Malibu, o templo sagrado

Kemel Addas Neto enaltece as décadas de história que tornaram Malibu o epicentro da cultura do surfe na Califórnia.

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Vista aérea de Malibu: os templos sagrados não necessariamente precisam ter ondas alucinantes, mas serem o epicentro da cultura surfe.

Quando chamo uma praia como Malibu de templo sagrado, sempre tem alguém que imediatamente já comenta que existem outros picos com ondas melhores.

O fato é que algumas pessoas confundem templo sagrado com ondas alucinantes! Existem centenas de ondas dos sonhos mundo afora, mas podemos contar nos dedos quantos templos sagrados do surfe existem realmente.

Os templos sagrados não necessariamente precisam ter ondas alucinantes, mas serem o epicentro da cultura surfe e que por décadas continuarão assim. Uma praia na qual se respira surfe na sua essência.

Sem dúvida Malibu Beach é o mais emblemático e sagrado templo do surfe mundial. É muito difícil tentar falar sobre Malibu em poucos parágrafos, pois a história e a importância no cenário mundial do surfe necessitariam de no mínimo um livro, mas vamos lá…

Localizada a 48km do centro de Los Angeles, no estado da Califórnia, pertence à cidade de Malibu desde 1991. Tem, desde os anos 40, uma forte influência na vida sociocultural e esportiva dos californianos. Bem no começo dos século XX, Malibu era simplesmente um pacato rancho familiar com uma maravilhosa praia em frente. Mas a cidade teve seu destino completamente transformado em 1928, quando construíram uma das mais importantes estradas do estado da Califórnia, a HW1 (Pacific Coast Highway).

First Point, com o swell certo, proporciona ondas longas e perfeitas.

A partir deste momento, tudo começou a mudar e muitos grupos de intelectuais, artistas, cineastas e milionários passaram a frequentar assiduamente aquela linda e pacata praia. Mas, no começo dos anos 1950, a praia foi invadida por um grupo que nunca mais sairia de lá, os surfistas!

Os surfistas daquela época tinham um comprometimento quase que total com a liberdade, paz e amor. Encontraram em Malibu tudo isso e muito surfe! Com ondas intermináveis que os levava a um patamar acima, pôr do sol lindo e uma frequência feminina de alto nível, Malibu era o local perfeito para luaus inesquecíveis, que fizeram parte de todos os filmes de surfe e de Hollywood da época.

Emblemática entrada de Malibu Beach.

Dale Velzy, um dos mais emblemáticos shapers dos anos 50 e 60 de Malibu, talvez tenha sido um dos maiores responsáveis por influenciar os atores e atrizes de Hollywood a surfar.

Dewey Weber, outro importante shaper local desta época, fazia pranchas mágicas, mas foram os shapers Joe Quigg e Matt Kivlin que realmente inovaram, fazendo pranchas de madeira balsa mais leves e, logo em seguida, shapearam as primeiras shortboards feitas em Malibu.

Nas histórias dos filmes com cenários de praia dos anos 1950 e 1960, Malibu era o lugar ideal para se filmar. Quando Hollywood pensava em filmar algo em Malibu, era quase que “obrigatório” ter surfistas em cena, caso contrário não pareceria uma cena real ou mesmo Malibu.

Já naquela época, surfistas como Mickey Muñoz, e mais tarde Miki Dora, eram requisitados para serem os dublês nestes filmes. Também era frequente encontrar o pai dos filmes de surfe, Mr. Bruce Alan Brown, fazendo suas geniais criações.

Malibu foi e ainda é um cenário inspirador para muitos diretores e produtores de Hollywood, compositores musicais, artistas plásticos e, claro, para nós, surfistas!

Local do pico.

Nos anos 1960, um dos surfistas pioneiros de Malibu, o cineasta John Milius, do eterno filme Big Wednesday (que também foi filmado por lá), em uma conversa informal com o multimilionário Mr. Jean Paul Getty (proprietário e fundador do Getty Museum e uma das pessoas mais ricas do mundo nesta época), perguntou se ele já havia alcançado a felicidade plena com todas as conquistas que possuía.

Getty olhou sorrindo e respondeu: “Claro que minha família é a coisa mais importante. O que conquistamos materialmente e o sucesso nos trazem conforto, mas o que realmente me deu felicidade plena e já mais esquecerei, era quando eu tinha entre 17 e 18 anos e surfava em Malibu.”

Não se pode comentar a história dos filmes de Malibu sem se referir ao inesquecível Gidget. Escrito por Frederick Kohner, inspirado na sua jovem filha Kathy Kohner, o filme conta a história real de uma garota que amava a vida da praia e o surfe. O sucesso foi iminente e logo em seguida foi parar nos cinemas.

A música também teve suas inspirações criadas através da magia de Malibu. Muitas bandas importantes não só do surf music, mas do jazz e rock’n’roll, passaram por lá através de suas letras e clipes. Para não citar dezenas de bandas, essas três influenciam o surf music até os dias de hoje: Beach Boys, Surf Punks e Dick Dale.

Cidade reúne pessoas de todas as tribos com um interesse em comum, o surfe.

Malibu sempre teve surfistas locais de alto nível e ao mesmo tempo irreverentes, porém, existiram dois em especial que fizeram a história dentro e fora d’água sacramentando e eternizando Malibu como templo sagrado do surfe: Miki Dora e Lance Carson. Dois surfistas de estilos distintos dentro e fora d’água.

Carson, mais sociável, se relacionava com todas as tribos que frequentavam a praia. Dono de um surfe polido e clássico, era um gentleman dentro d’água. Já Miki Dora era um gênio com a prancha nos pés, estilo mais “agressivo” comparado a Lance, não se importava com quem estava na onda. Quando decidia remar, era sai da frente.

Dora era uma espécie de mito em Malibu, não havia como falar de Malibu e não se lembrar dele. Fora d’água ele era destemido e temido no melhor estilo de um surfista local, que defendia sua praia a qualquer custo!

Sua notoriedade fora de Malibu se deu quando se destacou no Filme Ride The Wild Surf surfando Waimea gigante!

Visual da Pacific Highway em dia de swell.

Os anos foram passando e grandes nomes locais tiveram destaque, mas dois em especial eram acima da média. Integrantes do famoso movimento Dogtown e da equipe de skate Z-Boys nos anos 1960 e 1970, as eternizadas lendas Jay Adams e Allen Sarlo (este segundo considerado nos dias de hoje o Mr. Malibu).

Em 2014, o mundo do surfe e skate perdia Jay Adams. Os locais, em uma homenagem única, escreveram seu nome em um muro de Malibu, que rapidamente seria apagado. Tive a chance de estar lá e fotografar este momento mágico, que misturava tristeza com muito respeito.

As ondas de Malibu são longas e muito perfeitas. Se você tiver a sorte de surfar uma daquelas ondas emendando o Third (terceiro) e Second (segundo) Point, tenho certeza de que ficará na sua memória para sempre!

Mesmo sendo um dos picos mais cheios de toda a costa californiana, se você ainda não surfou por lá, não pense duas vezes e vá no próximo verão. Com certeza você entenderá porque aquela praia é o verdadeiro templo do surfe. Não se pode dizer que surfou na Califórnia sem ao menos ter caído uma vez em Malibu.

Homenagem histórica a Jay Adams rapidamente apagada.

A posição geográfica, a famosa entrada da praia separada por um muro, que é um dos ícones mais emblemáticos, e os mitos criados pelos locais nestes mais de 50 anos de história fazem de Malibu um lugar único.

Dados importantes

– Melhor direção da ondulação: Sul sem vento.
– Melhor época para surfe: junho a setembro.
– Swells mais famosos registrados na história de Malibu: agosto de 1969, verão de 1975 e
agosto de 2014.

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