New Zealand Pro 2026

Yago dá show em Raglan

Yago Dora vence com o maior somatório, avança com outros dois brasileiros e país chega às oitavas de final com seis atletas. Líder do ranking, Luana Silva cai por pouco. Próxima chamada acontece às 16h20 (de Brasília).
New Zealand Pro 2026, Manu Bay, Raglan, Nova Zelândia

O Brasil começou o segundo dia do New Zealand Pro 2026, em Manu Bay, Raglan, com forte protagonismo e presença dominante entre os classificados. Yago Dora brilhou com a melhor performance do evento até aqui, Italo Ferreira confirmou o domínio dos campeões mundiais, e Miguel Pupo também avançou. Gabriel Medina, Filipe Toledo e Alejo Muniz já estava garantidos nas oitavas de final e folgaram no dia. No feminino, a líder do ranking Luana Silva acabou eliminada por margem mínima, deixando a disputa pela lycra amarela em aberto.

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A competição seguiu neste domingo (17), válida pela quarta etapa do Championship Tour 2026, com ondas de 0,5 a no máximo 1 metro, a maioria limpa, mas em alguns momentos lentas. Um grande público acompanhou a realização de 16 baterias, que definiram as quartas de final femininas e a oitavas do masculino. A próxima chamada acontece neste domingo (17), às 16h20 (horário de Brasília), com possível início às 16h35.

O grande nome do dia foi Yago Dora. Mesmo surfando apenas duas ondas, o atual campeão mundial somou 17.76 pontos, maior somatório da etapa até o momento, em sua estreia na Nova Zelândia. O brasileiro abriu com um aéreo reverse alto para conquistar 8.83 e depois cravou 8.93, explorando a parede da onda com combinações fluidas, velocidade e variedade em seções praticamente intermináveis. “Foi muito bom, é como uma reparação histórica surfar para a esquerda e performar bem para a esquerda. É incrível como goofy-footer. Estou muito feliz de estar aqui, é um lugar incrível. Não só a onda, mas as pessoas, a natureza, tudo tem uma vibe muito boa. Tem sido uma semana muito legal até agora. Hoje está muito divertido, as ondas estão boas e com parede. Elas continuam oferecendo seções. É divertido brincar com isso, trazer variedade e fazer tudo parecer fluido. Eu me sinto livre, me sinto feliz surfando essa onda”.

 

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Também campeão mundial, Italo Ferreira seguiu um caminho oposto ao de Yago e apostou em volume para avançar. O potiguar abriu com 7.83, depois somou 5.50 para fechar com 13.33 e vencer o havaiano Seth Moniz com tranquilidade. “Está bem difícil lá fora, tem muitas ondas, mas demora para as séries entrarem. Todos os brasileiros estão surfando muito bem essa onda, especialmente o Yago na primeira bateria do dia. As ondas estavam muito limpas, ele fez curvas de borda muito boas e misturou com aéreos, foi muito bom de assistir. Eu pensei: agora é a minha vez, vamos. Mas a maré subiu e entrou vento, então pensei: ok, vamos brincar com isso. Estou ansioso para surfar de novo, vou tentar me manter focado”.

Além deles, Miguel Pupo também avançou no dia. Gabriel Medina, Filipe Toledo e Alejo Muniz já tinham competido pela segunda fase e também garantem forte presença brasileira nas oitavas de final — com destaque para o duelo direto entre Medina e Filipe.

Nem todos tiveram o mesmo destino. Mateus Herdy foi eliminado pelo italiano Leonardo Fioravanti em uma virada dramática nos instantes finais. O brasileiro construiu sua pontuação com velocidade e progressão, enquanto o italiano manteve prioridade por boa parte da bateria e encontrou a melhor onda para 7.33 ponts. Precisando de 4.41 com menos de dois minutos restantes, Leo achou uma onda menor, mas com potencial, arrancando 5.50 para virar a bateria. “Durante todo o evento, olhando a previsão, eu disse: vou dar o meu máximo, tentar tomar boas decisões, e o que acontecer, aconteceu. Comecei bem, deixei algumas ondas passarem e entrei na melhor onda da bateria. Depois fiquei esperando: 10 minutos, vai vir uma onda. Cinco minutos, vai vir uma onda. Dois minutos, já não sabia mais. E fui com tudo naquela última onda. O Mateus é um surfista incrível. Eu sabia que ele tinha feito uma boa bateria, e se não viessem ondas, mérito dele. Mas sou grato por aquela onda. Estou muito animado para continuar, porque quero ficar na Nova Zelândia. Esse é um dos lugares mais bonitos do mundo”.

Samuel Pupo também acabou eliminado, superado por Cole Houshmand com uma virada no estouro do cronômetro, que garantiu ao norte-americano sua primeira vitória em baterias na temporada.

Entre os principais destaques internacionais, o australiano Jack Robinson voltou a vencer o francês Kauli Vaast em mais um capítulo da rivalidade iniciada na final olímpica de Paris 2024. Após uma longa disputa por prioridade e um início lento, a bateria ganhou intensidade no final. Kauli precisava de 8.84 e conseguiu um 9.00, maior nota do evento, mas Jack respondeu imediatamente com 7.93, somando 16.10 e retomando a liderança com rasgadas de backside precisas e variações técnicas. “Eu comecei bem e fui construindo, sem pensar muito. Vi a série chegando e pensei: lá vamos nós. Vi a onda dele e sabia que seria muito boa, então precisava estar em uma dessas séries para responder. Mas eu não estava pensando muito também. Só estava fazendo meu surfe normal e tentando me posicionar no lugar certo, porque o timing aqui é o mais importante. Se você acerta o tempo, todo o resto vem”.

 

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No feminino, a havaiana Carissa Moore registrou a melhor atuação do dia ao vencer a norte-americana Lakey Peterson no 21º confronto entre as duas no CT. Após uma longa calmaria, a bateria explodiu nos minutos finais, com Carissa somando 15.33, incluindo um 8.83, maior nota do evento entre as mulheres. “Foi uma espera muito longa. Acho que para mim e para a Lakey, nós duas odiamos surfar baterias tão estratégicas; preferimos que tudo seja decidido no surfe. Eu respeito muito a Lakey. Estamos no tour há mais de uma década e ela teve um início incrível de temporada. Eu sabia que seria um confronto muito difícil e eu a amo e respeito muito. Todo o crédito para a onda, ela simplesmente continuou oferecendo seções. Tivemos muita sorte durante a bateria, o vento diminuiu e essa é minha parte favorita do dia, a golden hour. Meu aquecimento antes da bateria hoje em dia são abraços em bebês”.

 

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A disputa pela lycra amarela ficou aberta após a eliminação de Luana Silva. A brasileira, que competia com o uniforme de líder pela primeira vez, fez a melhor nota da bateria, um 6.00, mas não encontrou uma segunda onda. Em condições difíceis, com maré baixa e vento lateral forte, ela precisava de apenas 3.00 no fim, pegou uma onda no estouro do cronômetro, mas recebeu 2.77 e acabou superada pela australiana Tyler Wright.

“Estou tão surpresa quanto qualquer um por ter passado, foi loucura. Você sabe que cada movimento que faz é vitória ou derrota. Só nos últimos dias comecei realmente a reaprender a surfar para a esquerda. Agradeço ao Dog (Richard Marsh) e ao Connor O’Leary por colocarem muito esforço nisso. Com o tamanho das ondas e algumas dificuldades que tive nos últimos anos surfando para a esquerda, sou extremamente grata pela experiência deles. Estou me divertindo muito. Tenho 32 anos, estou bem na segunda metade da carreira e estou me divertindo mais do que nunca. Acho isso muito importante. E também aproveitar onde estamos, é lindo, estamos muito felizes de estar aqui, a torcida é incrível”.

A havaiana Gabriela Bryan também foi destaque ao vencer Erin Brooks em uma bateria equilibrada, na qual sua força superou a precisão da canadense. “Não há dúvida de que a Erin é muito perigosa em qualquer esquerda, mas especialmente em uma esquerda de dois pés com esse vento. Ela era definitivamente uma adversária assustadora, mas deu tudo certo e estou muito feliz. Eu vim para a Nova Zelândia antes de Bells. Acho que foi uma das melhores decisões que tomei competitivamente, para estar pronta. Eu amo a Nova Zelândia e estou reacendendo meu backside, fazendo ele voltar a funcionar. Depois de Bells, eu pensei: ganhei a primeira, ótimo começo. Fui para a Austrália Ocidental e entrei quase em modo defensivo, pensando em manter minha posição. Mas agora continuo lembrando que o ano é longo. Eu posso ir buscar e me divertir no processo. Não é meu para perder, é meu para ganhar”.

A norte-americana Caroline Marks avançou ao vencer a francesa Tya Zebrowski com 14.63, somando altas notas em apenas três ondas e garantindo confronto contra Carissa Moore nas quartas. “Sinto que tive uma preparação muito boa durante todo o ano e durante todo o evento, e tive um início de temporada diferente do que estou acostumada. Mas, de certa forma, isso é legal porque me coloca em uma posição nova, então penso: vamos ver como posso lidar com isso. Felizmente consegui pegar algumas ondas e estou me sentindo bem. Sobre a Tya, é engraçado, eu lembro de estar exatamente na posição dela, sendo a mais jovem do tour. Você não sente tanta pressão, porque todos têm que te vencer. Mas quando é você mesma, quer fazer muito bem. O nível está muito alto, então estar nas melhores ondas é muito importante. Eu só fiz o meu surfe, sem me preocupar muito com ela, e acabou dando certo”.

A norte-americana Sawyer Lindblad manteve sua grande fase ao vencer a australiana Stephanie Gilmore com 14.44, mesmo diante do vento lateral forte. “Acabou sendo muito divertido lá fora. Me lembrou de casa, de surfar em Lowers no inverno. É exatamente assim com esse vento. É muito bom fazer curvas de frontside, não vou mentir. Eu amo surfar de backside, mas é bom variar. Fico muito feliz que a WSL tenha colocado uma esquerda manobrável. Estou muito animada para continuar e espero pegar mais ondas. Seria um sonho vencer em uma esquerda divertida como essa. Quero ser consistente em todos os eventos e chegar em Pipeline no Top 5”.

 

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Fechando o trio de goofy-footers norte-americanas, Alyssa Spencer avançou ao derrotar Caitlin Simmers em uma bateria lenta, na qual a campeã mundial de 2024 surfou apenas uma onda. Alyssa garantiu sua segunda presença em quartas de final na temporada, repetindo o bom desempenho apresentado em Bells Beach.

Previsão das ondas – A previsão indica uma queda no tamanho das ondas, que devem quebrar pequenas, com 0,5 metro. Pouco deve mudar até o final da janela, que vai até o próximo dia 25. Os dois últimos dias apotam pequena melhora, porém a previsão ainda é incerta e as ondas não chegariam a 1 metro de altura com vento lateral forte.

New Zealand Pro 2026
Round 2 Masculino

9 Yago Dora (BRA) 17.76 x 10.34 Luke Thompson (AFR)

10 Marco Mignot (FRA) 13.16 x 9.50 Barron Mamiya (HAV)

11 Cole Houshmand (EUA) 11.67 x 10.33 Samuel Pupo (BRA)

12 Leonardo Fioravanti (ITA) 12.83 x 11.74 Mateus Herdy (BRA)

13 Italo Ferreira (BRA) 13.33 x 9.73 Seth Moniz (HAV)

14 Kanoa Igarashi (JAP) 13.17 x 12.94 Joel Vaughan (AUS)

15 Jack Robinson (AUS) 16.10 x 15.83 Kauli Vaast (FRA)

16 Miguel Pupo (BRA) 12.83 x 9.90 Callum Robson (AUS)

Oitavas de final Feminino

1 Gabriela Bryan (HAV) 12.27 x 10.50 Erin Brooks (CAN)

2 Alyssa Spencer (EUA) 12.34 x 3.67 Caitlin Simmers (EUA)

3 Tyler Wright (AUS) 9.00 x 8.93 Luana Silva (BRA)

4 Sawyer Lindblad (EUA) 14.44 x 9.34 Stephanie Gilmore (AUS)

5 Molly Picklum (AUS) 9.84 x 9.40 Vahine Fierro (FRA)

6 Bettylou Sakura Johnson (HAV) 12.80 x 11.50 Isabella Nichols (AUS)

7 Carissa Moore (HAV) 15.33 x 7.50 Lakey Peterson (EUA)

8 Caroline Marks (EUA) 14.63 x 10.67 Tya Zebrowski (FRA)

Próximas baterias
Oitavas de final Masculino

1 Crosby Colapinto (EUA) x Griffin Colapinto (EUA)

2 Gabriel Medina (BRA) x Filipe Toledo (BRA)

3 Liam O’Brien (AUS) x Morgan Cibilic (AUS)

4 Rio Waida (IND) x Alejo Muniz (BRA)

5 Yago Dora (BRA) x Marco Mignot (FRA)

6 Cole Houshmand (EUA) x Leonardo Fioravanti (ITA)

7 Italo Ferreira (BRA) x Kanoa Igarashi (JAP)

8 Jack Robinson (AUS) x Miguel Pupo (BRA)
Quartas de final Feminino

1 Gabriela Bryan (HAV) x Alyssa Spencer (EUA)

2 Tyler Wright (AUS) x Sawyer Lindblad (EUA)

3 Molly Picklum (AUS) x Bettylou Sakura Johnson (HAV)

4 Carissa Moore (HAV) x Caroline Marks (EUA)

Baterias realizadas na sexta-feira (15)
Round 2 Masculino

1 Crosby Colapinto (EUA) 10.70 x 9.40 Jordy Smith (AFR)

2 Griffin Colapinto (EUA) 14.17 x 10.50 Alan Cleland (MEX)

3 Gabriel Medina (BRA) 15.20 x 10.06 Eli Hanneman (HAV)

4 Filipe Toledo (BRA) 15.66 x 10.84 Joao Chianca (BRA)

5 Liam O’Brien (AUS) 11.97 x 11.46 Jake Marshall (EUA)

6 Morgan Cibilic (AUS) 14.33 x 10.00 Ethan Ewing (AUS)

7 Rio Waida (IND) 15.20 x 13.44 Connor O’Leary (JAP)

8 Alejo Muniz (BRA) 15.50 x 14.84 George Pittar (AUS)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.