Circuito Mundial

Tempestade Varre a Oceania

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.
New Zealand Pro 2026, Manu Bay, Raglan, Nova Zelândia

A passagem do Championship Tour 2026 pela Oceania teve domínio brasileiro do início ao fim. Quatro etapas consecutivas, Bells Beach, Margaret River, Snapper Rocks e Raglan, com vitórias, finais e presença constante nas fases decisivas. Dois títulos levantados, lycra amarela nas mãos brasileiras em ambos os rankings, e ao fim da última bateria em Raglan, Italo Ferreira, Miguel Pupo, Gabriel Medina e Yago Dora ocupavam os quatro primeiros lugares do ranking mundial. No feminino, Luana Silva foi surpreendentemente consistente, encerrando a Oceania na segunda colocação geral. Os comentaristas internacionais da WSL se renderam abertamente, etapa após etapa, de uma forma que quem acompanha o circuito há anos raramente tinha visto. A perna de abertura do Circuito Mundial, na Oceania 2026, foi brasileira do começo ao fim.

Bells Beach: a hora e a vez de Miguel Pupo

O Rip Curl Pro 2026 começou em Winkipop com condições difíceis, vento lateral e mar irregular. O Brasil colocou quatro surfistas nas quartas de final: Yago Dora, Gabriel Medina, Miguel Pupo e Samuel Pupo. Três nas semifinais. A final foi 100% brasileira, entre Miguel e Yago, a primeira da história em Bells Beach.

Quem esperava por Miguel Pupo no topo do pódio? Depois de 14 temporadas no circuito, o paulista de 34 anos fez a campanha mais consistente de sua carreira em solo australiano, com um backside afiadíssimo e impecável do início ao fim. Bateu George Pittar nas oitavas por 16.77 a 15.60, avançou com autoridade nas quartas e chegou à final surfando como alguém que finalmente não tinha nada a perder e tudo a ganhar.

O caminho até lá passou também por Medina. Gabriel voltou ao Tour após um ano afastado e mostrou imediatamente que não estava a passeio. Com um aéreo reverso avaliado em 7.27 e outra onda que valeu 8.33, eliminou Italo Ferreira por 15.60 a 14.66 numa bateria que o circuito inteiro parou para assistir.

Mas foi a semifinal entre Yago e Medina que entrou para a história da temporada. Com três minutos no cronômetro, Medina na frente com 7.50 acumulado, Yago sem onda decisiva, parecia encerrado. Não estava. No último minuto, Yago rasgou, acelerou e voou com um reverse que os juízes marcaram em 9.50. Vitória por 0.16. Coisa de campeão mundial.
Na final, Miguel abriu com 7.50, Yago respondeu com 7.73. O jogo estava aberto. Aos 27 minutos, Miguel rasgou duas vezes e cravou o 8.10 que fechou o título: 15.60 a 13.90.

Com o sino de Bells nos braços, Pupo disse o que todos estavam pensando: “Não consigo acreditar. 34 anos, 14 temporadas. Se alguém me dissesse que eu seria o número um do mundo hoje, eu provavelmente daria risada”.
No feminino, Gabriela Bryan venceu Molly Picklum na final por 14.83 a 8.33 e assumiu a liderança do ranking.

Margaret River: a tempestade não alivia

O Western Australia Margaret River Pro 2026 abriu com condições pesadas e imprevisíveis no Main Break. O Brasil colocou seis surfistas nas oitavas de final: Samuel Pupo, Gabriel Medina, Yago Dora, Italo Ferreira, João Chianca e Miguel Pupo. Metade do campo masculino, com representantes em todas as chaves da fase.

Medina foi o maior nome do evento. Dominou a fase com leitura afiada do Main Break, venceu Crosby Colapinto por 15.87 a 11.83 nas quartas e bateu Samuel Pupo por 14.77 a 13.34 na semi. Parecia encaminhado para seu primeiro título da temporada.

Do outro lado do quadro, um australiano que quase ninguém tinha no radar foi eliminando campeão mundial atrás de campeão mundial. George Pittar bateu Yago Dora por apenas 0.07 de diferença nas quartas, uma das baterias mais apertadas do ano, e depois superou Italo Ferreira na semifinal por 13.16 a 12.16. Na final, Pittar venceu Medina por 15.17 a 12.46. Sua primeira vitória no CT. Com a bandeira australiana nos ombros e os olhos marejados, disse que tocou “Walking on a Dream” de manhã antes da final e que a semana pareceu exatamente assim.

No feminino, Lakey Peterson venceu Luana Silva na decisão por 12.23 a 11.83, conquistando sua sétima vitória no CT e a segunda em Margaret River. Luana chegou à final pelo segundo evento consecutivo. Duas etapas, dois vices.

Gold Coast: Fogo amigo de Filipe derruba Medina

O Bonsoy Gold Coast Pro 2026 aconteceu em Snapper Rocks, point break icônico de direitas, que favorece alta velocidade e combinações de grandes manobras explosivas. As condições foram as melhores da perna australiana. No segundo dia de evento, 11 notas excelentes foram registradas em um único dia, o maior número até então na temporada. O nível era outro. E o Brasil estava pronto.

Já no segundo dia, Filipe Toledo registrou o maior somatório do campeonato até aquele momento: 18.00 pontos, incluindo um 9.50, ao eliminar Cole Houshmand. Nas oitavas seguintes, encontrou Gabriel Medina, naquele momento o número 1 do mundo. Venceu por 18.94 a 15.56, com uma de suas melhores apresentações já vistas no Circuito. Azar de Medina ter encontrado o amigo pela frente, num momento em que a amizade não vale nada.

Samuel Pupo também deixou sua marca. Pena que foi contra o irmão. Cravou 18.90, praticamente empatando com Filipe em termos de somatório. “Essa provavelmente foi a minha melhor bateria da vida no CT”, disse Samuel. Nas quartas, Filipe venceu Samuel por 15.77 a 12.57, mas o nível dos dois colocou os irmãos Pupo no centro da conversa.

Mateus Herdy também fez bonito. Avançou às quartas eliminando Griffin Colapinto e mostrando seu potencial de fazer estrago quando as ondas permitem exibir tudo o que sabe. Valendo notar que ele disputou pela primeira vez uma bateria numa quadriquilha, e voou.

No feminino, Stephanie Gilmore, de volta ao circuito após duas temporadas afastada, fez exatamente o que todos esperavam de uma oito vezes campeã mundial surfando em casa: venceu de maneira gloriosa.

Sua 34ª vitória no CT aconteceu diante de uma multidão que lotou a praia de Snapper para vê-la levantar o troféu. Na final, superou Luana Silva por 17.33 a 14.07. Luana, mais uma vez vice, saiu do evento com algo mais valioso: a lycra amarela feminina. Era a primeira vez na história que o Brasil tinha os líderes dos dois rankings simultaneamente, Medina no masculino e Luana no feminino.

Nova Zelândia: a nota 10 foi do Yago e o título ficou com o Italo

O New Zealand Pro 2026 aconteceu em Manu Bay, Raglan, num point break de esquerdas extensas e manobráveis que estreava no calendário do CT, o que teve consequência direta no show proporcionado pelos goofies.

Mas os regulares também fizeram bonito, como foi o caso de Filipe Toledo. Sua performance foi espetacular, chamando ainda mais a atenção por estar surfando com uma biquilha. Um modelo de prancha raramente usado em competições, mas que não impediu que ele marcasse um 8.83 na segunda fase.

Voltando aos goofies, Medina surfou 12 ondas na estreia, o dobro do seu adversário, mostrando disposição. Yago Dora foi mais direto: duas ondas no segundo dia, 8.83 e 8.93, somatório de 17.76, o maior do evento.

Nas quartas, o grande momento do ano até agora. Com Cole Houshmand na frente por 8.50 em duas ondas e apenas três minutos no cronômetro, Yago precisava de 9.50 para avançar. Encontrou a rampa certa, foi à base da onda, acertou uma rotação completa gigante na primeira seção, com aterrissagem perfeita, à qual se seguiu um layback com muito estilo e outra sequência de manobras até o inside. Os juízes não hesitaram: 10 unânime, sem ter que pensar muito. Primeira nota perfeita da temporada no CT. “Parecia que tudo estava perdido. Vi aquele pocket se formando e pensei: ok, é isso, vou mandar”, disse Yago.

Filipe eliminou Medina mais uma vez, na terceira fase, por 15.43 a 13.90. Para desespero da torcida brasileira, dois dos surfistas mais cotados ao título mundial este ano se encontraram prematuramente. É o preço que se paga pela grande quantidade de brasileiros na elite.

A semifinal entre Yago e Italo foi interrompida por um incidente assustador: o fotógrafo oficial da WSL, Ed Sloane, sofreu um ataque dentro d’água por um animal marinho até o momento não identificado. A suspeita maior é de tubarão ou leão marinho. Com muita eficácia, os jetskis fizeram o resgate do fotógrafo imediatamente, bem como de ambos os atletas, que foram retirados da água e o evento entrou em espera.

A competição só seria retomada algumas horas depois, quando a maré começou a subir novamente. Sem o mesmo brilho de mais cedo, a bateria teve seu resultado invertido. Italo avançou com 15.10. Yago encerrou em terceiro.
Na grande final, Italo Ferreira encontrou um até então inspirado Morgan Cibilic. O australiano de 26 anos, que veio com fôlego total, derrubando no caminho nomes como Ethan Ewing e Griffin Colapinto, sucumbiu diante da energia frenética do brasileiro.

Cibilic até abriu melhor, com 8.90. Mas Italo respondeu com o que parecia ser uma obsessão, voar o mais alto possível a cada oportunidade, mesmo arriscando desperdiçar ondas, como aconteceu em algumas delas. Assim mesmo, deu certo. Destaque para o 9.33, no qual mandou dois aéreos reversos em sequência. Placar final: 17.50 a 15.80.
Foi sua 11ª vitória no CT, a primeira em mais de 12 meses. “Estou há dois meses na estrada, sem meu filho, sem minha esposa. Coloquei toda a energia nesse evento. Poder de pai, né?”, disse Italo, feliz da vida. Isso que ele ainda nem havia se tocado que agora a lycra amarela indo para El Salvador era sua.

No feminino, Carissa Moore fez história, em uma combinação de alta performance com muitas lágrimas. A havaiana voltou às decisões pela primeira vez desde 2023, depois de dois anos sem competir no circuito mundial, devido ao nascimento de sua primeira filha. Sua adversária Sawyer Lindblad abriu a final com nota 9.00. Carissa encontrou uma seção crítica a seis minutos do fim, três manobras de backside potentes e conectadas, e tirou 9.40. Total de 17.90. Título e 29ª vitória na carreira. “Essa vitória é para as mães. Nunca parem de sonhar”, sentenciou a cinco vezes campeã mundial.

Ranking Masculino do CT 2026 – Top 10 após a quarta etapa

1 Italo Ferreira (BRA) 22.725
2 Miguel Pupo (BRA) 21.385
3 Gabriel Medina (BRA) 20.525
4 Yago Dora (BRA) 19.630

5 George Pittar (AUS) 17.640
6 Ethan Ewing (AUS) 16.745
7 Samuel Pupo (BRA) 16.575
8 Griffin Colapinto (EUA) 16.490
9 Leonardo Fioravanti (ITA) 16.130
10 Filipe Toledo (BRA) 15.150

Ranking Feminino do CT 2026 – Top 8 após a quarta etapa

1 Gabriela Bryan (HAV) 24.235
2 Luana Silva (BRA) 22.345
3 Molly Picklum (AUS) 22.035
4 Lakey Peterson (EUA) 21.490
5 Sawyer Lindblad (EUA) 20.970
6 Carissa Moore (HAV) 18.745
7 Caitlin Simmers (EUA) 17.575
8 Bettylou Sakura Johnson (HAV) 14.830

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.