Os ventos do North Shore

João Guedes revela a verdadeira atmosfera havaiana em um day off de muito vento no North Shore havaiano.

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WSL / Cestari
Pipeline aguarda o sinal verde.

O vento é incapaz de acabar com Haleiwa…

A manhã de quinta-feira revelou-se sob um vento infernal. De todos os dias em que estou no Litoral Norte, essa foi, certamente, a ventania mais intensa e constante com a qual me deparei. Às sete horas, olhei pela janela e, sem remorso ou dúvida, voltei para cama com a certeza de estaríamos diante de um novo Lay Day. Já ensaiava, meio acordado, levantar da cama e preparar as coisas a fim de encontrar um lugar para cair.

Do momento da decisão até o bom dia sorridente para a moça da recepção, acho que poderia contabilizar, no máximo, trinta minutos. Frio, vento, ondulação, consideravelmente menor. Nada disso importava. Iria surfar e não falemos mais disso. O roteiro de sempre. Uma olhada em Sunset, um pulo em Ehukai para constar o óbvio. Laneakai, Waimea. Tudo fora de ordem. No meu coração, entretanto, algo me dizia que, imerso na desgraça, somente Haleiwa poderia salvar-me.

Estaciono o carro, vou dar uma olhada no mar. Embora as condições fossem as mesmas dos outros picos, isto é, vento intenso e perda sensível de intensidade da ondulação, a praia da cidade ainda resistia com longas paredes para ambos os lados. Observo com atenção as inúmeras cabeças na arrebentação cuja qualidade do surfe apresentado, em muito, superava àquela de segunda-feira. De imediato, reconheci uns cinco estilos que, facilmente, denunciavam os autores do crime.

Além dos profissionais, um número considerável de amadores dava o seu recado com os bicos adesivados e muita, muita fome de mostrar trabalhos à meia dúzia de câmeras, estrategicamente, dispostas na areia.

Penso. Penso, na verdade, se aquele esforço compensaria. Afinal, quando encontramos a seguinte equação – câmeras, único pico razoável em alguns quilômetros e um monte de jovens talentosos no line up -, a chance de você boiar um bom tempo no vento é considerável. Depois de pensar, equalizar as perdas e os ganhos, lembro-me de Florence em Pipe com seu irmão. Decido, então, pelo óbvio: tirar a prancha do carro e preparar-me com rapidez para não sofrer com o maral. Assim que me dirijo para o carro, no estacionamento de Haleiwa, vejo Adriano e os seus saindo do mar.

WSL / Heff
Adriano de Souza durante o Billabong Pipe Masters 2017, Pipeline, Havaí.

E a nossa admiração? Como fica?

Havia encontrado Adriano, na última vez em Baleal durante a etapa de Peniche. À época, achei-lhe sério, concentrado, com um peso enormes sobre as costas. Entabulamos uma prosa, mas o camarada não parecia-me aberto. Entendi, completamente, a situação. Gabriel disputava o título do Circuito e deus sabe o quanto Adriano desejava tornar-se campeão mundial. De lá para cá, o camarada não somente sagrou-se o número um como não sai das primeiras colocações. Taí alguém que, motivado pela força de vontade pessoal somada ao talento natural, conseguiu mostrar ao mundo com quantos paus se faz uma canoa. O que dizer? Adriano é o surfista mais obstinado que conheci durante os meus quarenta e poucos anos.

Resolvo adiar a caída e vou até ele. “Vim aqui apenas para te cumprimentar”. O sorriso largo e cara de muitos amigos. Conversamos por algum tempo. Perguntei se haveria campeonato amanhã, ele diz que a escolha da WSL resume-se a seguinte situação: o campeonato precisa de dois dias para ser decidido e eles tem três. “Quando as baterias vão para a água?” Isso ele não sabia. Somente disse que alguém se sagraria campeão em breve. Sorriu, eu disse que ele pode surpreender. “Deus sabe o que faz”. Falamos ainda sobre Waimea, Florence, Gabriel. No fim, um aperto de mão forte e a certeza de que estive diante de alguém cujo verdadeiro valor para o mundo do surf ainda será devidamente significado com o desenrolar do anos.

Saio de lá, em silêncio, a pensar como posso admirar, igualmente, um camarada como Florence e um outro como Adriano. Aparentemente, eles são água e vinho, uma vez que os dois parecem integrar linhagens completamente diferente da tradição de nosso mundinho. Para mim, no entanto, é surpreendente como eles têm traços comuns. Embora nos encontremos acostumados a comparar, sabe-se lá o motivo, Florence com Gabriel, eu, por minha vez, acho muito mais esclarecedor encontrar os elos e rupturas entre os dois últimos campeões mundiais a fim de que alguma luz seja lançada sobre o desenrolar dos acontecimentos.

Tão distantes e tão próximos entre si, eu desconfio que há mais afinidades entre aquilo que admiramos no dois camaradas do que supõe a nossa vã filosofia. Desde Portugal, era impressionante constatar que nunca, repito, nunca fui para a praia, independente do horário, e não encontrei Adriano e Florence na arrebentação. Chuva ou frio, terral ou maral. Lá estavam os dois. Há uma dedicação de ambos pelo surf bem surfado que comoveria o mais incauto dos espectadores. O trabalho que Adriano teve para transformar aquela cavada naquilo que vemos, de boca aberta, toda vez que ele passa por uma sessão, quase deitado na água, é admirável. O compromisso em melhorar sempre está na matriz genética dos dois, seja pela diversão cool proveniente dos anos passados sobre a areia do Litoral Norte, seja pela perseverança em tornar-se melhor do que se foi no dia anterior.

O surfe é, depois de quatro décadas nesse bonde, o encontro entre a diversão de estar frente a uma parede lisa e o grito por ter conseguido acertar aquela maldita batida do Curren. Se era dele mesmo, eu não sei, mas que pareceu, pareceu. Surf é, pois, alegria e compromisso. Sem eles, não há ninguém que permaneça. Lembremos do começo, de quando remávamos desengonçados e contávamos os segundos em que ficávamos em pé na espuma. Sentir a água correr era tão prazeroso como sonhar em bater o recorde de tempo na manhã seguinte. Se houvesse uma parede, bom, aí nós teríamos a glória.

Adriano e Florence são face e contra face da mesma moeda. Como foram Andy e Slater; Curren e Carrol. Por isso, sempre me canso das discussões que implicam a existência de uma tradição pela morte da outra. Não estou em cima do muro. Estou, isto sim, no esforço de destruir-lhe. Não há uma regra para surfar bem e nem escola que nos ensine. Tudo depende do feliz encontro do talento com a determinação. Por isso, talvez se estranhe que não evoquei Gabriel em nenhum momento desse texto. Não o fiz porque Gabriel é um outro caso. Não acho, de fato, fácil defini-lo e, por isso, deixarei para escrever sobre o rapaz em outra oportunidade. Até lá vamos para a ventania de Haleiwa…

Jackson e Shane Dorian.

Quando o futuro torna-se presente

Lá estava eu, há mais de duas horas no frio a divertir-me com a força das ondas e as longas direitas de Haleiwa. Não incomodava-me o talento desmedido dos camaradas do line up. Já conversara com meia dúzia sobre as previsões do campeonato quando Shane Dorian chegou com o seu pequeno. Os dois posicionam-se. O pai, então, orienta o filho frente às condições adversas. Quando vejo, ele vai numa onda. Com seu meio metro de corpo, o menino fez chover. A quantidade de água que sai em suas rasgadas e o longo percurso em que se manteve na parede provocou um silêncio na arrebentação.
Apontei o bico para a areia e saí. Era hora de ver o futuro diante de meus olhos…