Olimpíadas

Italo é ouro

Italo Ferreira derrota algoz de Gabriel Medina e fatura medalha de ouro para o Brasil nas Olimpíadas de Tóquio.
Italo Ferreira, Jogos Olímpicos 2021, Tsurigasaki Beach, Ichinomiya, Chiba, Japão

A primeira medalha de ouro da história do Surfe nas Olimpíadas é do Brasil. Nesta terça-feira (27) Italo Ferreira acaba de superar o japonês Kanoa Igarashi na final dos Jogos de Tóquio e vai ouvir o hino brasileiro no alto do pódio.

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Exímio aerialista, Italo venceu a final com manobras de borda. Aos seis minutos de bateria, o brasileiro deu duas batidas verticais e fortes, além de outra mais fraca numa junção. A nota 7.00 foi o primeiro golpe mais contundente de Italo na disputa.

Três minutos depois o brasileiro rasgou, bateu na junção grande de espuma numa esquerda e se distanciou com 5.50 pontos. Nesse momento, o japonês já precisava de 8.67 pra reverter o resultado. Mas veio outro golpe aos 19 minutos. Italo colocou potência e foi vertical em duas batidas, adicionou 7.77 no somatório e deixou Kanoa na necessidade de 14.77 pontos, ou seja, duas ondas para tirar a liderança do brasileiro.

Italo ainda deu outro golpe, com mais duas batidas e 7.37 para aumentar ainda mais a diferença. O japonês, que tirou o brasileiro da luta pelo ouro, ainda tentava, mas errava na escolha das ondas e não dava sorte nas que abriam. O tempo passou e ele não chegou perto de sair da combinação de notas. Placar final: Italo com 15.14 pontos, Kanoa com 6.60 e medalha de ouro para o Brasil.

“Eu vim com uma frase pro Japão: ‘Diz amém que o ouro vem’. E veio, né. Eu acreditei até o final, eu treinei muito os últimos meses e Deus realizou meu sonho. Eu só tenho a agradecer a Deus em primeiro lugar, que me dá oportunidade de poder fazer o que eu amo (voz embargada), de ajudar as pessoas, ajudar minha família… Fui pra dentro d’água, sem pressão, fazer o que eu amo, e consegui o que eu quis, graças a Deus”, disse Italo.

“Eu queria que minha vó estivesse viva para ver isso, o que eu me tornei, o que eu consegui fazer pelos meus pais, por aqueles que estão ao meu redor. Não sei, não tenho palavras, só tenho que agradecer. Eu almejei bastante, eu sonhei. Está lá do lado da minha cama, essa frase que eu falei no início… Todo dia eu orei às três da manhã, pedi a Deus que ele realizasse esse sonho. E está aí, meu nome está escrito na história do Surfe”.

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Sobre a torcida brasileira, o medalhista de ouro falou: “Eu nem queria pegar a medalha. Eu juro que eu queria voltar pra dar um abraço em cada um de vocês, que ficaram torcendo. Estou muito grato por tudo, não só minha família, mas recebi uma força imensa dos brasileiros que estavam acompanhando. Sei que é de madrugada (no Brasil), que a galera deve estar cansada, uns estão indo trabalhar, outros tiraram o dia de folga, mas valeu a pena. Obrigado pela torcida, a gente se vê no Brasil”.

Italo também falou sobre o momento do Surfe, um esporte antes marginalizado, mas que hoje é Olímpico e que dá a primeira medalha dourada dos Jogos de Tóquio para o Brasil. “Não só o Surfe, o Skate também fez história, com as meninas, os meninos. Está todo mundo de parabéns! Aqueles que conseguiram a medalha, aqueles que colocaram seus nomes na história também. Queira ou não, vai estar lá pela primeira vez. Vocês fizeram história, a gente fez história. Eu ficava torcendo, assistindo a galera nos outros esportes. Quase quebrei a mesa na torcida para a galera ganhar a medalha de ouro. Rayssinha chegou próximo, Kelvin chegou próximo e aí eu falei: ‘Agora é minha vez’. Aí eu cheguei na final e deu tudo certo, graças a Deus”.

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O caminho até o final – O terceiro e último dia do Surfe nos Jogos Olímpicos de Tóquio teve ondas mexidas e algumas séries com mais de 1,5 metro de altura em Tsurigasaki Beach. Em muitos momentos desta terça-feira (27) o mar ficou no estilo “máquina de lavar”, com espuma para todos os lados.

Italo começou o trajeto até a final na terceira bateria do dia, contra o japonês Hiroto Ohhara, válida pelas quartas de final. Assim que a buzina de início soou, o brasileiro entrou numa direita, acelerou e voou muito alto, com rotação completa e aterrissagem perfeita. A nota foi 9.73 pontos, a maior de todo o evento.

O caminho ficou complicadíssimo para Hiroto. O japonês seguiu lutando, porém passou parte da bateria na necessidade de uma nota no critério excelente, e outra parte precisando de duas ondas para mudar o resultado.

Italo chegou a voar novamente, mas errou, porém soltou boas manobras de backside e venceu com facilidade. A segunda maior nota dele foi 6.57 pontos com duas manobras fortes, sendo a segunda na junção com forçada de rabeta. Antes, ele já tinha feito 6.43 com uma performance de três manobras numa direita.

“Tem muita oportunidade lá dentro. Entrei nessa bateria bem confiante, sabia que se eu pegasse as ondas eu faria as notas. Fui construindo (o somatório) onda a onda. Isso me deixa confiante. Tem duas baterias pela frente, então é continuar na pegada, continuar no ritmo e ir pra cima”, disse Italo após a bateria.

Semifinal – Na semi Italo errou quase todos os voos e garantiu a vitória no surfe de borda. Foram sete tentativas de aéreo e só um completado, que valeu 6.50 pontos.

Owen Wright chegou a assustar quando deu duas batidas e tirou 6.00 pontos num momento que precisava de 6.01. Depois Italo fez uma boa junção numa esquerda (6.67) e abriu vantagem. O australiano ainda foi em busca 7.17 que necessitava, porém só conseguiu 6.47 com uma rasgada e uma batida na junção.

“Estou bem confiante. Acho que o vento atrapalhou um pouco algumas manobras que eu tentei executar na bateria, (mas) não precisei. Foi difícil, mas acho que Deus está guardando algo para a final e eu vou com tudo”, comentou Italo após a vitória. Sobre a final ele disse: “Eu só penso em ganhar, me divertir e fazer as melhores notas. Vou ouvir música e ficar dançando até a hora da bateria”.

Algoz de Medina – O primeiro medalhista de ouro do Brasil nas Olimpíadas de Tóquio vingou Gabriel Medina na final. O brasileiro caiu na semi contra Kaona, numa bateria que teve resultado polêmico.

Após o início avassalador de Medina, Kanoa Igarashi conseguiu a virada perto do fim e colocou o Japão na grande final. Assim como nas quartas, o brasileiro voou alto, e em dez minutos de disputa já tinha as notas 8.33 e 8.43 pontos. Isso deixou o japonês na necessidade de 9.09 pontos para assumir a liderança. O tempo passava e Kanoa não achava ondas com potencial, porém quando restavam sete minutos o japonês acelerou na direita e decolou alto, com uma das mãos na borda, fez o giro completo antes de aterrissar e completou a manobra de forma perfeita.

A nota demorou a sair, mas quando foi divulgada deu para ouvir os gritos dos japoneses na praia, o que indicava a virada. E ela veio com 9.33 pontos. Medina passou a precisar de 8.58 e só teve uma chance no restante do duelo, porém não chegou perto da nota. A derrota foi pelo placar de 17.00 a 16.76. Logo após a eliminação, as redes sociais foram bombardeadas por posts de brasileiros que não concordaram com a nota dada para Kanoa.

Luta pelo bronze – A derrota tirou Medina da luta pelo ouro, mas ele ainda podia conquistar o bronze e foi para a luta contra Owen. O australiano começou bem o duelo e contou com os erros do brasileiro para vencer e garantir o pódio para a Austrália.

Aos cinco minutos de bateria, Owen soltou duas rasgadas e uma batida para largar com 6.50 pontos. Medina deu o troco na sequência com uma rasgada e um aéreo reverse, que completou após cair de layback antes de se reequilibrar e ficar em pé. A nota foi 5.43.

Quando restavam 12 minutos para o fim, os dois atletas surfaram. Primeiro foi Medina, em busca dos 3.18 que precisava. Ele executou duas batidas verticais e uma rasgada leve numa direita. Logo depois Owen foi para a esquerda, executou um floater e ganhou a seção para executar duas rasgadas, a segunda bem alongada e invertendo bem a prancha.

Mesmo Medina tendo surfado primeiro, a nota de Owen foi divulgada antes. Os 6.50 pontos deixaram o brasileiro na necessidade de 6.21. Passado mais alguns instantes, Medina levou 6.00.

Dali pra frente nada deu certo, inclusive uma tentativa de aéreo muito alto a dois minutos do término. Fim de bateria e medalha de bronze para a Austrália.

“Surfei bem, infelizmente não deu. Agora é voltar pra casa e descansar”, disse Gabriel Medina após a derrota. O brasileiro também falou sobre a polêmica bateria contra o japonês Kanoa Igarashi, na semifinal. “É triste quando isso acontece. Muita gente mandou mensagem… É difícil passar o ano treinando, se esforçando e chegar nisso. Mas minha parte eu fiz. Estou amarradão, fiz o meu melhor e agora é continuar trabalhando. Tem coisas que não dá pra entender, mas tinha que ser assim”.

Sobre o aéreo que poderia ter dado a virada sobre Owen, na disputa do bronze, Medina disse: “Eu precisava de um seis baixo (nota) e achei que tinha virado, mas… Já aconteceu tanta coisa, que na real o que vier é lucro. Estou mais preocupado em surfar e fazer o meu melhor. É difícil esperar dos outros, não é? Vou tentar fazer o meu”.

Vitória nas quartas de final – Antes de perder duas baterias seguidas, Gabriel Medina subiu o sarrafo na segunda disputa das oitavas de final com um aéreo de rotação completa. Ele eliminou Michel Bourez.

Após quatro tentativas frustradas, aos 11 minutos de bateria Medina fez a primeira nota consistente do duelo. Os 6.33 pontos foram garantidos com uma rasgada e duas batidas fortes de backside. Três minutos depois ele fez o que ninguém tinha conseguido até aquele momento nas Olimpíadas de Tóquio.

Medina acelerou numa direita e voou alto, sem segurar a prancha, fez uma rotação completa e aterrissou de forma perfeita no seco, na base da onda. A nota foi 9.00 pontos, a maior de toda a competição até aquela fase da prova.

Nesse momento, o francês precisava de duas ondas (15.33) para reverter o resultado. Michel até conseguiu diminuir a diferença com duas batidas fortes (6.73), mas mesmo surfando um tubo perto do fim (6.93) ele não conseguiu os 8.61 pontos que precisava.

O francês se despediu da prova com 13.66 pontos de somatório, marca superior à conquistada pelo vencedor da bateria anterior (12.60) Kanoa Igarashi.

Bateria da medalha de ouro Masculina
Italo Ferreira (BRA) 15.14 x 6.60 Kanoa Igarashi (JAP)

Bateria da medalha de bronze

Owen Wright (AUS) 11.97 x 11.77 Gabriel Medina (BRA)
Semifinais

1 Kanoa Igarashi (JAP) 17.00 x 16.76 Gabriel Medina (BRA)
2 Italo Ferreira (BRA) 13.17 x 12.47 Owen Wright (AUS)

Quartas de final Masculinas

1 Kanoa Igarashi (JAP) 12.60 x 11.00 Kolohe Andino (EUA)
2 Gabriel Medina (BRA) 15.33 x 13.66 Michel Bourez (FRA)
3 Italo Ferreira (BRA) 16.30 x 11.90 Hiroto Ohhara (JAP)
4 Owen Wright (AUS) 12.74 x 7.83 Lucca Mesinas (PER)

Bateria da medalha de ouro Feminina

Carissa Moore (HAV) 14.93 x 8.46 Bianca Buitendag (AFR)

Bateria da medalha de bronze

Amuro Tsuzuki (JAP) 6.80 x 4.26 Carolina Marks (EUA)

Semifinais

1 Bianca Buitendag (AFR) 11.00 x 3.67 Carolina Marks (EUA)
2 Carissa Moore (HAV) 8.33 x 7.43 Amuro Tsuzuki (JAP)

Quartas de final Femininas

1 Bianca Buitendag (AFR) 9.50 x 5.46 Yolanda Hopkins (POR)
2 Carolina Marks (EUA) 12.50 x 6.83 Brisa Hennessy (CRC)
3 Carissa Moore (EUA) 14.26 x 8.30 Silvana Lima (BRA)
4 Amuro Tsuzuki (JAP) 13.27 x 11.67 Sally Fitzgibbons (AUS)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.