Ídolo de gerações

Kemel Addas Neto recapitula a trajetória do tetracampeã mundial Mark Richards.

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Mark Richards em ação nas ondas da Prainha, no Rio de Janeiro (RJ), em 1981.

Quem não é fascinado por pranchas? São mágicas e nos proporcionam momentos inesquecíveis! Quantas vezes você não usou a expressão “essa prancha é mágica”? Pois é, os shapers são os magos responsáveis por criar e transformar as pranchas de surfe. Hoje vou falar de um dos maiores surfistas e shapers de todos os tempos, o tetracampeão mundial Mark Richards.

Mark Richards nasceu em 1957 na cidade de Newcastle, em New South Wales, a 150 quilômetros ao norte de Sydney, na Austrália. Começou a surfar ainda muito garoto, com 6 anos, influenciado pelo pai Ray Richards. Ray era vendedor de carros usados e em 1961 abriu a primeira loja de pranchas de Newcastle.

Em 1972 Mark acabou o circuito júnior australiano em segundo lugar, perdendo somente para Simon Anderson, mas consequentemente entrando para a equipe australiana que disputaria o mundial na Califórnia (EUA). No ano seguinte ele venceu o campeonato nacional júnior em Margaret River, e em 1974 acabou em quarto.

Ali começava-se a notar que Richards era um surfista acima da média. Dono de um estilo e fluidez únicos, ele era muito radical, mas sempre com elegância, o tornou um surfista muito diferenciado para sua época.

Seu estilo com os braços abertos virando as mãos para cima e joelhos juntos eram uma “pintura no Canvas” e te derem o apelido de “Wounded Gull” (Gaivota Ferida). Aos 17 anos Mark Richards chegava ao Havaí e logo na primeira temporada como competidor vence o Smirnoff Pro/Am em um Waimea gigante (30 pés), como se já estivesse lá pela centésima vez. Na sequência ele venceu a World Cup em Sunset Beach. Detalhe: ele nunca havia surfado essas ondas antes!

Esperando a semifinal contra Cheyne Horan no Waimea 5000 da capital fluminense.

Naquele ano Mark surfou a maior parte da temporada com pranchas na cor vermelha e amarela, que até os dias de hoje são reconhecidas e lembradas por todas as gerações. Ele fazia parte de um seleto grupo de surfistas que buscava algo maior do que somente surfar. Ele queria viver daquilo, e para isso era necessário a famosa profissionalização. Surfistas como Peter Townend, Rabbit Bartholomew e Shaun Tomson, que viriam a ser campeões mundiais, também faziam parte deste grupo chamado Free Ride, nome que deu origem a um dos filmes de surfe mais incríveis de todos os tempos.

Mark continuou a disputar campeonatos no Havaí e mundo afora. Em 1976 o surfe finalmente se profissionalizou com Pete Townend tornando-se o primeiro campeão mundial profissional. Em 1979 chegou a hora de Mark levantar a taça, surfando muito acima da média dos outros surfistas. Ele acabou deixando de competir em quatro dos 13 campeonatos possíveis e precisando vencer a etapa derradeira em Sunset para ser campeão mundial. E foi o que aconteceu, e de forma incrível e com apenas 22 anos, tornando-se o surfista a fazer mais finais naquela década!

Usando em suas pranchas uma seda com o logo do Super-Homem com as iniciais “MR”, apelido que passou a ser conhecido mundialmente, Mark levaria o título mundial nos três anos seguintes, em um circuito de alto nível que contava com Cheyne Horan, Shaun Tomson, Dane Kealoha e muitos outros.

Muito do seu sucesso também se deve ao seu profundo conhecimento sobre pranchas, paixão que começou cedo, aos 15 anos, quando fez a sua primeira prancha.

Na temporada havaiana de 76/77, seguindo o conselho de seu pai, pagou para ter aulas de shapes com um dos maiores ícones da época, o renomado Dick Brewer, o que fez MR colocar suas ideias em prática. Brewer fez uma twin-fin para Mark que, após observar a twin feita por Reno Abellira, desenvolveu uma biquilha que até hoje é referência entre os shapers de todas as gerações.

As iniciais MR ao estilo Super-Homem marcaram a carreira do australiano.

O surfe de MR com as biquilhas ficou mais solto e bem agressivo, e o mais importante, sem perder a classe e o estilo inconfundível. É uma das pranchas mais incríveis de surfar!

Mark Richards marcou várias gerações, influenciando dentro e fora d’água, pois além de tudo ele era um apaixonado pelo estilo de vida do esporte e sempre acreditou que poderia viver disso. Existem surfistas incríveis e alguns poucos que podemos chamar de “Deuses do Surfe”. Sem dúvidas, MR faz parte deste seleto grupo.

Muito obrigado MR por ter nos ensinado o quanto somos afortunados de sermos surfistas de alma!

Feitos de Mark Richards

– Campeão mundial em 1979, 1980, 1981 e 1982
– Quatro títulos em Bells Beach
– Dois títulos do Stubbies Pro na Austrália
– Quatro finais em Pipeline, vencendo em 1980
– Quatro finais do Duke Kahanamoku Classic, vencendo em 1979
– Dois títulos no Guston 500 na África do Sul
– Venceu em 1985 o Billabong Pro, que começou em um Waimea gigante e teve as finais disputadas em Sunset
– Repetiu a façanha, vencendo o Billabong Pro de 1986
– Vencedor do Surfers Poll Awards em 1979, 1980 e 1982
– Em 1985 entrou para fall da fama australiano
– Campeão mundial Grand Master em 2001

Kemel Addas Neto
Designer de moda, fotógrafo e artista plástico há mais de 35 anos, fez parte do primeiro staff da revista Fluir e atualmente é o curador de arte da The Board Trader Show. Surfa há mais de 40 anos, possui uma forte conexão com a Califórnia (EUA), com diversas temporadas na bagagem, e é dono do maior acervo de filmes de surfe do Brasil.