Surf Ranch Pro

Medina domina a máquina

Gabriel Medina vence etapa histórica do Championship Tour nas ondas artificiais do Surf Ranch, em Lemoore, Califórnia (EUA).

O brasileiro Gabriel Medina faturou o título da oitava etapa do Championship Tour, encerrada neste domingo (9) nas ondas artificiais do Surf Ranch, Califórnia (EUA).

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O surfista de Maresias levou a melhor sobre Filipe Toledo em um duelo eletrizante dos líderes do ranking na cidade de Lemoore, a quase 200 quilômetros de distância do oceano.

Com a vitória, a briga pelo título do Championship Tour embolou de vez. Campeão no Taiti, Medina soma mais 10.000 pontos no ranking e chega a 45.685 pontos, com a vice-liderança.

Já Filipe Toledo, vice-campeão no Ranch, mantém a ponta com 49.785, mas vê a diferença diminuir ainda mais depois de duas vitórias seguidas do campeão mundial de 2014.

“É incrível vencer de novo, especialmente aqui no Surf Ranch. Me traz ainda mais confiança para a reta final da temporada. O Filipe é muito perigoso, provavelmente o melhor aqui. Estou sem palavras”, comemora Medina.

O Surf Ranch Pro marcou o primeiro evento do CT na piscina criada por Kelly Slater. Mas a máquina de ondas artificiais parece ter sentido os efeitos da maratona de baterias neste domingo decisivo.

Antes da rodada final, a direção de prova anunciou que todos os atletas teriam o direito de surfar uma esquerda extra. Segundo Kieren Perrow, comissário da WSL, elas saíram com uma programação diferente para cada surfista nos rounds anteriores.

Problemas à parte, Gabriel Medina atacou as ondas do Rancho com maestria e frieza, sendo o mais consistente nas esquerdas e direitas durante todo o evento.

Em sua terceira esquerda, ele anotou 9.13 com um lindo kerrupt de frontside e conseguiu mais 8.73 em uma direita bem trabalhada de backside. Com 17.86 pontos no total, Medina saiu da Califórnia com a segunda vitória no CT desta temporada.

“Surfei da maneira que gostaria. É totalmente diferente do que o oceano, talvez seja a onda mais high performance que já surfei na minha vida. E me sinto bem em estar no mesmo nível dos melhores. Tem mais três eventos pela frente e será divertido”, comenta o campeão.

Outro brasileiro na final, Miguel Pupo esteve afiado nas esquerdas, mas não conseguiu repetir a boa atuação do sábado e terminou o evento na oitava posição.

Wildcard da prova, ele foi a grande surpresa entre os oito classificados para o dia decisivo do Surf Ranch Pro. Neste domingo, ele esteve em sintonia de frontside e conseguiu 8.14 em sua melhor apresentação.

Mas, sem uma boa nota para a direita, o surfista terminou a final em último, somando os pontos de um quinto lugar no ranking do Championship Tour.

Agora o surfista volta o foco para o Qualifying Series, circuito em que ocupa a 16º colocação na briga para voltar à elite do surfe mundial.

Duelo particular Filipe Toledo e Gabriel Medina protagonizaram uma briga eletrizante pelo título do Surf Ranch Pro diante de uma fanática e surpreendente torcida brasileira nas arquibancadas de Lemoore.

Ao término da primeira rodada, o ubatubense saiu com a liderança provisória da fase final ao anotar 8.33 na direita e 6.83 na esquerda. No round seguinte, foi a vez de Gabriel Medina roubar o primeiro lugar ao tirar um belo kerrupt da cartola, de nota 8.53.

Na mesma rodada, Filipe havia descolado a maior nota do evento, 9.80 com um alley oop estratosférico no final de uma direita surfada ao extremo. O título ficou em aberto, mas com Toledo precisando melhorar o 6.83 na esquerda para ultrapassar o rival.

E foi na onda extra para a esquerda que as coisas começaram a ser decididas no Rancho. Filipe desperdiçou a sua chance, enquanto Medina soltou um kerrupt ainda mais limpo para anotar 9.13 e ampliar a vantagem.

Na última tentativa para a esquerda, Filipe Toledo foi para o tudo ou nada e rasgou forte, mas acabou errando no aéreo da última seção e ficou com 7.23, garantindo a segunda colocação do evento e a liderança do Championship Tour.

“Me sinto ótimo. Cometi poucos erros durante todo o evento e sei que poderia ter ido um pouco melhor na esquerda”, afirma Filipe. “Mas estou muito feliz em fazer parte disso, é uma nova era para o surfe e só tenho que agradecer aos fãs por virem até aqui”, completa o ubatubense.

Conforme os outros adversários foram caindo, Gabriel Medina nem precisou entrar na água para a sua última tentativa e comemorou mais um título no Surf Ranch (ele já havia vencido um evento teste no local no ano passado).

A próxima etapa do CT acontece entre os dias 3 e 14 de outubro em Hossegor, França. Depois o circuito ainda passa por Peniche, Portugal, até chegar ao evento decisivo em Pipeline, Havaí.

Surf Ranch Pro 2018
Resultado
1 Gabriel Medina (BRA) – 17.86
2 Filipe Toledo (BRA) – 17.03
3 Kelly Slater (EUA) – 16.27
4 Kanoa Igarashi (JPN) – 15.77
5 Owen Wright (AUS) – 15.40
6 Julian Wilson (AUS) – 15.37
7 Sebastian Zietz (HAV) – 15.07
8 Miguel Pupo (BRA) – 12.96

Pontuação no ranking do Championship Tour
1 Gabriel Medina (BRA) – 10.000 pontos
2 Filipe Toledo (BRA) – 7.800
3 Kelly Slater (EUA) – 6.085
3 Kanoa Igarashi (JPN) – 6.085
5 Owen Wright (AUS) – 4.745
5 Julian Wilson (AUS) – 4.745
5 Sebastian Zietz (HAV) – 4.745
5 Miguel Pupo (BRA) – 4.745
Ranking do Championship Tour depois de oito etapas
1 Filipe Toledo (BRA) – 49.785 pontos
2 Gabriel Medina (BRA) – 45.685
3 Julian Wilson (AUS) – 37.125
4 Italo Ferreira (BRA) – 31.825
5 Owen Wright (AUS) – 29.485
6 Jordy Smith (AFR) – 27.275
7 Wade Carmichael (AUS) – 26.970
8 Kolohe Andino (EUA) – 24.690
9 Kanoa Igarashi (JPN) – 24.530
10 Michel Bourez (PLF) – 24.370

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.

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