Durante mais de quinze anos trabalhando como jornalista especializado em surf, tive o privilégio de encontrar em vários momentos, e até surfar junto algumas vezes, com um dos principais ícones do esporte no Brasil e no mundo, o paraibano Fábio Gouveia. Aos 46 anos e aposentado das competições desde 2009, Fabinho passou metade da vida viajando o mundo para disputar o circuito mundial e foi um dos responsáveis por pavimentar a estrada por onde, anos mais tarde, Adriano, Gabriel, Filipe e os outros talentos revelados em nosso litoral disparariam rumo ao topo do surf competição.
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Mesmo tentando evitar comparações rasas entre surf e futebol, não resisto à tentação de dizer que, se hoje Medina é chamado de “Neymar do surf”, Fabinho é o Zico, um craque de técnica refinada, que esbanja categoria na arte de ler e rabiscar as ondas e dono de um legado admirável.
Devido aos caminhos da vida, no entanto, nunca tive oportunidade de conviver mais do que alguns dias com ele, em encontros esporádicos durante campeonatos e eventos ou para alguma entrevista pontual. Quando recebi a proposta para acompanhar o Fabuloso e sua família numa viagem a Barbados, a ilha mais ao leste do Caribe, onde rola uma onda perfeita e tubular que ficou conhecida pelas aparições de Kelly Slater, não pensei duas vezes. Conhecer Barbados e surfar a direita de Soup Bowl era um sonho antigo de Fabinho, e poder realizá-lo na companhia da família com tratamento vip oferecido pelo governo barbadiano foi um convite irrecusável.
“Eu conhecia Soup Bowl pelos vídeos que vi do Kelly Slater surfando lá, tem uma seção irada dele no ‘Sipping Jetstreams’ (de Taylor Steele). Lembro também de uma participaçao do Otávio Lima no mundial da ISA que teve em Barbados, em 91. Era um roteiro que eu queria fazer, mas ainda não tinha surgido a oportunidade. Agora aconteceu e da melhor forma, com um convite para vir com a família”, fala Gouveia.
O primeiro desafio foi conciliar as agendas. O filho mais velho, Igor, 25 anos, está cursando o último ano de Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e, por sorte, as aulas não tinham começado. Já Ian, 23, único que seguiu os passos do pai como surfista profissional – com a mesma agenda atribulada de viagens e campeonatos – , tinha recém-voltado da perna australiana do QS e teria uma janela até a próxima competição. E a caçula Ilana, 20, começaria um curso de formação de comissária de bordo, profissão que escolheu seguir, e conseguiu adiar o início por alguns dias. Fabinho e Elka iriam viajar com os três filhos novamente depois de seis anos. Desde a última vez, muita coisa mudou.
Ilana passou de uma menina em idade escolar para uma mulher adulta, com personalidade e um rumo definido para sua vida; Igor, depois de se formar como técnico em meio ambiente, decidiu cursar Ciências Sociais com ênfase em Política, área em que pretende atuar (trazendo esperança para o futuro em tempos de tantas decepções e incertezas nessa praia); e Ian, além de também virar adulto e decidir pela carreira de competidor, agora tinha sua própria família para cuidar com a chegada da filha Malia, que teve com a namorada Mayara há poucos meses. Fabinho e Elka são vovô e vovó agora. O ídolo de gerações, personagem único e dono de uma trajetória vitoriosa no surf, é o vovô Fabuloso – quem tem mais de 35 anos provavelmente entende esse sentimento, misto de nostalgia e a dura constatação de que o tempo voa.
Diplomatas do surf – Em 2016 Barbados comemora 50 anos de independência da Inglaterra, e o clima de festa nas ruas, que já é comum, fica ainda mais evidente. A cultura britânica é bastante presente nos costumes do povo barbadiano, ou Bajan, a começar pela língua, passando pela “mão inglesa” (eles dirigem do lado inverso ao nosso), a educação e a pontualidade. Outras heranças são o gosto pela arquitetura colonial e tradições como o chá da tarde e o críquete. Embora tenha sido descoberta pelos espanhóis, porém, antes da ocupação inglesa eram os portugueses que usavam a ilha como entreposto na época do descobrimento das Américas.
Ao avistar as árvores repletas de cipós, que parecem barbas, eles batizaram a terra de Barbados, mas não chegaram a colonizá-la. Em 1627, exploradores britânicos decidiram ocupar o território e durante 334 anos a ilha pertenceu a Inglaterra. Em 1966 foi declarada a independência, de forma amigável. As estradas que cruzam a ilha são repletas de plantações de cana de açúcar, durante muito tempo a principal fonte da economia local e que deu origem a outro produto típico de Barbados, o rum – curiosamente, a cana foi levadas para lá pelos holandeses a partir de Pernambuco, no Brasil.
Barbados é a ilha mais ao leste do cinturão caribenho, o que a tira da rota dos conhecidos furacões que de vez em quando assolam ilhas vizinhas. Embora existam rotas de fuga e indicações para abrigos pelas ruas e estradas, dizem que é muito difícil um furacão passar por lá. O território de Barbados tem 34 quilômetros de comprimento e 23 quilômetros de largura, totalizando uma área de 432 km². Os lados leste e norte são banhados pelo Oceâno Atlântico e é onde rolam ondas com maior frequência. Já as costas oeste e sul são viradas para o mar do Caribe, trecho conhecido como Costa Platinada devido às águas calmas e translúcidas, com o típico degradê de azuis. É possível ver o sol nascer no mar do leste e cruzar a ilha para ver o pôr do sol do outro lado no mesmo dia.
Hoje a economia de Barbados gira em torno do turismo e a beleza de suas praias atrai principalmente ingleses, norte-americanos e canadenses, além de europeus e vistantes de outros países em menor parte. Apesar de a direita de Soup Bowl ter ganhado fama com as aparições de Slater e cia, Barbados não é um destino muito conhecido no Brasil. Para mudar isso, o governo local criou ações para estimular o turismo de brasileiros, em conjunto com a agência GVA – Global Vision Access, que representa Barbados no Brasil. Assim nasceu este projeto de surf trip com a operadora de turismo TGK, o Waves e a família Gouveia.
Segundo Mariana Abrantes, da GVA, brasileira que viaja constantemente a Barbados para alinhar com o governo as ações para promover o turismo e nos acompanhou na viagem, há cinco anos, cerca de 400 brasileiros visitavam a ilha por ano. Com o investimento em marketing e divulgação, incluindo a criação de um voo semanal direto de São Paulo para a capital Bridgetown (de pouco mais de cinco horas), ela conta que hoje esse número aumentou para quase 6 mil por ano. “Antes desse trabalho, muitas pessoas nem sabiam da existência de Barbados. Inclusive agentes de viagem”, diz Mariana.
Nossa chegada foi em grande estilo. Ao descer do avião, nos deparamos com o aeroporto Grantley Adams entupido de gente – uma situação atípica causada pelo atraso de alguns voos. Achamos que ficaríamos algum tempo na imensa fila até passar pela alfândega, mas para nossa surpresa fomos recebidos por simpáticos membros do governo e entramos pelo corredor destinado aos diplomatas, sem stress. A viagem começou bem e ficou ainda melhor quando chegamos no hotel. O The Crane, resort 5 estrelas que existe desde 1887, fica na praia de mesmo nome e traz todo o requinte da arquitetura colonial britânica. Depois do check-in e uma rodada de Rum Punch de boas-vindas, jantamos comida asiática num dos vários restaurantes do Crane Villlage, brindamos com a cerveja local Banks e fomos descansar, ansiosos pela primeira sessão de surf.
Tigela de sopa com ouriço – Pela manhã, após um farto café, encontramos Barry Banfield, surfista local e dono da Barry’s Surf School, que nos levaria para conhecer Soup Bowl, na região de Bathsheba. Graças a um swell que tinha entrado três dias antes, ainda havia boas ondas rolando, garantiu ele. No caminho, Barry contou que é um ex-competidor do circuito mundial e que agora se dedicava a sua escola de surf, em Dover Beach, no sul da ilha. Hoje com 33 anos, ele disse que conhecia o Brasil e lembrava de Fabinho da época em que disputou o mundial da ISA em Maracaípe, no ano 2000. Falou também que Barbados tem altas ondas por todos os lados, basta que a direção do swell e o vento estejam em sintonia – o que não é difícil numa ilha que recebe ondulações de quase todos os lados.
O caminho até Bathsheba, por estradas estreitas e sinuosas, revela um país de pessoas felizes e simpáticas, que sorriem e acenam para os carros que passam, entre casas e construções imponentes e muitas ruínas e lugares abandonados. Outra coisa que chama a atenção é a formação geológica, basicamente de coral e calcário por toda a ilha, mesmo nas áreas mais afastadas do mar. Passamos por muitas plantações de cana e algumas de algodão. Chegando mais próximo à costa, surgem bananeiras e pés de fruta-pão e romã aos montes. Fabinho e Ian encontraram muitas semelhanças entre Barbados e lugares como Tahiti, Fiji e Hawaii.
Chegamos em Soup Bowl e havia boas direitas rolando com 1,5 metros, um pouco mexidas pelo vento maral. Era domingo e Barry disse que estava “meio crowd” – contei umas oito pessoas na água e comentei, ingenuamente, que no Brasil isso nem é considerado crowd. Nosso guia estava tão fissurado que deu algumas dicas de como entrar pela bancada de coral chapada, avisou que havia muitos ouriços e foi correndo pra água. Não demoramos a entrar também. Lá dentro, descobrimos que aquele pequeno crowd, formado na maioria por bons surfistas locais, pode incomodar. O pico é compacto, a onda é relativamente curta e o canal joga rapidamente de volta para o line-up.
Com mais gente chegando a todo momento, não sobrava muita onda e parecia que os locais tinham um pacto silencioso de dificultar ao máximo a vida dos forasteiros. Não eram agressivos, mas pegavam tudo que aparecia pela frente. Mesmo assim conseguimos surfar e sentir o potencial do pico, com Fabinho esbanjando estilo e fluidez em rasgadas, cutbacks, batidas e floaters passando as seções com velocidade. Ian apresentou um surf maduro, afiado e moderno, aproveitando inclusive as esquerdas para decolar em aéreos com a ajuda do vento. Igor voltava de uma lesão no tornozelo e ainda estava ganhando confiança, mas mostrou ter herdado o talento do pai com rasgadas cheias de estilo, reentries na junção e até algumas tentivas de aéreos, influência que traz do skate. Entre os locais que chamaram a atenção estava o jovem Josh Burke, campeão nacional e uma das promessas de Barbados no QS. Além dele, atualmente o país também se destaca na cena competitiva com a integrante do CT Feminino Chelsea Tuach.
Nossa diversão durou umas três horas, até que lembramos que as garotas estavam lá fora, famintas e mortas de calor. “Eu já estava querendo matar o Fabinho, se deixar ele fica umas seis horas na água e esquece da vida”, esbravejou a divertida Elka assim que o marido apareceu. Enquanto nos preparávamos para partir, Barry comentou que a melhor época para Soup Bowl é entre agosto e novembro, quando venta pouco e é terral a maior parte das vezes. O pico segura ondas de até 12 pés e na praia ao lado tem a onda de Parlours, uma direita meio Sunset, meio Bell’s, que segura ondulações ainda maiores. Sobre a suposta casa que Slater teria na área, Barry disse que não acredita ser verdade, mas confirmou que o americano é frequentador assíduo do pico.
Aproveitamos o resto do dia para descansar da viagem e conhecer melhor o nosso hotel, um dos mais antigos e suntuosos resorts da ilha, construído sobre um platô rochoso cheio de coqueiros com vista deslumbrante do mar e as areias rosadas da praia. De noite jantamos pizza enquanto os celulares de Ian e Igor mostravam as baterias da primeira etapa do CT, na Gold Coast. Entre um pedaço de toscana e outro de marguerita, torcíamos pelos conterrâneos e ouvíamos algumas das histórias que Fabinho e Elka viveram em suas andanças pelo mundo.
Na manhã seguinte fomos checar as condições em Soup Bowl. Sair com Fabinho é garantia de diversão e muitas risadas. Ele está sempre zuando, seja imitando o som de um chocalho raspando a mão no quebra-sol do carro e cantando os reggaetons que rolam nas rádios barbadianas, apelidando o fotógrafo e cinegrafista William Zimmermann de “leão da montanha” ou falando seu dialeto próprio cheio de “tchurma”, “boys” e “bexigas”. O swell tinha abaixado mas ainda rendeu uma boa sessão. Com o vento maral soprando forte, voltamos para o hotel e tiramos a tarde para curtir a praia com as garotas, pegando jacaré e pulando do costão de coral na água azul turqueza. Durante o jantar, ficamos animados com a previsão de um novo swell para o fim da semana.
Welcome to Bedrock – No dia em que o swell ficaria menor, fomos conhecer algumas das atrações turísticas de Barbados. A primeira foi ao estilo Flintstones, na Harrison’s Cave, um conjunto de cavernas subterrâneas formadas por rochas biológicas, compostas de restos de animais e microorganismos que se acumularam ao longo de centenas de milhares de anos, ainda sob o oceano, num processo natural fascinante. Basicamente, a ilha é formada por coral e calcário que se acumularam em camadas por muitos anos e foram empurradas para cima da água com o atrito das placas tectônicas, dando origem ao território do país. Essas cavernas também são responsáveis pelo armazenamento da água potável de Barbados, considerada uma das mais puras do mundo.
O passeio é feito num trem elétrico aberto que percorre os túneis e é possível ver as mais variadas formações de estalactites e estalagmites, originadas pela erosão do calcário que desce com a água infiltrada e cria esculturas impressionantes. “A ilha é realmente única, essa formação de rocha biológica eu não conhecia. Mesmo nos pontos mais altos vemos rochas enormes de coral que tiveram que ser cortadas para a criação de ruas e estradas, é demais”, disse empolgado Igor. Dali seguimos para um mirante com vista de parte da costa leste e suas magníficas paisagens.
Seguimos para o extremo norte até o pequeno complexo turístico de Animal Flower Cave, que ganhou este nome por causa das anêmonas que viviam nas lagoas subterrâneas e se parecem com flores. Aproveitamos para almoçar e um dos pratos mais pedidos foi o flying fish (peixe-voador), característico de Barbados e que lembra um pouco a sardinha. Amenizamos o calor com um mergulho refrescante na lagoa subterrânea e apreciamos a vista estupenda dos cliffs e das ondulações explodindo nas rochas na região mais selvagem da ilha. De volta ao hotel, o jantar foi especialmente preparado por Elka, um menu mexicano de tirar o sombreiro… ou melhor, chapéu. Demos muitas risadas e finalizamos a noite vendo as finais do CT, surpresos com a vitória de Matt Wilkinson na Gold Coast.
Nos dias que se seguiram, o mar começou a reagir e pegamos boas ondas novamente em Soup Bowl, ainda duelando com o crowd de locais famintos e o vento maral que não dava trégua. Conhecemos o Accra Beach Hotel, no sudoeste da ilha, onde fomos recebidos com um almoço delicioso de peixe-espada e aspargos com a vista alucinante das areias brancas e o mar azul degradê de Rockley Beach. Fomos visitar a Barry’s Surf School e reencontramos nosso amigo Barry, com direito a uma sessão de surf em família com Elka, Ilana Fabinho e Ian. Foi curioso observar a reação de uma família de turistas canadenses, que tinha feito aula de surf pela primeira vez, ao verem a família Gouveia junta na água e Fabinho e Ian moendo as ondas minúsculas que rolavam. Fizeram questão de cumprimetar e fazer umas selfies com o legend.
Um dos pontos altos da viagem foi o mergulho que fizemos a convite da Barbados Blue em Carlisle Bay, no sul da ilha. A praia fica em frente ao Hilton Hotel e dizem que na época certa rola uma esquerda animal no molhe de pedras. Tirando eu e Ian, que já tínhamos mergulhado, os demais estavam apreensivos com os procedimentos que envolvem o mergulho com cilindro. Fabinho disse que teve várias oportunidades e sempre quis mergulhar, mas tinha receio de que a pressão pudesse prejudicar seu ouvido, e Ilana contou que tinha medo de entrar em pânico lá embaixo, caso visse um tubarão ou algo parecido. Fizemos o treinamento e no fim todos encararam o desafio.
O mergulho foi demais, exploramos dois naufrágios próximos da costa e vimos uma infinidade de peixes e corais, além de uma dócil tartaruga. Na volta para o hotel, todos estavam animados com a experiência, especialmente Fabinho e Ilana, que tinham superado um desafio pessoal e descoberto um novo mundo. “Sempre tive muito medo de entrar em pânico lá embaixo, mas foi maravilhoso. A sensação de superar um bloqueio é demais e com certeza quero repetir”, disse Ilana.
Em busca do terral e do pôr do sol – No penúltimo dia da trip, com o swell ganhando força, checamos Soup Bowl novamente mas continuava mexido, então decidimos sair em busca de uma direita que fica no noroeste da ilha, chamada Duppies. Nos disseram que a bancada precisava de um swell grande para quebrar e que o vento maral em Soup Bowl seria terral lá. Ian tinha salvado um print de tela do Google maps com as coordenadas e foi nos guiando pelo caminho. Também fomos alertados para não deixarmos nada de valor dentro do carro, pois o acesso para a praia fica na ponta de um cliff em uma região isolada, e não é raro ocorrerem arrombamentos. Achamos o pico, mas a maré estava cheia e a onda vinha gorda e sem força. Decidimos voltar mais tarde, na maré secando.
Fomos almoçar em outro resort de primeira, o The Sandpiper, na praia de St James, bem no meio da costa oeste. O lugar é maravilhoso, com uma pegada meio balinesa e uma praia típica caribenha. Como tínhamos um quarto à disposição para passar o dia, as garotas ficaram por lá e nós fomos de novo tentar a sorte em Duppies. Dessa vez acertamos, com a maré seca a onda vinha mais em pé, tinha força e proporcionava de três a quatro manobras. A descida até a praia é por uma trilha curta e bem íngreme, e de lá tem uma remada de uns 150 metros até o line-up. O vento era mais ladal do que terral e as ondas tinham cerca de 1 metrinho. Foi um privilégio dividir o outside somente com Fabinho, Igor e Ian e a sessão foi encerrada com o sol morrendo no mar num fim de tarde majestoso.
De noite conhecemos a feira gastrônomica de Oistins, em que dezenas de pequenos restaurantes atendem os turistas e nativos numa verdadeira confraternização, com todos sentados lado a lado em enormes mesas. No centro do local, um grande palco fica à disposição para os mais empolgados arriscarem passos de dança embalados por um DJ. Os barbadianos dão um show à parte com performances eletrizantes e muito bem ensaiadas ao som de Michael Jackson e outros do tipo. Conforme o tempo passa e as garrafas esvaziam, os turistas acabam subindo também e a festa ferve até tarde. Para aproveitar o último dia, fomos embora cedo, satisfeitos com o jantar e a diversão.
Na manhã seguinte, madrugamos para pegar Duppies na maré seca. O mar tinha abaixado um pouco e o forte vento terral/ladal deixava as ondas mexidas e balançando. Para não correr riscos, tiramos tudo do carro e deixamos o porta-malas aberto, literalmente. Lá do outside vimos algumas pessoas chegando para ver o mar, rodeando o carro, olhando para os lados… não devem ter entendido nada. Surfamos por uns 40 minutos e voltamos para o café da manhã, na esperança de fazer a última sessão em Soup Bowl de tarde. Nossa despedida rolou num mar mexido, ainda com tamanho, que mesmo difícil rendeu bons momentos com Fabinho e Ian mantendo o alto nível. Numa direita que sobrou, dropei atrasado e quando fui manobrar já estava fora do timing, a onda me envelopou e fui arremessado com tudo na bancada. Bati as costas e o pé e saí da água com a famosa “patada de tigre”, souvernir que surfista nenhum deseja ganhar.
O clima tropical, o povo amistoso e acolhedor, a proximidade com o Brasil, a estrutura de primeiro mundo e a fartura de ondas ao longo da costa fazem de Barbados um destino imperdível para uma surf trip, inclusive uma boa pedida para quem deseja fazer intercâmbio para aprender inglês, por exemplo. Não precisa de visto para entrar, o dólar barbadiano vale metade do dólar americano e é possível encontrar opções de estadia para todos os bolsos – cozinhar em casa é sempre uma forma de reduzir custos.
Após uma semana de muita diversão e descobertas com uma das famílias mais surf do Brasil, chegava ao fim nossa estadia nesse paraíso. Fabinhou resumiu o sentimento: “Quando vamos para um lugar assim a expectativa é sempre alta, e agora fica a vontade de voltar para explorar todos os picos na época certa. Foi uma viagem bem intensa e foi tudo maravilhoso, a gastronomia, os resorts, os passeios, o povo extremamente alegre e hospitaleiro. Estava tão relaxado que até mergulho eu fiz. O mais legal é poder dividir esses momentos com a família”, diz. “A turma tá crescendo, a vida passa muito rápido e temos que aproveitar tudo intensamente… Vejo no Ian a minha história se repetindo e digo pra eles que familia é tudo, só traz alegria.”
Ian também já faz planos para voltar: “A expectativa de surfar Soup Bowl era enorme e vimos que a onda tem muito potencial. Quero voltar na época do terral, aproveitar que ainda não tem muita gente vindo pra cá. Desde que meu pai parou de competir, deixamos de viajar juntos como antes. Faz muito tempo que só viajo com meus amigos para correr o Tour, estou sempre contando pra família sobre os lugares que visito e foi demais poder compartilhar isso tudo com eles dessa vez”. Ele diz que se espelha nos passos de Fabinho e comentou sobre a nova fase como pai. “A experiencia é demais, mas isso nunca foi um mistério para mim. Sempre achei que seria pai cedo, parece que eu já sabia. Terei a mesma rotina que meu pai teve com a gente, viajando junto com elas sempre que der”, conclui.
Numa época em que os surfistas não tinham contratos milionários nem exposição na mídia mainstream, não eram amigos de celebridades nem eram notícia no horário nobre, Fabinho construiu sua carreira e formou sua família vivendo do esporte, deixando como legado para os filhos os valores e princípios que moldaram seu caráter e o tornaram o ídolo que é. No mundo atual, em que as palavras “curtir” e “compartilhar” parecem fazer sentido somente nas redes sociais, uma viagem como essa vai muito além da busca por ondas perfeitas. O que vale são as experiências que ficam para a vida e a cumplicidade que só uma família que pega onda entende.