Danilo Costa reforçavam o time de peso entre os locais potiguares. Que vibe! E durante o descanso, observava uma bela, grande e potente esquerda no outro lado do canal. Aquilo realmente parecia um sonho!

Naquele momento, já tinha uma galera enjoada. Marcelo do Globoesporte.com, passava mal, quando disse-lhe para que ficar boiando um pouco em minha gun, mas em meia hora, já troquei o posto com ele e remei rumo ao outside, pois tinha que aproveitar aquele momento.

Chegando lá, tive uma certa dificuldade de chegar perto do pico desejado, pois a maré enchente já havia mudado a corrente para o lado oposto. 

Passei por Rodrigo Jorge e outros brothers que lá estavam e já peço desculpas aqui por não saber ou lembrar os nomes de todos. O fato é que busquei remar mais para o outside quando uma sério enorme veio clean e translúcida.

E Danilo Costa, com seu power surf, vinha nela, aliás, aquilo mais parecia mais uma locomotiva desenfreada e parecia também com Rifles, nas Mentawai. Não era mera coincidência. 

O bicho botou lá atrás no tubo e passou a toda velocidade ao meu lado. Por algum segundo, pensei que ele não chegaria ter sucesso, tamanha a turbulência, mas logo escutei gritos vindo do canal. Foi uma das mais belas ondas que já vi no Brasil. Que pintura!

Fabinho dividindo o pico com o amigo Danilo Costa.

Nessa queda, peguei uma das maiores ondas, mas ainda, sim, dropando atrasado, mesmo mais ao canal. E atrasado era sinônimo de não conseguir passar a seção, e tome-lhe caldo! Naquele momento, voltei ao barco pra me preservar para uma última sessão no tow in, afinal, mesmo o meu foco sendo a remada, levei minha prancha de tow e estava disposto também a colocar os amigos nas ondas. Mas, para a minha infelicidade e do Xandinho Ferraz, nosso jet havia quebrado, perdido a potência. E tendo visto todo aquele show de surfe de todos, ficamos de certa forma chateados.

Pedi ajuda ao parceiro do Danilo Costa, Leo, e ele me levou ao outside para me rebocar em um par de ondas. Com prudência, pedi que me jogasse com pouca velocidade e em uma onda menor. A primeira foi boa, ótima para o que eu queria: botar a prancha no pé. Mas, a partir dali, e sem referência no oceano, pois só mais uma dupla e dois caras remando se encontravam na água naquele momento, não conseguimos sucesso e a parceria não funcionou. 

Acabei tomando alguns caldos e fiquei sem jeito de alongar a session, afinal, os parceiros de Leo também esperavam por sua vez e não queria abusar da boa vontade. Mas acontece…

Leo havia colocado o Danilo na onda da vida, mas senti que precisaríamos de um treino para nos alinhar. 

Agradeci muito pela oportunidade e boa vontade de me ajudar. Fica pra uma próxima! Às vezes, o que parece simples não é tão fácil, e tudo serve de aprendizado.

Saí dessa session com muita vontade de expandir meus conceitos de equipamentos, treinos no tow in e limites. Já passavam das duas quando alguns barcos deixavam o pico e outros continuavam ancorados para a intensa tarde que ainda começava. 

Sem jet e sem bote de apoio, nossa barca estava em parte de cabeça feita, no entanto, um pouco desanimada. Gostaria de ter ficado, talvez tentado remar na esquerda também, mas parte dos meus planos era também pegar o swell baixando em Fernando de Noronha na tarde seguinte.

Alexandre Ferraz despencando em uma craca.

Bom, creio que, no fim das contas, foi prudente, mesmo sem ter pensado em nenhuma hipótese dos perigos, mas ficar ali sem uma segurança de apoio não é de forma alguma a melhor das ideias.

A volta me pareceu mais rápida, no entanto, mais adrenalizante. A maré cheia nos fez ir em outro trajeto. Trajeto esse que grandes ondulações nos acompanhavam. Outras urcas, crôas e outras denominações de fundos faziam parte do cardápio em nosso caminho.

Nosso capitão era muito experiente, mas estava muito cuidadoso, pois chegou a relatar que em seus 58 anos de vida, nunca tinha presenciado um mar daqueles. De fato, a qualquer momento sentimos que uma grande espuma podia quebrar no nosso caminho, na frente, lateralmente ou atrás. E dá-lhe adrenalina aos menos familiarizados com aquelas situações.

Mas, uma grande dificuldade nos esperava: o desembarque. Com mar grande e sem jet e bote funcionando, como levaríamos todo o material para a praia?

Esquerda da Urca perfeita e solitária. E ainda tinha a outra direita, também sozinha!

Com alguns solavancos no motor do bote, o bicho pegou, mas sem força o suficiente para rebocar o jet até a praia, já que o motor do mesmo havia morrido por completo.

A solução foi sair rebocando na remada, afim de pegar um jacaré. Imaginem a situação, pois as ondas estavam maiores que na madrugada. Foi difícil. Alguns remaram em pranchas com equipamentos em sacolas à prova d’agua, mas outros usaram apenas sacos plásticos.

Deixei minha gun na beira da praia e fui nadando junto com Rogério, visando ajudar os repórteres Roger Casé e Marcelo. Marcelo conseguiu sair-se bem, mas Roger, ao pular da embarcação, machucou o ombro e não conseguia remar, logo a correnteza o arrastava e complicava ainda mais. A saída foi pegarmos uma onda, o caba grande na frente, com colete salva-vidas, e eu atrás, segurando com todas as minhas forças, próximo às quilhas.

Mas tudo deu certo e no fim já estávamos arrumando toda a tralha para despertarmos na madrugada e seguirmos rumo a Recife.

Gostaria de ter ficado para aproveitar o segundo dia do swell, mas, com passagem Recife – Noronha marcada, lá estava eu despertando às três da matina para concluir meu objetivo, que era fazer duas trips em uma. Noronha, aí vou eu!

Veja mais fotos do swell: