QS em Galápagos

Ryan Kainalo é vice

Ryan Kainalo fica em segundo lugar na Copa Sails of Change, etapa do QS em Galápagos, Equador. Miguel Tudela e Sol Aguirre são campeões.
Ryan Kainalo, Copa Sails of Change, Galápagos

Os peruanos Miguel Tudela e Sol Aguirre foram os melhores surfistas nas esquerdas perfeitas de Tongo Reef, bateram todos os recordes nas semifinais e foram coroados com os títulos da Copa Sails of Change Galápagos QS 1000 no Equador. Ambos deram um show também nas finais, contra o jovem brasileiro Ryan Kainalo e a experiente equatoriana Dominic Barona, que assumiu a liderança no ranking regional da World Surf League (WSL) Latin America. A próxima etapa já começa na próxima quinta-feira (12) no Brasil, a segunda válida pelo Circuito Banco do Brasil de Surfe, em Salvador, na Bahia.

“Estou contente pela vitória, mas a verdade é que a final foi bastante difícil, porque o Ryan (Kainalo) começou muito bem. Mas me recompus para tentar pegar boas ondas e acertei aquele aéreo, que me deu uma nota alta (9,50)”, disse Miguel Tudela. “Estou feliz em voltar a vencer um QS e é incrível poder competir em ondas tão boas como essas. Foi importante para mostrar o potencial desse lugar e só tenho que agradecer a todos os organizadores, a todas as pessoas daqui desse paraíso incrível. Quero agradecer também a todos do Peru, que estavam me apoiando, mandando mensagens e especialmente para a minha mãe, porque amanhã é o Dia das Mães e Arriba Peru!”.

Esta foi a quinta final de Miguel Tudela em etapas do WSL Qualifying Series e a sua terceira vitória. As outras duas foram em eventos no Peru, em 2012 e em 2017. O sábado decisivo foi mais um dia de ondas perfeitas no reef break de esquerdas da ilha San Cristóbal. Todos os recordes do campeonato foram batidos nas semifinais. No primeiro confronto do dia, Ryan Kainalo tinha superado as marcas dos dois primeiros dias, atingindo 18,15 pontos com notas 9,40 e 8,75. Após esta vitória sobre Rodrigo Saldanha, ele passou por outro brasileiro nas semifinais, Vitor Ferreira.

Recordes da temporada – Na disputa seguinte, Miguel Tudela começou a arriscar os aéreos e acertou um kerrupt flip de frontside muito alto, que arrancou a primeira nota 10 do ano na América do Sul. Neste duelo de surfistas olímpicos contra o chileno Manuel Selman, o peruano ainda tirou duas notas excelentes, 8,35 e 8,50. Com os 18,50 pontos, se tornou o recordista absoluto não só da Copa Sails of Change Galápagos, mas de todas as três etapas da temporada 2022/2023 da WSL Latin America.

Na categoria feminina, Sol Aguirre também foi imbatível com seu ataque agressivo de backside nas esquerdas perfeitas de Tongo Reef. Na semifinal contra a brasileira Isabela Saldanha, ela só surfou três ondas, ganhando nota 9,00 na primeira, 7,50 na segunda e 8,35 na terceira. Com esta última nota, fez o maior placar feminino da temporada 2022/2023 também. Os seus 17,35 pontos superaram os 17,10 de outra peruana, Daniella Rosas, na Argentina.

Na outra semifinal, Dominic Barona venceu o duelo equatoriano com Genesis Garcia por 11,50 a 9,75 pontos e já passou a dividir a liderança do ranking regional da WSL Latin America com Daniella Rosas. Se a rainha do surfe equatoriano vencesse a Copa, se isolaria na frente. Mas Sol Aguirre estava imbatível nas ondas de Tongo Reef. Ela praticamente garantiu a primeira vitória da sua carreira em etapas do WSL Qualifying Series, nas duas primeiras ondas que surfou e valeram notas 7,00 e 8,25.

“Nem consigo acreditar, mas estou superfeliz em ganhar o meu primeiro QS e só posso agradecer este momento, com o mar, com as ondas e com competidoras tão boas, como a Mimi (Dominic Barona)”, disse Sol Aguirre, na entrevista para a sua irmã, Leilani Aguirre, que estava trabalhando na transmissão ao vivo do evento. “Poder estar neste país tão lindo, conhecer lugares tão bonitos, foi incrível. Na semifinal, só queria surfar sem pensar em nada, mas agora na final me concentrei mais e estou superfeliz. Eu quero agradecer a todos meus patrocinadores, minha família também que sempre me apoia e a todos os peruanos que estão assistindo, pois só quero representar bem meu país”.

Decisões dos títulos – As baterias que fecharam o evento foram um verdadeiro show de surfe, como na maioria das que aconteceram desde o primeiro dia desta etapa inédita do World Surf League (WSL) Qualifying Series no Equador. A decisão do título feminino foi a primeira a entrar no mar e Sol Aguirre já começou forte, com dois ataques potentes de backside no crítico da onda, que valeram nota 7,00.

Dominic responde rasgando sua primeira onda com dois cutbacks de frontside. Mas a peruana logo detona outra esquerda, jogando muita água nas manobras, com a segunda invertendo a direção da prancha e as quilhas passando do lip. Os juízes dão 8,25 nessa onda e o máximo que Dominic conseguiu depois, foi nota 5,15. Com isso, a primeira vitória da jovem peruana de apenas 18 anos de idade, foi confirmada por uma larga vantagem de 15,25 a 9,00 pontos.

Na final masculina, Miguel Tudela pegou as primeiras ondas e já arriscou um aéreo, porém não aterrissou. Enquanto Ryan Kainalo fica com a prioridade de escolher a próxima, o peruano pega outra que ele deixa passar e dessa vez escolhe usar a borda da prancha para fazer uma série de manobras, vibrando na finalização. O brasileiro vem na onda de trás mostrando a potência do seu backside, com batidas verticais e fortes rasgadas abrindo grandes leques de água, até a finalização na junção. Miguel ganha nota 8,00 e a do Ryan valeu 8,90.

Não demora e o brasileiro pega outra onda boa para repetir seu ataque feroz de backside, que vinha batendo recordes a cada bateria. Ele recebe nota 7,50 nesta segunda onda e abre 8,41 pontos de vantagem sobre o peruano nos primeiros 15 minutos, dos 35 de duração da bateria. O jogo se inverte e Ryan passa a pegar as ondas que Miguel deixa passar, mandando um aéreo 360 um pouco baixo, não conseguindo trocar a sua nota mais baixa.

O peruano escolhe a segunda onda da série e usa a sua arma em outro voo espetacular, como o da nota 10 na semifinal. Não foi um aéreo kerrupt flip tão alto, mas os juízes dão 9,50 e ele assume a ponta com 17,50 pontos, contra 16,40 do brasileiro, que passa a precisar de 8,61 para vencer. Ryan falhou nas outras tentativas de reverter o resultado e Miguel Tudela fica merecidamente com o título.

“Estou muito contente, porque é muito difícil competir com surfistas tão bons no QS, então estou feliz pelo resultado também”, disse Ryan Kainalo. “Foi muito especial fazer a final aqui em Galápagos, um lugar incrível com altas ondas. Ainda tem muitos campeonatos esse ano e estou contente por começar bem, já fazendo uma final no início da temporada”.

Mudanças nos rankings – O resultado provocou várias mudanças nos rankings regionais da WSL Latin America, que classificam os surfistas da América do Sul para o Challenger Series, único caminho para se chegar na elite do World Surf League Championship Tour. O campeão, Miguel Tudela, não tinha participado das duas primeiras etapas e já começa em quinto lugar com os 1.000 pontos recebidos.

O único que poderia tirar a liderança do argentino Santiago Muniz em Galápagos, era o brasileiro Gabriel André, mas só conseguiria isso com a vitória e foi barrado por Miguel Tudela nas quartas de final. Mesmo assim, ele subiu para o segundo lugar com 1.216 pontos, que foram igualados por Ryan Kainalo com seu vice-campeonato no Equador. Os dois estão empatados na vice-liderança do ranking das três primeiras etapas da temporada 2022/2023.

Além dos finalistas, mais três surfistas entraram no grupo dos 10 primeiros colocados, que serão indicados para o Challenger Series de 2023. Dois são os brasileiros derrotados no sábado por Ryan Kainalo, que estava em 18º lugar. Rodrigo Saldanha perdeu nas quartas de final e subiu da 23º para a oitava posição com os 500 pontos do quinto lugar. Os outros são os semifinalistas Vitor Ferreira e Manuel Selman, que marcaram 650 pontos. O brasileiro saltou do 37º para o sétimo lugar e o chileno subiu da 38º para a nona posição.

Já no ranking feminino da WSL Latin America, apenas as finalistas entraram no grupo das quatro que se classificam para o Challenger Series. A equatoriana Dominic Barona passou a dividir a liderança com a peruana Daniella Rosas e a campeã, Sol Aguirre, está empatada em terceiro lugar com a brasileira Tainá Hinckel, que venceu a etapa passada, a primeira do Circuito Banco do Brasil de Surfe em Santa Catarina.

Próximas etapas – A batalha pelas vagas da WSL Latin America para o Challenger Series 2023, prossegue com mais duas etapas seguidas neste mês de maio. Na quinta-feira, já começa a segunda do Circuito Banco do Brasil de Surfe na Praia de Stella Maris, em Salvador, na capital da Bahia. A outra será no Chile, que vai promover nos dias 17 a 22, o primeiro QS 3000 da temporada 2022/2023, o Quiksilver Iquique Pro e o Roxy Iquique Pro, além das primeiras seletivas sul-americanas para o Mundial Junior da World Surf League.

O evento foi apresentado pelo Conselho de Governo do Regime Especial de Galápagos e patrocinada pela Prefeitura de San Cristóbal. O evento foi realizado com o princípio da igualdade na premiação para homens e mulheres, com Miguel Tudela e Sol Aguirre recebendo o mesmo valor de 2.000 dólares pelas vitórias. Os três dias da competição foram transmitidos ao vivo do Equador pelo WorldSurfLeague.com.

Resultados

Campeão: Miguel Tudela (PER) por 17,50 pts (9,50+8,00)
Vice-campeão: Ryan Kainalo (BRA) com 16,40 pts (8,90+7,50)

Semifinais
1 Ryan Kainalo (BRA) 15,95 x 11,35 Vitor Ferreira (BRA)
2 Miguel Tudela (PER) 18,50 x 15,05 Manuel Selman (CHL)

Quartas de final
1 Ryan Kainalo (BRA) 18,15 x 13,10 Rodrigo Saldanha (BRA)
2 Vitor Ferreira (BRA) 16,50 x 10,15 Philippe Neves (BRA)
3 Manuel Selman (CHL) 16,50 x 15,25 Snaider Parrales (ECU)
4 Miguel Tudela (PER) 15,50 x 14,00 Gabriel André (BRA)

Decisão Feminina
Campeã: Sol Aguirre (PER) por 15,25 pts (8,25+7,00)
Vice-campeã: Dominic Barona (ECU) com 9,90 pts (5,15+4,75)

Semifinais
1 Dominic Barona (ECU) 11,50 x 9,75 Genesis Garcia (ECU)
2 Sol Aguirre (PER) 17,35 x 13,55 Isabela Saldanha (BRA)

Top 10 do Ranking 2022/23 da WSL Latin America
1 Santiago Muniz (ARG) – 1.650 pontos
2 Ryan Kainalo (BRA) – 1.216
2 Gabriel André (BRA) – 1.216
4 Leo Casal (BRA) – 1.150
5 Alejo Muniz (BRA) – 1.000
5 Miguel Tudela (PER) – 1.000
7 Vitor Ferreira (BRA) – 860
8 Rodrigo Saldanha (BRA) – 855
9 Manuel Selman (CHL) – 850
10 Alonso Correa (PER) – 800
10 Messias Felix (BRA) – 800

Top 10 do Ranking 2022/23 da WSL Latin America Feminino
1 Daniella Rosas (PER) – 1.650 pontos
1 Dominic Barona (ECU) – 1.650
3 Taina Hinckel (BRA) – 1.500
3 Sol Aguirre (PER) – 1.500
5 Isabela Saldanha (BRA) – 1.200
6 Melanie Giunta (PER) – 1.000
6 Genesis Garcia (ECU) – 1.000
8 Nairê Marquez (BRA) – 995
9 Arena Rodriguez (PER) – 950
10 Kiany Hyakutake (BRA) – 945

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.