
A passagem do Championship Tour 2026 pela Oceania teve domínio brasileiro do início ao fim. Quatro etapas consecutivas, Bells Beach, Margaret River, Snapper Rocks e Raglan, com vitórias, finais e presença constante nas fases decisivas. Dois títulos levantados, lycra amarela nas mãos brasileiras em ambos os rankings, e ao fim da última bateria em Raglan, Italo Ferreira, Miguel Pupo, Gabriel Medina e Yago Dora ocupavam os quatro primeiros lugares do ranking mundial. No feminino, Luana Silva foi surpreendentemente consistente, encerrando a Oceania na segunda colocação geral. Os comentaristas internacionais da WSL se renderam abertamente, etapa após etapa, de uma forma que quem acompanha o circuito há anos raramente tinha visto. A perna de abertura do Circuito Mundial, na Oceania 2026, foi brasileira do começo ao fim.
Bells Beach: a hora e a vez de Miguel Pupo
O Rip Curl Pro 2026 começou em Winkipop com condições difíceis, vento lateral e mar irregular. O Brasil colocou quatro surfistas nas quartas de final: Yago Dora, Gabriel Medina, Miguel Pupo e Samuel Pupo. Três nas semifinais. A final foi 100% brasileira, entre Miguel e Yago, a primeira da história em Bells Beach.
Quem esperava por Miguel Pupo no topo do pódio? Depois de 14 temporadas no circuito, o paulista de 34 anos fez a campanha mais consistente de sua carreira em solo australiano, com um backside afiadíssimo e impecável do início ao fim. Bateu George Pittar nas oitavas por 16.77 a 15.60, avançou com autoridade nas quartas e chegou à final surfando como alguém que finalmente não tinha nada a perder e tudo a ganhar.
O caminho até lá passou também por Medina. Gabriel voltou ao Tour após um ano afastado e mostrou imediatamente que não estava a passeio. Com um aéreo reverso avaliado em 7.27 e outra onda que valeu 8.33, eliminou Italo Ferreira por 15.60 a 14.66 numa bateria que o circuito inteiro parou para assistir.

Mas foi a semifinal entre Yago e Medina que entrou para a história da temporada. Com três minutos no cronômetro, Medina na frente com 7.50 acumulado, Yago sem onda decisiva, parecia encerrado. Não estava. No último minuto, Yago rasgou, acelerou e voou com um reverse que os juízes marcaram em 9.50. Vitória por 0.16. Coisa de campeão mundial.
Na final, Miguel abriu com 7.50, Yago respondeu com 7.73. O jogo estava aberto. Aos 27 minutos, Miguel rasgou duas vezes e cravou o 8.10 que fechou o título: 15.60 a 13.90.
Com o sino de Bells nos braços, Pupo disse o que todos estavam pensando: “Não consigo acreditar. 34 anos, 14 temporadas. Se alguém me dissesse que eu seria o número um do mundo hoje, eu provavelmente daria risada”.
No feminino, Gabriela Bryan venceu Molly Picklum na final por 14.83 a 8.33 e assumiu a liderança do ranking.
Margaret River: a tempestade não alivia
O Western Australia Margaret River Pro 2026 abriu com condições pesadas e imprevisíveis no Main Break. O Brasil colocou seis surfistas nas oitavas de final: Samuel Pupo, Gabriel Medina, Yago Dora, Italo Ferreira, João Chianca e Miguel Pupo. Metade do campo masculino, com representantes em todas as chaves da fase.
Medina foi o maior nome do evento. Dominou a fase com leitura afiada do Main Break, venceu Crosby Colapinto por 15.87 a 11.83 nas quartas e bateu Samuel Pupo por 14.77 a 13.34 na semi. Parecia encaminhado para seu primeiro título da temporada.

Do outro lado do quadro, um australiano que quase ninguém tinha no radar foi eliminando campeão mundial atrás de campeão mundial. George Pittar bateu Yago Dora por apenas 0.07 de diferença nas quartas, uma das baterias mais apertadas do ano, e depois superou Italo Ferreira na semifinal por 13.16 a 12.16. Na final, Pittar venceu Medina por 15.17 a 12.46. Sua primeira vitória no CT. Com a bandeira australiana nos ombros e os olhos marejados, disse que tocou “Walking on a Dream” de manhã antes da final e que a semana pareceu exatamente assim.
No feminino, Lakey Peterson venceu Luana Silva na decisão por 12.23 a 11.83, conquistando sua sétima vitória no CT e a segunda em Margaret River. Luana chegou à final pelo segundo evento consecutivo. Duas etapas, dois vices.
Gold Coast: Fogo amigo de Filipe derruba Medina
O Bonsoy Gold Coast Pro 2026 aconteceu em Snapper Rocks, point break icônico de direitas, que favorece alta velocidade e combinações de grandes manobras explosivas. As condições foram as melhores da perna australiana. No segundo dia de evento, 11 notas excelentes foram registradas em um único dia, o maior número até então na temporada. O nível era outro. E o Brasil estava pronto.
Já no segundo dia, Filipe Toledo registrou o maior somatório do campeonato até aquele momento: 18.00 pontos, incluindo um 9.50, ao eliminar Cole Houshmand. Nas oitavas seguintes, encontrou Gabriel Medina, naquele momento o número 1 do mundo. Venceu por 18.94 a 15.56, com uma de suas melhores apresentações já vistas no Circuito. Azar de Medina ter encontrado o amigo pela frente, num momento em que a amizade não vale nada.
Samuel Pupo também deixou sua marca. Pena que foi contra o irmão. Cravou 18.90, praticamente empatando com Filipe em termos de somatório. “Essa provavelmente foi a minha melhor bateria da vida no CT”, disse Samuel. Nas quartas, Filipe venceu Samuel por 15.77 a 12.57, mas o nível dos dois colocou os irmãos Pupo no centro da conversa.

Mateus Herdy também fez bonito. Avançou às quartas eliminando Griffin Colapinto e mostrando seu potencial de fazer estrago quando as ondas permitem exibir tudo o que sabe. Valendo notar que ele disputou pela primeira vez uma bateria numa quadriquilha, e voou.
No feminino, Stephanie Gilmore, de volta ao circuito após duas temporadas afastada, fez exatamente o que todos esperavam de uma oito vezes campeã mundial surfando em casa: venceu de maneira gloriosa.
Sua 34ª vitória no CT aconteceu diante de uma multidão que lotou a praia de Snapper para vê-la levantar o troféu. Na final, superou Luana Silva por 17.33 a 14.07. Luana, mais uma vez vice, saiu do evento com algo mais valioso: a lycra amarela feminina. Era a primeira vez na história que o Brasil tinha os líderes dos dois rankings simultaneamente, Medina no masculino e Luana no feminino.
Nova Zelândia: a nota 10 foi do Yago e o título ficou com o Italo
O New Zealand Pro 2026 aconteceu em Manu Bay, Raglan, num point break de esquerdas extensas e manobráveis que estreava no calendário do CT, o que teve consequência direta no show proporcionado pelos goofies.
Mas os regulares também fizeram bonito, como foi o caso de Filipe Toledo. Sua performance foi espetacular, chamando ainda mais a atenção por estar surfando com uma biquilha. Um modelo de prancha raramente usado em competições, mas que não impediu que ele marcasse um 8.83 na segunda fase.
Voltando aos goofies, Medina surfou 12 ondas na estreia, o dobro do seu adversário, mostrando disposição. Yago Dora foi mais direto: duas ondas no segundo dia, 8.83 e 8.93, somatório de 17.76, o maior do evento.
Nas quartas, o grande momento do ano até agora. Com Cole Houshmand na frente por 8.50 em duas ondas e apenas três minutos no cronômetro, Yago precisava de 9.50 para avançar. Encontrou a rampa certa, foi à base da onda, acertou uma rotação completa gigante na primeira seção, com aterrissagem perfeita, à qual se seguiu um layback com muito estilo e outra sequência de manobras até o inside. Os juízes não hesitaram: 10 unânime, sem ter que pensar muito. Primeira nota perfeita da temporada no CT. “Parecia que tudo estava perdido. Vi aquele pocket se formando e pensei: ok, é isso, vou mandar”, disse Yago.

Filipe eliminou Medina mais uma vez, na terceira fase, por 15.43 a 13.90. Para desespero da torcida brasileira, dois dos surfistas mais cotados ao título mundial este ano se encontraram prematuramente. É o preço que se paga pela grande quantidade de brasileiros na elite.
A semifinal entre Yago e Italo foi interrompida por um incidente assustador: o fotógrafo oficial da WSL, Ed Sloane, sofreu um ataque dentro d’água por um animal marinho até o momento não identificado. A suspeita maior é de tubarão ou leão marinho. Com muita eficácia, os jetskis fizeram o resgate do fotógrafo imediatamente, bem como de ambos os atletas, que foram retirados da água e o evento entrou em espera.
A competição só seria retomada algumas horas depois, quando a maré começou a subir novamente. Sem o mesmo brilho de mais cedo, a bateria teve seu resultado invertido. Italo avançou com 15.10. Yago encerrou em terceiro.
Na grande final, Italo Ferreira encontrou um até então inspirado Morgan Cibilic. O australiano de 26 anos, que veio com fôlego total, derrubando no caminho nomes como Ethan Ewing e Griffin Colapinto, sucumbiu diante da energia frenética do brasileiro.
Cibilic até abriu melhor, com 8.90. Mas Italo respondeu com o que parecia ser uma obsessão, voar o mais alto possível a cada oportunidade, mesmo arriscando desperdiçar ondas, como aconteceu em algumas delas. Assim mesmo, deu certo. Destaque para o 9.33, no qual mandou dois aéreos reversos em sequência. Placar final: 17.50 a 15.80.
Foi sua 11ª vitória no CT, a primeira em mais de 12 meses. “Estou há dois meses na estrada, sem meu filho, sem minha esposa. Coloquei toda a energia nesse evento. Poder de pai, né?”, disse Italo, feliz da vida. Isso que ele ainda nem havia se tocado que agora a lycra amarela indo para El Salvador era sua.
No feminino, Carissa Moore fez história, em uma combinação de alta performance com muitas lágrimas. A havaiana voltou às decisões pela primeira vez desde 2023, depois de dois anos sem competir no circuito mundial, devido ao nascimento de sua primeira filha. Sua adversária Sawyer Lindblad abriu a final com nota 9.00. Carissa encontrou uma seção crítica a seis minutos do fim, três manobras de backside potentes e conectadas, e tirou 9.40. Total de 17.90. Título e 29ª vitória na carreira. “Essa vitória é para as mães. Nunca parem de sonhar”, sentenciou a cinco vezes campeã mundial.

Ranking Masculino do CT 2026 – Top 10 após a quarta etapa
1 Italo Ferreira (BRA) 22.725
2 Miguel Pupo (BRA) 21.385
3 Gabriel Medina (BRA) 20.525
4 Yago Dora (BRA) 19.630
5 George Pittar (AUS) 17.640
6 Ethan Ewing (AUS) 16.745
7 Samuel Pupo (BRA) 16.575
8 Griffin Colapinto (EUA) 16.490
9 Leonardo Fioravanti (ITA) 16.130
10 Filipe Toledo (BRA) 15.150
Ranking Feminino do CT 2026 – Top 8 após a quarta etapa
1 Gabriela Bryan (HAV) 24.235
2 Luana Silva (BRA) 22.345
3 Molly Picklum (AUS) 22.035
4 Lakey Peterson (EUA) 21.490
5 Sawyer Lindblad (EUA) 20.970
6 Carissa Moore (HAV) 18.745
7 Caitlin Simmers (EUA) 17.575
8 Bettylou Sakura Johnson (HAV) 14.830