A história da baleia

Zeca eterno

Zeca Scheffer faleceu há um ano, mas a história da baleia permanece viva na memória dos amigos. Foto: Julia Conelli.

Ouvir o Zeca contando suas histórias incríveis era algo que despertava a atenção e o imaginário de qualquer pessoa. A que eu mais gostava de escutar era a história da baleia.

 

Vou tentar, buscando na minha memória, me aproximar das palavras que ele normalmente usava, pois esta, sem dúvida, é uma história típica do Zeca e o valor deste registro compensa de longe meus possíveis enganos.

 

Claro que sua gesticulação característica e divertidíssima ficará de fora do texto.

 

Porém, o que se passou naquele dia foi uma verdadeira epopéia, e caso um dos mais geniais escritores resolvesse criar uma aventura mirabolante ao redor dos feitos de um surfista, dificilmente iria tão longe a sua inspiração quanto nosso amigo foi na vida real, e isso me encoraja a ir em frente também.

Zeca na Ilha dos Lobos (RS). Foto: Pedro W / Maloca Vídeo.

Contada aqui por pessoa que não viu, mas teve, por inúmeras vezes, a sorte de ouvi-la da boca do próprio herói, não possui a intenção de ser um retrato fiel da realidade, mas uma pequena colagem de frases que, assim como o desenho que a acompanha, basta para captar o significado da ação.

Zeca – Nãao! Essa eu nem conto mais porque não adianta… ninguém acredita!


Já fazia uns quatro anos que eu estava tentando subir na baleia e sempre que eu chegava perto ela saía fora.


Nessa época eu morava na praia da Cal e estava conferindo o mar quando dei de cara com ela parada perto das pedras… uns 200 metros pra fora! 


Nem acordei a Giza, minha namorada na época, pois já estava havia quatro anos tentando subir na baleia e nada…


Ainda intimei o alemão Marcel pra ir comigo, mas ele não quis ir.
Ele viu tudo, cara, pode perguntar a ele!


Pulei na água, fui remando até onde ela estava e parei ao lado dela!
Quando apoiei a mão pra tentar subir, minha mão afundou! As baleias são peludas, cara; não parece, mas são… é verdade, elas têm pelos!

 

Escalei-a e puxei a prancha pelo leash!Caminhei em cima dela até a frente e espiei naquele buraco que sai água, sabe?!

Normalmente, a essa altura quem ouvia a história já estava com um estridente e pasmo sorriso no rosto e perguntando: “E como é lá dentro?”

 

Zeca – Em seguida, me virei para as pedras e tinha uma galera parada olhando. A Cal estava cheia de gente e todo mundo calado, sem acreditar. Ergui a prancha para o alto com as duas mãos e dei um grito. 

 

Nessa hora toda a galera começou a gritar e erguer os braços também. Diz que, quando se deu isso, a cena era eu com a prancha para o alto em cima da baleia e a nadadeira gigante de outra passando por trás da gente, com o maior solzão de fundo… irado!

 

De repente a baleia começou a se mexer toda e tive que pular na água apavorado! Sai remando a milhão no meio delas e veio uma sei lá de onde pra cima de mim!

 

Só que eu não conseguia remar direito porque elas faziam muita água e o mar estava jogando muito. Sinistro!

 

Cara, bem nessa hora teve uma que deu um ?rabaço? que passou do meu lado e por pouco não me acertou.

Cara, imagina se a baleia me acerta?!

 

A Giza acordou no meio da gritaria e saiu de casa pra ver o que era. Mais tarde, quando fui contar ao meu coroa, ele não acreditou. “Bah, coroa, consegui! Subi numa baleia hoje!”

 

Seu Manuel – Ora, Zeca, onde já se viu subir numa baleia… tu não tá bom da cabeça, né?!

 

Zeca – Ele só foi acreditar quando chegou um cara no trampo dele contando que tinha visto um maluco subir numa baleia na praia da Cal… E que ele próprio só acreditava porque tinha visto! Volta e meia ainda vem um ou outro doido me cumprimentar e dizer que me viu subir na baleia.

O Zeca e suas histórias incríveis… Essa meio que termina por aqui, mas vocês sabem como são duradouros esses feitos mirabolantes, não é mesmo?

 

Nunca vou me esquecer de quando, em meio a um treinamento de resgate que estávamos realizando na beira da praia da Cal, com o Corpo de Bombeiros de Torres, um cara com idade entre 40 / 45 anos, jeitão típico de pescador tradicional, roupas e rosto calejados de sol, chapéu, cestinho no braço e tudo o mais, se postou em frente ao Zeca e começou a falar.

 

Os dois conversaram francamente por alguns minutos e ao término trocaram um sincero aperto de mãos na despedida.

 

O Zeca veio andando lentamente pelo meu lado e me perguntou se eu tinha visto o cara que ele estava conversando; respondi que sim, e ele me contou que o cara estava na praia no tal dia e tinha ido lhe cumprimentar pela história da baleia.

 

Fiquei olhando pra ele com surpresa e sem saber o que perguntar… Ele me respondeu com um sorriso calado na face e saiu caminhando com tranqüilidade em direção aos jets.

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