MEO Vissla Pro Ericeira

Imaikalani é 10

Havaiano Imaikalani deVault volta a dar show em Portugal, marca nota 10 e vence bateria com o expressivo somatório de 19.60 pontos. Cinco brasileiros seguem vivos no MEO Vissla Pro Ericeira.
Pro Ericeira, Ribeira D'Ilhas, Portugal

Imaikalani deVault deu espetáculo nesta quinta-feira (7) em Portugal. O havaiano voltou a surfar bem no MEO Vissla Pro Ericeira, mas dessa vez chegou na nota máxima e ainda colocou mais 9.60 pontos no somatório, para vencer com a expressiva marca de 19.60. O dono das maiores marcas da competição está garantido nas oitavas de final, fase que terá quatro brasileiros. Entre as meninas, Silvana Lima esbanja categoria, vence e chega nas quartas.

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O dia amanheceu com altas ondas de 1,5 metro em média no pico português de Ribeira D’Ilhas, porém com alguns longos momentos de flat. Os homens abriram a quinta-feira com as disputas da terceira fase, e Imaikalani fechou a participação masculina.

O havaiano mostrou as cartas logo na sua segunda onda, ainda no início da disputa. Ele dropou, ganhou a seção e começou a dar show. Com batidas fortes, layback na pressão, além de uma boa rasgada invertendo a direção da prancha, ele anotou 9.60 pontos e colocou pressão nos adversários.

Alguns minutos depois ele disparou na frente com uma nota 10. Imaikalani precisou de apenas três manobras, porém todas muito expressivas e no limite para chegar à expressiva pontuação de 19.60. Com essas duas notas, o havaiano chegou a cinco pontuações no critério excelente marcadas em três fases.

“Foi muito divertido! Gosto muito baterias que tenho várias oportunidades”, fala Imaikalani. “Algo está dando certo para mim, então vou repetir o que já venho fazendo. Eu fiz as notas altas e ainda tinha muito tempo de bateria, então esqueci até da disputa e foquei em fazer linhas diferentes. Foi realmente muito maneiro”.

Caio Ibelli e Callum Robson não estavam bem na disputa. Porém o australiano arrancou uma nota no critério excelente (8.17) quando restavam nove minutos para o fim. Callum pegou uma onda que teve várias seções críticas, e atacou as paredes com fortes batidas.

Depois o aussie complicou ainda mais o caminho do brasileiro ao marcar 7.00 pontos. Caio passou a necessitar de 15.17 para avançar e acabou eliminado, porém antes de se despedir, nos segundos finais, deu um show com 9.20 pontos, numa direita finalizada com um aéreo bizarro na junção.

Caio foi dos quatro brasileiros eliminados nesta quinta-feira. Deivid Silva abandonou o Pro Ericeira para estar com a família, que passa por problemas de saúde. Os outros foram Mateus Herdy e Ian Gouveia, ambos em baterias que tiveram outros brazucas.

O sexto duelo da terceira fase masculina teve o detentor do título do Pro Ericeira em ação. Samuel Pupo voltou a mostrar sintonia com o pico de Ribeira D’Ilhas, e a surfar de maneira fluída, em alta velocidade, executando curvas com pressão e com uma linha limpa. Ele abriu com 7.17 pontos, depois colocou mais 6.67. Porém o melhor estava por vir.

Ian Gouveia fazia um ataque forte e vertical de backside e estava em segundo lugar com as notas 7.20 e 5.23 pontos. Mas Jackson Baker mudou a história da bateria perto dos 15 minutos. O australiano fez boas curvas e foi até o inside, onde bateu para finalizar a apresentação. A nota 8.00 deu a liderança para Jackson.

Samuel precisava de 7.01 pontos para assumir a ponta e foi em busca da nota quando restavam seis minutos. O brasileiro fez três manobras, sendo um layback poderoso, a melhor. A atuação valeu 8.90 e a vitória.

Ian precisava de 6.98 pontos para avançar, mas viu o australiano usar a prioridade e aumentar a diferença com a nota 7.00. Ian acabou eliminado do evento, na 17ª posição.

“Foi uma ótima onda (8.90). Eu estava sem a prioridade, e quando vi a direita sabia que seria incrível. Eu tentei não mostrar interesse na onda para ninguém remar. Depois eu fiquei rezando nos minutos finais para achar outra direita boa e ir para primeiro lugar, e deu certo”, fala Samuel.

A terceira disputa também teve dois brasileiros na água. Todos começaram bem, mas o estrangeiro foi o único a chegar no critério excelente. Carlos Muñoz entrou em ação no oitavo minuto de bateria e estraçalhou a onda. O costa-riquenho surfou com velocidade, atacou as muitas seções críticas da onda com rasgadas e batidas poderosas, e conquistou 9.00 pontos.

Mateus se adiantou com duas notas na casa dos seis pontos (6.67 e 6.10) e ficou em segundo lugar até perto dos cinco minutos finais. Thiago achou uma onda boa, rasgou com pressão e bateu forte para receber 7.40 e assumir a liderança. Porém logo depois Carlos reassumiu a ponta.

Mateus, que estava surfando muito bem na bateria, passou a precisar de 6.74 pontos para avançar. Ele até pegou algumas ondas, mas não conseguiu mais seções para atingir a nota e foi eliminado.

João e Alejo também vencem – A primeira vitória brasileira no dia foi com João Chianca, na segunda bateria. Quem começou melhor foi Lucca Mesinas. O peruano pegou uma direita que teve parede em pé, fez um ataque vertical e anotou 6.00 pontos. O brasileiro errou a finalização na primeira onda.

Lucca voltou a surfar após um momento de flat. Ele novamente fez a onda inteira e aumentou a distância no placar com 5.17 pontos. A bateria de 30 minutos já estava na segunda metade e João estava em terceiro com apenas uma onda, próximo do segundo colocado, o norte-americano Jake Marshall.

O brasileiro surfou uma onda durante a prioridade de Jake. Restavam dez minutos. João fez um ataque com três batidas, sendo a última a mais expressiva, com potência e chutada de rabeta. A apresentação valeu 7.00 pontos e a segunda posição na bateria. Mas ele queria mais.

João pegou outra direita quando restavam dois minutos para o fim, fez boas curvas durante toda a onda até bater forte na junção, já no inside. A nota 6.43 pontos deu a vitória para o brasileiro. Lucca avançou em segundo lugar e Jake foi eliminado.

“Estou me sentindo ótimo. Hoje de manhã as ondas estavam demais. Eu fiz um surfe bem cedo e peguei ótimas ondas. Na minha bateria as séries ficaram mais demoras. Peguei meu 7.00 (pontos) perto dos dez minutos de bateria. Então fiquei esperando uma nova oportunidade. Então tive que bloquear o Jake, que é um surfista muito bom, mesmo a onda sendo ruim. Eu fiz um 3.73, mas acabou parei no lugar certo pra pegar uma direita melhor e fazer 6.43. Estou amarradão, pois essa vai ser a minha primeira bateria homem a homem no Challenger Series. Estou ansioso”, diz João.

Alejo Muniz destruiu uma direita logo no início do sétimo confronto. O brasileiro acelerou no início e rasgou duas vezes com muita força. Na sequência ele bateu reto, e depois deu outra pancada, porém chutando a rabeta. O brasileiro entrou no inside, rasgou novamente com muita vontade e bateu mais duas vezes. A atuação valeu 8.43 pontos.

A bateria chegou na metade e o australiano Cooper Chapman estava em primeiro lugar, com as notas 5.00 e 4.83 pontos. Alejo ocupava a segunda posição e o surfista de Barbados, Josh Burke, estava na terceira, mas com 7.17 pontos na melhor atuação.

Logo Alejo colocou mais 5.53 pontos no somatório e se firmou na liderança. Josh também chegou na casa dos cinco pontos e complicou o caminho de Cooper. O australiano passou a precisar de 7.50 para avançar, mas não chegou perto de conquistar a nota e foi eliminado.

Silvana nas quartas – A bateria de Alejo foi a penúltima dos homens no dia. As meninas foram para água depois deles, e Silvana Liman ão deu chances para a australiana Keely Andrew.

Silvana marcou a primeira nota expressiva com sete minutos de disputa. Os 7.83 pontos foram apenas um aquecimento. Após um longo momento de flat, a brasileira conquistou 8.17 mesmo errando a última manobra. Ela rasgou forte, bateu e caiu na terceira batida.

Keely ficou em maus lençóis, precisando de duas ondas para vencer, mas ela ainda tinha 12 minutos. Porém foi Silvana que subiu ainda mais o nível. A brazuca executou rasgadas amplas, além de um floater. A performance valeu 9.03 pontos e garantiu uma vaga nas quartas de final.

“As ondas estão tão boas que eu lembro de J-Bay”, diz Silvana, “Estou muito feliz por passar de fase e ter outra oportunidade de surfar essas direitas. Minha prancha é um pouco pequena para esse mar, é uma 5’7″, mas funcionou e estou muito feliz”.

A próxima adversária de Silvana é Pauline Ado, francesa que eliminou Summer Macedo no segundo duelo feminino do dia. Pauline venceu com duas notas na casa dos seis pontos (6.83 e 6.07), enquanto a brasileira marcou duas na casa dos cinco (5.67 e 5.33) e perdeu precisando de 7.23.

Havaiana no critério excelente – A melhor menina no dia foi Bettylou Sakura Johnson. A havaiana venceu a australiana Macy Callaghan com duas notas na casa dos nove pontos (9.43 e 9.23).


Susto – Teresa Bonvalot tomou um susto nesta quinta-feira. Ela participava da última bateria do dia e parou nas pedras após terminar sua primeira onda. Ela partiu para uma batida no inside, porém errou. As ondas continuaram indo na direção da portuguesa que foi jogada nas rochas. Ela recebeu ajuda para sair da situação, pegou a prancha e voltou correndo para o mar. Ela acabou eliminada pela havaiana Luana Silva pelo placar de 16.40 a 10.24 pontos.

Próxima chamada – A próxima chamada para o Pro Ericeira acontece nesta sexta-feira (8), às 4h (de Brasília).

Assista às disputas ao vivo aqui no Waves.

Round 3 Masculino
3º=17º lugar ($ 2.000 e 2.000 pts)

1 Ezekiel Lau (HAV) 12.26, Jordan Lawler (AUS) 12.00, Deivid Silva (BRA) 0.00

2 João Chianca (BRA) 13.43, Lucca Mesinas (PER) 11.17, Jake Marshall (EUA) 7.90

3 Nat Young (EUA) 16.60, Hiroto Ohhara (JPN) 12.74, Jacob Willcox (AUS) 8.83

4 Carlos Muñoz (CRI) 16.17, Thiago Camarão (BRA) 13.40, Mateus Herdy (BRA) 12.77

5 Cole Houshmand (EUA) 15.16, Dylan Moffat (AUS) 13.67, Kauli Vaast (FRA) 13.20

6 Samuel Pupo (BRA) 16.07, Jackson Baker (AUS) 15.00, Ian Gouveia (BRA) 12.43

7 Alejo Muniz (BRA) 13.96, Josh Burke (BRB) 12.50, Cooper Chapman (AUS) 9.83

8 Imaikalani deVault (HAV) 19.60, Callum Robson (AUS) 15.17, Caio Ibelli (BRA) 13.87
Oitavas de final
2º=9º lugar ($ 2.750 e 3.500 pts)

1 Ezekiel Lau (HAV) x Lucca Mesinas (PER)

2 João Chianca (BRA) x Jordan Lawler (AUS)

3 Nat Young (EUA) x Thiago Camarão (BRA)

4 Carlos Muñoz (CRI) x Hiroto Ohhara (JPN)

5 Cole Houshmand (EUA) x Jackson Baker (AUS)

6 Samuel Pupo (BRA) x Dylan Moffat (AUS)

7 Alejo Muniz (BRA) x Callum Robson (AUS)

8 Imaikalani deVault (HAV) x Josh Burke (BRB)

Round 3 Feminino
2ª=9º lugar (US$ 2.750 e 3.500 pts)

1 Silvana Lima (BRA) 17.20 x 10.93 Keely Andre (AUS)

2 Pauline Ado (FRA) 12.90 x 11.00 Summer Macedo (BRA)

3 Shino Matsuda (JPN) 18.14 x 17.26 Alyssa Spencer (EUA)

4 Gabriela Bryan (HAV) 15.33 x 14.06 Yolanda Hopkins (PRT)

5 Brisa Hennessy (CRI) 15.47 x 11.57 Keala Tomoda-Bannert (HAV)

6 Ariane Ochoa (ESP) 14.90 x 14.57 India Robinson (AUS)

7 Bettylou Sakura Johnson (HAV) 18.66 x 14.83 Macy Callaghan (AUS)

8 Luana Silva (HAV) 16.40 x 10.24 Teresa Bonvalot (PRT)

Quartas de final
2ª=5º lugar (US$ 3.500 e 5.000 pts)

1 Silvana Lima (BRA) x Pauline Ado (FRA)

2 Shino Matsuda (JPN) x Gabriela Bryan (HAV)

3 Brisa Hennessy (CRI) x Ariane Ochoa (ESP)

4 Bettylou Sakura Johnson (HAV) x Luana Silva (HAV)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.