Tsunami com hora marcada

Bruno Alves resgata sessões marcantes nas pororocas do Rio Araguari, no Amapá.

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A perfeição da pororoca do Rio Araguari (AP)

Estávamos em pleno equinócio de verão, às 6:30 da manhã do dia 19 de março de 2011, exatamente na hora marcada para a entrada pelo estuário do Rio Araguari, no Amapá, da maior pororoca que o mundo do surfe teria conhecimento. Nesse dia histórico, a lua estaria no seu epigeu, ou seja, no ponto mais próximo de sua órbita na Terra dos últimos 18 anos, a cerca de 26.323km, por isso estava sendo chamada pelos astrônomos de ”Super Lua”, ou “Supermoon”, o que só voltará a ocorrer em 2029. Essa “Super Lua” indicava que na primeira maré de sizígia, a partir do dia 19 de abril de 2011, logo depois da alvorada, viria uma maré tsunâmica das mais pesadas e velozes.

Doze anos antes, no mês março de 1999, estive no mesmo local para surfar a pororoca do Rio Araguari, durante um outro fenômeno lunar, a “Lua Azul”, outra raridade que ocorre quando a lua fica cheia duas vezes durante o mesmo mês. Naquela ocasião, não contávamos com nenhuma estrutura e segurança, apenas com uma pequena voadeira, numa época em que surfar no Araguari era meio loucura, e pelo que eu sabia, apenas o Guga Arruda e Eraldo Gueiros haviam se aventurado por ali, com a retaguarda de uma grande embarcação. No dia 30 de março, navegamos sob muita chuva e ventos, com cinco pessoas, desde Ferreira Gomes, cidadezinha que fica a 200km da foz, rumo ao encontro do Araguari com o Oceano Atlântico.

Chegamos ao objetivo depois de dois de viagem, mais precisamente no dia primeiro de abril. E foi numa manhã fria e de tempestade do nosso terceiro dia, que avistamos a pororoca pela primeira vez entrando pelo estuário. Acompanhamos a maré por mais de uma hora rio adentro, quando num certo ponto eu decidi pular no rio para surfar aquela onda de barro, mas, antes de saltar, fomos surpreendidos pela mesma, logo após a embarcação encalhar em um banco de areia.

Conseguimos ainda surfar de voadeira a espuma, mas acabamos por submergir no centro do rio, numa área super inóspita onde as margens se encontravam em sua maior distância, a quase um quilômetro cada, margens de selva alagada que os biólogos chamam de Igapós.

Perdemos todos os equipamentos fotográficos, filmadoras, e ficamos náufragos por quase três horas debaixo de uma tempestade ininterrupta, e o milagre veio em forma de uma típica canoa dos povos ribeirinhos, com dois garotos nativos. Eles viviam a mais de 8km do acidente, mas conseguiram ouvir os gritos de socorro de dois de nós que foram arrastados em cima da minha prancha.

Voltando ao presente, o acidente já era um passado distante, e agora em 2011, eu me encontrava vivendo tudo aquilo novamente, mas feridas na alma nunca saem, ficam e marcam, talvez como lição eterna.

Ainda era bem escuro, quando dentro da nossa embarcação que estava aportada a uns 35km da foz do Rio Araguari, numa pequena enseada segura, se acendeu a primeira luz, logo depois do funcionamento do gerador, quebrando o silêncio da região. O clima era de expectativa, todos nós acordamos agitados para iniciar os preparativos e tomar um rápido café da manhã. A nossa “barca” era composta por seis surfistas – eu, o meu irmão Albertinho, o meu padrinho Saulo, o Serginho Laus, que, além de organizador da viagem, tem dois recordes mundiais homologados e um não oficial, e é o maior entendedor de surfe em pororoca do mundo, o seu amigo australiano Skeet Derham e o Alexandre Mattei, do Guarujá, mas que vive hoje em Itajaí, e que estava com um modelo de prancha que ele idealizou que é meio caiaque e meio SUP, o Shark Padlle.

Potência na parte rasa do rio.

O nosso barco / casa tinha uns 60 pés, era uma típica embarcação dos rios do Amazonas, conhecida como barco de rede, onde só se dorme em redes sem nenhum tipo de conforto. A nossa tripulação era composta por uma cozinheira, duas ajudantes, o capitão e dois ajudantes, dois barqueiros locais, o major Rille, que tocava a voadeira, o Zeca, que tocava o inflável, um piloto de jet, o Márcio, que era também o proprietário da embarcação de rede. Fora toda essa equipe, tínhamos um fotógrafo, o Toninho Jr., um ex-videomaker que passou a se dedicar em fotografar a pororoca.

Ainda era escuro, quando a nossa voadeira, o inflável e o jet zarpavam “silenciosamente”, se isso era possível, rumo ao estuário. Ao lado da nossa embarcação havia mais duas embarcações grandes. Em uma delas estavam o Picuruta Salazar, Ross Clark Jones, Gary Linden e uma equipe de TV australiana, e na outra, mais australianos e brasileiros. Nas margens onde havia um píer e algumas casas em palafitas, e onde morava o nosso barqueiro Zeca, estava atracado um jet, que transportava mais três surfistas, o Armando Diniz, Nil Faria, outro conhecedor de pororoca, e o Luizinho.

À medida em que as nossas embarcações se afastavam do tumulto, eu não tive muito tempo para refletir sobre o quanto aquilo tudo mudou, muita movimentação de gente, surfistas e turistas, bem diferente da primeira vez que ali estive, que a região era erma, remota e desconhecida na época para o mundo do surfe. Entretanto, a minha mente e o meu olhar focavam o horizonte, ao leste, que começava a dar os primeiros sinais de claridade, e no sentido oposto, a oeste, ocorria uma das cenas mais magníficas de toda a viagem, a lua se pondo redonda, bem no horizonte, literalmente um por de lua, e logo em seguida, novamente a leste, o sol aparecendo laranja, na linha do horizonte, resultado do perfeito alinhamento do sol a terra e a lua.

Já parados nas proximidades da foz do Araguari e o Oceano Atlântico, em shit place, local típico para ir ao banheiro nas margens lamacentas e que implica numa manobra um tanto desconfortável, o silêncio imperava. A água do rio impressionantemente descia a uma velocidade inacreditável na direção do mar, exatamente como um tsunami, e completando o cenário, não se ouvia nada além de um ronco, isso mesmo, um ronco que vinha da direção do oceano.

A palavra “pororoca” vem do termo poroc poroc, que significa “destruidor”,  no dialeto indígena do baixo rio Amazonas. O fenômeno, que ocorre nas mudanças da fase da lua, principalmente nos equinócios, começa devido ao encontro das águas do rio e do mar, quebrando o ciclo comum de seis horas de maré vazante e seis horas de maré enchente. Toda a água do rio que vaza em direção ao oceano fica retida e represada pela água salgada, já que não se misturam devido a densidades diferentes.

Quando a maré quebra o ciclo da vazante, ela começa a encher, e quando as águas vindas do oceano alcançam a desembocadura de rio, formam-se elevações que chegam a ter vários quilômetros de comprimento, que se movem rio acima com velocidade de 20 a 50 km/h.

Picuruta Salazar e Ross Clarke-Jones.

O encontro entre águas doce e salgada provoca ondas enormes que avançam rio adentro, com tanto poder a ponto de derrubar árvores, naufragar embarcações e causar erosões modificando o leito dos rios. O barulho é tão ensurdecedor que pode ser ouvido até com uma hora de antecedência, por isso que na linguagem Tupi, poro´roka significa estrondar.

E foi com esse estrondo que começamos a nossa real aventura. Era estampada na cara de cada um ali, uma fisionomia de tensão, principalmente para os quem nunca estivera nessas paragens. No meu caso, posso dizer, a ficha caiu, e por segundos me deu um “Déjà vu”, o que me deixou meio anestesiado mentalmente e fisicamente.

Mas, a tensão logo virou emoção quando o Márcio no seu jet se adentrou alguns quilômetros para fora soltou o Skeet na primeira onda, e nós ali parados nos outros dois barcos, observávamos com muita adrenalina, e eu sinceramente, não tenho palavras para descrever o que foi aquilo, ela, a pororoca, vinha em alta velocidade, roncando, grande, over head, e o Skeet arrepiando uma direita que foi a mais emparedada que alguém surfou em todos aqueles dias, e ele vinha acelerando, dando rasgadas, estoladas e inaugurando o surfe na “Super Lua”.

Foram mais de 7 minutos surfando até que a direita fechou, enquanto na margem direita formava uma série de grandes esquerdas que corriam na outra direção, arrancando gritos meu e do Albertinho. O Skeet por sua vez, foi se aguentando na espuma, até que a onda de trás comeu a da frente e ele instantaneamente desapareceu, no momento em que a onda fechava de margem a margem a uma velocidade de cerca de 30km/h. A massa de lama e água corria forte em nossa direção, que fugíamos em alta velocidade daquele tsunami. O Márcio, no seu jet, conseguiu resgatar o Skeet, que já estava muito longe de nós, mas a sua prancha quebrou em dois pedaços.

Logo em seguida, o Saulo foi lançado na água e ficou preso na espuma, e eu logo na sequência, “Meu Deus”, pensei, “estou novamente nas águas do Araguari”, e sem me dar conta fui engolido pela onda e tomei um caldão e fiquei para trás sozinho, isolado, o que me fez lembrar de tudo que passei, fiquei bem assustado, mas logo o Márcio no jet apareceu para me resgatar e me lançar mais adiante na onda que nesse momento abria um rabão para direita, e enfim consegui pegar, vencendo um fantasma que me perseguia por 12 anos e de uma vez por todas surfei a pororoca.

Mais à frente, depois de vários resgates e muitas ondas surfadas, chegamos num ponto em que a onda abria um vagalhão para a esquerda por mais de 15 minutos, e quando chegamos ali estavam na onda o Picuruta Salazar, o Ross e o Skeet. Era tanta gente, tanto jet, com aquelas ondas sem fim, over head, que tudo parecia uma alucinação, eu não sabia se olhava, me lançava na água, mas ali preferi ficar no barco e entender melhor a onda.

A esquerdona continuava sendo surfada enquanto se aproximava da margem direita do rio de quem olha para a foz, numa área geográfica em que o mesmo faz uma longa curva para a esquerda de quem olha para a foz. Nesse ponto ela fechou, se chocando com a margem, onde por reflexo começou a abrir um bowl de direita inacreditável, crescendo de volume e altura. As ondas que vinham de trás também iam se chocando com a margem e refletindo, formando uma cena espetacular com sete ou mais ondas alinhadas e paralelas e que abriram por mais ou menos de dez a quinze minutos.

Alberto Alves se preparando para pular do barco.

Na primeira delas, o Picuruta e o Skeet ainda estavam surfando, pois foram muito habilidosos em fazer a conexão da esquerda para direita com um close out entre as duas. O Ross desapareceu na conexão junto à margem do rio dentro de um tubão de chocolate, mas logo ele apareceria novamente na direita resgatado pelo seu jet, enquanto o Albertinho se jogava na água e pegava a mesma direita. Os dois, Ross e Alberto, se encontraram e deram as mãos se cumprimentado: “What are you fucking doing here?”, deve ter falado o Ross, que conhecia o Albertinho quando hospedou ele na sua casa em Laranjeiras (RJ) alguns anos antes. Mais uns trinta quilômetros rio para dentro, e mais ou menos uma hora a mais, a onda seguiu seu rumo até se dissipar. Todos nós fomos surfando um pouco aqui, um pouco ali.

O dia seguinte, dia 20 de março de 2011, estava reservado para entrar na história. Fomos novamente bem cedo lá fora até a foz e cada um ao seu estilo veio surfando até chegarmos em barco no centro do rio, onde avistamos o “bração” de esquerda, maior que o dia anterior, e na onda estavam surfando por um longo tempo o Ross Clark Jones e o Picuruta, que não tiravam o olho do relógio. Acho que estavam tentando bater um recorde de tempo.

O nosso bote corria ao lado com uma distância segura, literalmente surfando a esquerda, acompanhando o Ross e Picuruta, num dança de surfe, onde os dois se alternavam para a espuma e para a parede, e assim por diante. Num dado momento, o Picuruta me avistou com o Albertinho na lancha e nos chamou com gestos, mas preferimos não atrapalhar, e foi no momento crítico em que a esquerda fecha junto às margens para virar o grande bowl de direita, que entendi as palavras de Gary Linden no ainda no hotel, em Macapá: “O Gato é o melhor surfista de pororoca que existe, o Gato é o Gato”.

Realmente vi com meus próprios olhos. O Gato, que deve ter sete vidas, naquele espumão enorme após a onda fechar, ia se aguentando por alguns minutos enquanto o Ross era engolido, e na hora em que a direita abriu, começou um grande show do Picuruta com uma fish 5´8”. Ele surfava a maior onda já registrada em uma pororoca no mundo, com uma classe e estilo de um cara excepcional, com curva estilosas e se arrumando sempre no bowl com maestria, tudo isso aos olhares de barcos, da TV australiana, helicópteros…

No nosso bote, reparei o Skeet, que é um hot surfer, olhando com uma cara de impressionado. Pena que um jet que veio por trás da onda de forma irresponsável, entrou na parede, quase pegou o Gato, e fez uma marola que o derrubou, no auge de sua performance. Ele ainda apareceu deitado com uma massaroca de 3 metros atrás dele. A partir daí não vi mais nada, pois corremos para a próxima seção.

Eram tantas emoções durante o período de surfe, que à tarde, para aliviar a tensão, fazíamos algumas atividades como andar em cima de búfalo, jogar bola em pastos de lama, fazer SUP pelo rio, visitar povoados ribeirinhos de palafitas, bater fotos, explorar as margens destruídas e até encontrar uma boia oceânica no meio da selva, enfim, atividades mil na selva. Os momentos no barco eram bem animados, mas o tempo demorava a passar porque só tinha um surfe por dia, e como o tempo sobrava, acabávamos refletindo sobre cada dia, cada onda, cada caldo e cada sufoco.

E numa dessas reflexões, fiquei pensando se o Picuruta roubou o show do Serginho Laus, ou o Serginho entregou o show ao Picuruta. Acho que nos dois primeiros dias o Serginho ficou na dele na área de maior procura pela TV australiana e suas filmagens, surfando sempre as primeiras seções do rio e as intermediárias e finais, ainda mais sabendo que eles iriam embora nesse segundo dia e nós ainda teríamos mais quatro pela frente. Até o prezado momento eu só tinha visto ele surfando por fotografias.

Serginho Laus na primeira session noturna da pororoca.

Uma noite histórica

A noite do nosso segundo dia na pororoca se tornaria uma noite sem precedentes no Araguari. A lua cheia nasceu majestosa lá pelas 20:30, e no fenômeno da “Super Lua” a intensidade da luz aumenta 30% e o tamanho da esfera 14%. Depois de um excelente jantar, ao som do forró que corria solto no barco, começaram os preparativos para o surfe inaugural noturno da pororoca do Araguari.

O Serginho e o Skeet adornaram suas pranchas e a si próprios com aqueles tubinhos gelados luminosos, aquele usado em baladas. Todos nós colocamos aqueles colares e pulseiras, pegamos as lanternas e câmeras fotográficas, e saímos em dois barcos na claridade da lua cheia, sem vento algum, o que deixava o rio um espelho d água, onde refletia um rastro dourado da lua que há pouco havia despontado por trás da floresta.

Paramos as embarcações num local chamado de Mentawai, o mesmo local onde eu tive aquele acidente em 99, e esperamos por cerca de 15 minutos num silêncio absoluto, que foi rompido com o ronco que se aproximava, e junto com ele uma espuma reluzente. Um dos barcos seguiu para longe e no nosso ficou na zona de impacto, com o Albertinho, que estava dando o apoio com o holofote, eu, o Toninho, o Zeca pilotando e os dois que iriam cair na água. Quando a onda se aproximou do barco, por um instante ela atingiu a nossa popa, jogando a cabeça do Zequinha para trás, e por pouco não fomos engolidos, pois o motor chegou a engasgar com o ar da espuma.

Depois de alguns segundos, escapamos e começamos a surfar a onda na lancha, enquanto o Serginho pulava da mesma, numa manobra arriscada a mais de 30 quilômetros por hora e à noite. O Skeet pulou a seguir e alcançou o Serginho, e nós, na lancha, surfávamos a parte da espuma enquanto eles a parede. Por mais de 10 minutos eles surfaram uma onda over head no rastro de uma lua cheia, o que chegava ser surreal, cena das mais dignas de filmes de James Bond. Depois do feito, todos nós nos encontramos no cais de frente às nossas embarcações em estado de graça, e no rosto do Skeet e Serginho um semblante alucinado. O dia 20 de março de 2011 entra para história como o dia em que a pororoca do Araguari foi surfada à noite pela primeira vez, e a maior onda fotografada com um surfista em pororoca no mundo.

No terceiro dia, o barco do Ross e Picuruta já havia partido, e esse dia 21 foi clássico, com terral, que todos nós surfamos muito bem, e pude ver finalmente o surfe do Serginho Laus quando pegou uma direita que dispensa comentários logo depois do Alberto ter pulado e ficar preso na espuma. Enquanto o Serginho fazia a festa na direita, o Alberto ficou de jacaré por mais de 10 minutos numa espumeira cavernosa. Depois o Alberto conseguiu alcançar o rabo e se encontrar com o Serginho, que já estava com as pernas cansadas.

Eu pulei e estive com eles por um tempo, caí, voltei e eles ainda estavam na direita alternando de posição. O Skeet apareceu também e foram assim até o fim, após uns 25 minutos numa onda só. Seguimos até depois do local do atracadouro, numa área do rio que só o Serginho conhecia, que ele chamava de secret, e fomos perseguidos pelo barco com os australianos que nada conheciam dessa parte do rio. No fim, seguimos muitos quilômetros após a nossa embarcação, chegando fácil a mais de 45 quilômetros da foz. É mole?

Os dias se sucederam com ondas grandes, o crowd desapareceu e ficamos mais três dias vivendo o sonho das selvas, surfando as ondas mais longas do planeta, convivendo com povos ribeirinhos, comendo carne de jacaré, observando araras, guarás, garças rosas, ouvindo os gritos cabulosas dos bugios, o maior macaco das Américas e ouvindo histórias de sucuris, jacaré açus gigantes, piranhas e cobras.

Ao chegarmos em Macapá logo cedinho, depois de uma longa viagem de 18 horas entre canais e afluente do amazonas, concluí que aquela viagem fora inesquecível, e certo que, apesar de ter surfado boas ondas, ainda tinha muito que aprender sobre surfar em rios.

Pouco antes de fechar esta matéria, recebo um e-mail do Serginho Laus que confirma e sela definitivamente que a temporada do equinócio de verão de 2011 na pororoca do Araguari entra definitivamente para a história do surfe de pororocas no mundo. Veja os dois e-mails:

Primeiro e-mail

Oi, Bruno, tudo bem?

Como estão as coisas??? Cara, chegamos no sábado e estou colocando as coisas em ordem… Amanhã iremos colocar no Correio pra ti…

Preciso do seu endereço completo, por favor…

Deu altas ondasss…. muito bom… choveu mais e a maré seca estava muito alta… deu uma grande enchente e com isso o volume do rio aumentou! Cara, peguei uma onda de 1h10min, cerca de 23km, animal!!! Incrível, nem acreditei…. comecei no shit point lá fora e parei nas 9 direitas, na Curva do Onça!!!! Cruzei a Goela da Morte…. Impressionante!!!!

Segundo e-mail

Foi INCRÍVEL! Estava sem pretensão nenhuma de surfar uma distância tão longa… Como era o último dia de surfe na pororoca, a onda já estava menor e sabia que teriam seções em que precisaria de uma prancha veloz para conectar alguns trechos que ficavam somente ondulação!!! Peguei a minha 5’6” fish retrô quadriquilha que o Guga Arruda shapeou e fui pro surfe, dividindo a onda com o Skeet, o Pacelli, o Saulo Ramos, a Roberta Borsari, e depois de muito tempo e a onda entrando na seção 02 com a presença do Fábio Paradise (fotógrafo) e do pequeno valente Daniel.

Entrei na onda próximo à foz do Araguari, quase na frente da Fazenda Natal, quando a direita já vinha quebrando… Fomos surfando, surfando e surfando… sem aliviar, fazendo manobras e cruzando com os parceiros de onda… Começou clean, logo depois ficou com muito bump, e tinha momentos que foi realmente difícil de controlar a fish, principalmente quando ela ganhava velocidade e quase sem controle!!! Me safei de alguns “quase” wipeouts…. Parecia videogame quando na metade da direita do outside, o rio ficou infestado de plantas (mururés) e com 5 pessoas na onda desviando e fazendo zig zag com suas pranchas no meio do rio…

O mais peculiar é que cada um estava representando um tipo de modalidade do surfe: Longboard, Shortboard, SUP, Caiaque e Retrô. Muitos caíram durante o caminho… Somente o Skeet conseguiu ficar comigo a maior parte do tempo, mesmo assim não conseguiu até o fim. Depois de muitas curvas na direita, crescer e diminuir, ficar liso e mexido, passar em bowls, cheguei na Goela da Morte!!! Só ali caiu a ficha de que estava há muito tempo na onda… Nesse momento, procurei olhar para as margens e me localizar! Estava na hora de abandonar a direita e pegar o prumo da esquerda, mesmo que ela ainda nem teria formado!!! Em alguns segundos a espuma foi se desfazendo e eu fui ganhando velocidade… passei voando a seção!

Cara, essa prancha é muito rápida… Quando vi as lanchas cruzando a “Goela”, vi o Zeca fazendo sinal pra continuar tocando pra esquerda!!! Não hesitei e fui embora… A onda ali começou a fazer uma curva e pela primeira vez consegui dar o balão e insistir no espumeiro para que a esquerda ficasse acessível! Uma vez que já estava de olho nela e prevendo que não levaria muito tempo pra descansar as pernas!!!

Quando o braço se abriu na 02, foi só alegria… surfe e mais surfe até que a onda fosse para a margem esquerda do rio (olhando de quem está subindo o rio) e um enorme bowl foi surgindo… Eu e o Skeet conseguimos passar juntos essa seção… não acreditamos, pois passamos muito tempo somente na ondulação, que quase ficou flat… pra ter ideia, o Saulo Ramos, de longboard, e o Pacelli, de SUP, não conseguiram conectar!!! Quando ela levantou, a direita NineGhosts (kkkkk), o surfe voltou a ser mais radical e interminável!!!

Fui até o final… quando a direita vai conectando com a esquerda, as ondulações cruzadas navegam lateralmente e a ondulação se desfaz na Curva do Onça, antes de formar as Mentawai’s. Foram exatamente 1h10min… não podia acreditar! Olhava pro relógio e não acreditava… olhava pro Skeet e ele estava pirado!!! Só falava “Sick, sick, sick”!!! O Toninho e o Rille na lancha davam risada e aí olhei pra trás e vi que passava dos 23km surfando. Fiz até o cálculo com base no recorde anterior, que foi 11,8km em 36min… foi praticamente o dobro agora… o dobro, Bruno! Até hoje, flashes daquela onda e o tempo que fiquei nela batem na minha cabeça e fico refletindo… Pensava que surfar 20km seria um obstáculo muito difícil, quase impossível! Agora sei que posso, estou preparado e que o recorde irá voltar para o Brasil…

Na segunda-feira estou retornando pro Araguari somente pra registrar uma nova marca… seja de 5’6” fish quadriquilha, de SUP ou de ALAIA!!!

Vou cada dia com uma prancha diferente….hehehehe…. SICKKKKKK…..

Capricha na matéria, pois a pororoca da super lua merece um destaque MEGA! E mostrar que a Seven Ghosts é bonita, mas que no Brasil temos a melhor e mais animal de todas!!!

Ano que vem tem mais… te espero aqui!

Longas ondas e Aueraloha.

Serginho Laus

Infelizmente, depois dessa temporada histórica, a pororoca do Rio Araguari foi se extinguindo devido à ação dos homens, que construíram algumas hidroelétricas no Rio Araguari, e fazendeiros, que abriram canais para a criação de búfalos que vivem em pântanos e áreas alagadas, e tudo isso fez com que a foz do rio deixasse de ser caudalosa como antes, acabando com um dos maiores espetáculos e fenômenos da natureza brasileira que começou a ser conhecida para nós nos anos 70, com o Amaral Neto, o Repórter.

Bibliografia Pororoca, de Serginho Laus, editora Ediouro

Globo.com Notícias / Ciência

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