O surfista nascente

Tulio Brandão fala sobre a vitória de Kanoa Igarashi em Keramas e o julgamento da etapa balinesa.

0
Kanoa Igarashi, campeão do Bali Protected em Keramas.

“Desista de tentar me fazer desistir”. A frase, garimpada pelo sobrinho Lucas, fã de mangás, é do personagem Naruto, jovem ninja que protagoniza série japonesa homônima. Por trás do heroísmo ingênuo dos quadrinhos, está o emblema de um país acostumado a perseverar, desde muito antes de Hiroshima.

A dupla cidadania em tempos olímpicos deu de volta ao Japão uma joia legítima, que, embora nascida na Califórnia, carrega o sangue e a cultura dos melhores mangás. Seu pai, Tsutomu, era um surfista fissurado no Japão quando soube que teria um herdeiro. Não pensou duas vezes. Fez as malas com a mulher, Lisa, para transformar o filho no campeão que ele jamais conseguira ser nas águas de Huntington Beach, Califórnia.

Kanoa nasceu com uma missão dada pelo pai, mas desde garoto comprou o desafio. Neste fim de semana, aos 21 anos, cumpriu a primeira parte de sua luta, em Bali, ao se tornar o primeiro surfista com cidadania japonesa da história a conquistar uma etapa do CT, a um ano dos Jogos de Tóquio, onde vai representar o país de sua família. A terra do sol nascente comprou o surfista: a TV japonesa o acompanha no CT, e ele já ganhou fama até em países como China, Taiwan e Coreia do Sul.

Keramas viu a melhor apresentação da história competitiva de Kanoa. Desde que chegou à elite, em 2016, aos 18 anos, ele não para de evoluir, turbinado pela cultura de dedicação oriental, focada, e pelo excelente trabalho do técnico Jake “Snake” Paterson. Na onda balinesa, Kanoa usou à perfeição seu surfe dinâmico e veloz, em manobras curtas e agudas, para dar show em quase todas as fases.

Para Tulio Brandão, Keramas viu a melhor apresentação da história competitiva de Kanoa.

A única exceção, fora da curva, foi a estreia, não eliminatória, em que ele perdeu para Mikey Wright e Joan Duru somando apenas 1,77 ponto. Em quase todo o resto da etapa, ele pintou como destaque: fez somas superiores a 15 pontos em três baterias, em mares que todos os tops do mundo patinaram. Derrotou, na semifinal, a surpresa Kelly Slater, que, na etapa balinesa, pareceu ter deixado de lado a aposentadoria iminente para competir no comboio da frente dos atletas de elite.

A história de Kanoa é tão legal que tenho pena de abrir o parêntese rápido sobre o julgamento. Embora ele tenha feito uma final brilhante, no topo de seu surfe, de minha perspectiva o francês Jeremy Flores, vice no papel, levou a bateria, com um carving visivelmente mais potente que o do campeão. Aliás, Snake, técnico do japonês, admitiu à Stab que achou que a onda de Flores teria nota um pouco mais alta que a de seu pupilo. Não foi o que aconteceu. O japonês ganhou 9,10 e o francês, 8,93.

Kanoa já é um baita surfista. Embora, de minha perspectiva, não seja perfeito em alguns movimentos que pedem a borda mais enterrada, ele vem melhorando claramente nos últimos anos. Suas manobras de fundo de prancha, com rabeta desgarrada, muitas vezes têm compensado essas ausências.

O julgamento, aliás, foi confuso durante todo o evento – esquizofrênico, eu diria, pelo frequente abismo entre notas dadas por juízes na composição da média. Na onda de Flores mal julgada, em que um juiz deu 9,5 e outro 8,3, a diferença ficou bem acima de um ponto. Como disse um amigo, eles pareciam ver duas ondas distintas.

Na opinião do colunista, Jeremy Flores teve uma onda mal julgada na final e foi melhor na bateria.

Nada que manche a heroica história de Kanoa, que poderia tranquilamente ser contada num bom mangá, à venda nas melhores surf shops de Huntington Beach. Mas ainda falta um capítulo: não será surpresa se, em alguns anos, ele se posicionar para a disputa do título mundial, com um carving irretocável e outros golpes mortais. Kanoa é o tipo que não desiste, como um legítimo japonês. Persevera até aprender e vencer.

Kelly, mais um grande personagem da etapa, foi outro que surfou muito bem, mas foi beneficiado por um julgamento distorcido. Nas oitavas, contra o taitiano Michel Bourez, suas notas foram grosseiramente turbinadas. No mundo dos justos, ele não passaria de um pouco convincente nono lugar em Bali, embora tenha surfado o fino nas fases iniciais da competição. Parece, finalmente, ter superado a síndrome da prancha ruim e acertado a escolha do equipamento.

Aliás, depois que passou Bourez, fez um magnífico jogo mental com Filipe Toledo, dizendo nas redes sociais que iria esmagá-lo se tivesse a oportunidade. O pai do surfista, Ricardinho, comprou a pilha e, à brinca, chamou-o de “bode velho”. Na água, prevaleceu a velha raposa, que levou Filipe a entrar no seu jogo, fazendo-o buscar apenas os tubos, único atributo em que o veterano realmente leva vantagem. De todo modo, o brasileiro está muito bem posicionado para o título deste ano.

Kelly? Bom, caso uma cerveja que ele ganha uma etapa este ano. E só.

Para Tulio, Kelly Slater surfou muito bem, mas foi beneficiado por um julgamento distorcido.

A história da etapa balinesa também é a surpresa de uma semifinal sem os big players de costume – a saber, Gabriel Medina, Filipe Toledo, Julian Wilson, Jordy Smith, Italo Ferreira e John John Florence. Desde a etapa de Fiji, em 2017, pelo menos um desses tops esteve alinhado entre os quatro melhores em todas as provas.

Em Keramas, restaram, além de Kanoa, Jeremy e Kelly, outra boa surpresa da prova, Michael Rodrigues. Rodrigues, que só parou diante do carving do francês, mostrou que a falta de patrocínio de bico não o desanima. O garoto tem surfe, pranchas excelentes e gana competitiva para crescer bastante no tour. Só precisa de uma marca a lhe dar mais conforto para competir sem a pressão da falta de dinheiro. Em Keramas, já salvou uma parte importante do ano, com a premiação de US$ 30 mil com o inédito terceiro posto, em seu segundo ano na elite.

Como as estrelas caíram? Pergunte ao humor do mar de Keramas, uma onda tão perfeitinha quanto instável, que pode ser trágica para um competidor que entre na água na hora errada. Quase todos da lista dos tops perderam por falta de oportunidade de surfar a onda da virada, em mares belos mas inconsistentes.

Aliás, se os melhores do masculino perderam, no feminino, quem passeou com a elegância de sempre, desenhando linhas refinadas na parede de Keramas, foi a rainha australiana Stephanie Gilmore. Entre as brasileiras, Silvana Lima, recuperada de lesão, fez excelente prova. Foi mais uma vítima do julgamento confuso da prova.

Michael Rodrigues mostrou que a falta de patrocínio de bico não o desanima.

Agora, nesta quarta-feira, sem nem tempo de respirar o fim de Keramas, começa a janela da etapa de Margaret River, com possibilidade de ativar a bancada de “The Box” como opção de competição, para desespero de (quase) todos os goofys.

Aliás, a temporada tem sido especialmente favorável aos regulares. Em Bali, apesar de ter Italo Ferreira na defesa do título da etapa, as ondas estiveram quase proibitivas para surfistas com base na perna esquerda. A angulação das ondas estava difícil de ser atacada de costas para a onda. Não à toa, restou apenas um goofy nas quartas, o veterano Ace Buchan, que conseguiu driblar a falta de espaço.

No ano, se considerarmos a forte possibilidade de a etapa brasileira ser realizada nas direitas da Barrinha, e a entendermos que Margaret River, em seu pico principal, só pontuar bem as direitas, serão seis etapas com direitas antes de Teahupoo. Não sou dos que acredita que sempre há vantagem para os regulares nessas condições – apesar, de em alguns casos, como The Box, o backside ser quase impossível. Mas, para o bem do espetáculo, seria legal ver surfistas descendo mais para a esquerda.

Para felicidade dos apaixonados pela disputa, o WCT 2019 anda embolado, com os quatro líderes separados por uma diferença de apenas dois mil pontos e outros oito surfistas a apenas cinco mil pontos do primeiro pelotão, quando já foram disputados 30 mil pontos. Estão todos no jogo.

É hora de remar forte, ao lado dos tubarões. Que toque a sirene no oeste australiano.