Recorde mundial

Atletas contestam WSL

Liderados por grandes nomes como Maya Gabeira, Rodrigo Koxa, Carlos Burle, entre outros, surfistas profissionais de ondas grandes levantam debate sobre atual gestão e rumos que o esporte está tomando.

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À esquerda a onda de Rodrigo Koxa (2017), antiga recordista e à direita a onda de Sebastian Steudtner, atual recordista mundial.Abel Santos/Carlos Muriongo
À esquerda a onda de Rodrigo Koxa (2017), antiga recordista e à direita a onda de Sebastian Steudtner, atual recordista mundial.

No dia 24 de maio, o alemão Sebastian Steudtner tornou-se o novo recordista mundial com a maior onda já surfada, avaliada em 26,21 metros e homologada pelo Guinness World Records. No dia seguinte, também foram anunciados os cinco finalistas da maior premiação da modalidade, em seis categorias, o Red Bull Big Wave Awards.

Desde então, boa parte da comunidade mundial do surfe de ondas grandes tem se manifestado constantemente e demonstrado insatisfação com as escolhas e resultados. Sem querer desmerecer ou diminuir o feito de qualquer atleta, a comunidade levanta um debate sobre a medição das ondas, pedindo por mais transparência e abertura.

Ainda sobre o recorde, também há muitos questionamentos. Teria sido a onda de Sebastian maior do que a onda recordista de Rodrigo Koxa em 2017? Alguns especialistas no tema e um grupo de surfistas profissionais liderado por grandes nomes como Carlos Burle, Rodrigo Koxa, Maya Gabeira, entre outros, contestam o resultado.

A WSL explicou oficialmente em nota que a onda de Sebastian foi medida utilizando a análise de vários quadros retirados das imagens de vídeo, fornecidas pelo atleta. Objetos de referência conhecidos, como o jet ski e a medição real do corpo de Steudtner, foram usados para calibrar as imagens na conversão de pixels para pés. A localização da base até a crista da onda foi determinada a partir da análise do vídeo em dois ângulos diferentes.

Atletas questionam a entidade por nunca ter feito vídeos e fotos comparativos que justifiquem o novo recorde.Fábio Weber
Atletas questionam a entidade por nunca ter feito vídeos e fotos comparativos que justifiquem o novo recorde.

A precisão desse processo depende de vários fatores, incluindo a qualidade da filmagem, as condições climáticas na ocasião, os ângulos e a distância dos fotógrafos em relação à onda. Os quadros estáticos das imagens de vídeo são corrigidos geometricamente com base nos ângulos da câmera. Este seria o método utilizado atualmente para determinar o recorde, segundo a entidade.

Mas, para alguns especialistas, isso não é suficiente para uma medição justa. “Em primeiro lugar, ninguém quer tirar nada de Sebastian Steudtner, ele é um surfista espetacular de ondas grandes e eu já dei a ele vários títulos no XXL Biggest Wave ao longo dos anos”, relembra Bill Sharp, fundador do XXL Big Wave Awards, extinta premiação que deu origem ao atual Red Bull Big Wave Awards, da WSL.

“Dito isso, pessoalmente eu não acho que essa onda em particular, que foi nomeada como Record do Guinness, seja maior do que o recorde mundial de 80 pés de Rodrigo Koxa, em 8 de novembro de 2017”, afirma Bill Sharp. “Acho que é fácil qualquer onda em Nazaré ser mal interpretada sem uma grande variedade de ângulos de fotos na mão e muita experiência com o local. Além de décadas de familiaridade com os truques que as ondas grandes podem fazer com os seus olhos. Eu adoraria poder revisar as descobertas exatas da atual equipe científica da WSL e verificar novamente a matemática, só para ter certeza, porque 86 pés é muito maior do que 80 pés quando se trata de surfe e das medições que temos visto nos últimos 25 anos”, argumenta.

A equipe de medição do atual recorde foi composta por Adam Fincham e Michal Pieszka, ambos da WSL, Hironori Matsumoto, Adam Young e Falk Feddersen todos do Instituto Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia, em San Diego. A banca foi alterada em relação ao recorde medido anteriormente. O grupo que deu o veredicto para a onda de Rodrigo Koxa foi formado por Mike Parsons (Big Wave Legend), Greg Long (Big Wave Legend), Gary Linden (Founder, Big Wave Tour), Jeff Divine (Photo Editor, Surfers Journal), Grant Ellis (Photo Editor, Surfer Magazine), Dave Gilovich (Editorial Director, Surfline), Chris Dixon (Big Wave Journalist) e Bill Sharp (Founder, XXL Big Wave Awards).

O que se pode questionar é se essa banca atual também mediu, segundo os seus próprios critérios de avaliação, a onda de Rodrigo Koxa para efeito de comparação. “Eu não concordo com o novo recorde. E estou pedindo esclarecimentos para a WSL sobre essa medição. Porque já que mudaram a banca julgadora, eu gostaria que medissem novamente a minha onda”, diz Rodrigo Koxa, o antigo recordista.

Rodrigo Koxa reivindica medição de sua onda pela mesma banca que deu a Sebastian Steudtner o atual recorde.Abel Santos
Rodrigo Koxa reivindica medição de sua onda pela mesma banca que deu a Sebastian Steudtner o atual recorde.

Para Bill Sharp, a falta de transparência nas ações da entidade causam desconforto entre os atletas. “Quando eu estava no comando, sempre fomos totalmente transparentes em compartilhar quem estava por trás de todas as decisões do Big Wave Awards e trabalhei muito para garantir que o painel incluísse todas as melhores mentes disponíveis quando se tratava de avaliar e fotografar grandes ondas em todo o mundo”, esclarece Bill.

“Quando o assunto é medição das ondas é difícil de entender. As regras não são claras. A entidade não divulga os juízes e não traz para o painel cientistas imparciais, ou mais informações. A gente sabe que é tudo muito subjetivo. Então, está totalmente descredibilizado, o que deixa espaço para ser bem sucedido quem fizer um trabalho de bastidores com informações privilegiadas”, diz o bicampeão mundial Carlos Burle.

Outra parcela dos surfistas também cobra mais transparência da entidade quando se trata do prêmio Big Wave Awards. “Os atletas inscrevem as ondas, mas as ondas não são inscritas. Várias ondas grandes, caldos sinistros não estão sendo aceitos e eles não nos dão o menor retorno. Vou acionar a justiça, porque apliquei três vezes minhas ondas e não consegui ter elas inscritas”, diz Thiago Jacaré.

 

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Segundo o site da WSL, o Red Bull Big Wave Awards deste ano recebeu mais de 300 inscrições com algumas das ondas grandes mais pesadas e incríveis surfadas durante a temporada de premiações de ondas grandes de 1º de abril de 2021 a 31 de março de 2022. Todas as ondas enviadas foram avaliadas por um painel de jurados abrangente formado por juízes da WSL, ex-surfistas profissionais e especialistas em ondas grandes. Mas não é isso que os surfistas relatam.

Também preocupada com os rumos que o esporte vem tomando, Maya Gabeira, cinco vezes campeã do extinto Big Wave Awards, neste ano não inscreveu nenhuma onda. “Decidi não inscrever minha onda. Os anos passam e vejo o surfe profissional de ondas grandes retrocedendo. Principalmente nos últimos anos, sem nenhum responsável pelo esporte na WSL, nós atletas ficamos à margem”, diz Maya Gabeira.

Segundo a atleta, as informações sobre o prêmio mais uma vez chegaram em um e-mail de última hora. A premiação foi diminuída e categorias foram cortadas e não houve tempo de negociação sobre isso. “É como se tivéssemos que aceitar qualquer coisa que tenhamos. Quase pela primeira vez a maioria dos atletas votou para não participar, mas no final das contas a falta de oportunidade deixou a maioria sentindo que, mais uma vez, isso era melhor do que nada. Eu entendo os que foram e enviaram suas ondas mesmo assim, apesar de insatisfeitos com tudo isso”, conta Maya.

Maya, que venceu cinco vezes o prêmio que deu origem ao atual Big Wave Awards, sentiu-se na obrigação de se manifestar. “Senti-me numa posição privilegiada. Tendo vencido tantas vezes, minha primeira vitória foi em 2007. Achei justo defender o esporte presente e as futuras gerações”, postou em sua página nas redes sociais.

O Circuito Mundial de ondas grandes sofreu um forte baque nos últimos anos. Antes, ele contava com um calendário de quatro etapas. Hoje são apenas duas, sendo uma de tow-in em Nazaré e outra na remada em Jaws. “O Circuito Mundial de Ondas Grandes está totalmente de lado, e o Big Wave Awards também. O sistema de inscrição, as regras e a premiação não estão evoluindo. O movimento feito para o big surf feminino crescer deu errado. Porque, o que adianta você igualar a premiação e não promover eventos?”, diz Burle.

“A WSL hoje em dia está mais focada no CT, e qualquer outro produto é um trabalho a mais. Um investimento de energia, tempo e dinheiro. Mas o que vem acontecendo com o surfe de ondas grandes é resultado, não só dessa relação com a WSL, como de tudo que a gente plantou, nós, surfistas de ondas grandes como comunidade. Da nossa incapacidade de nos unir, de formatar regras claras, e de construir o crescimento profissional do nosso esporte. Então, não dá para culpar ninguém”, diz Burle.

Para a nova geração do surfe de ondas grandes, a falta de transparência e a falta de eventos desestimulam. “Não tem abertura para outros atletas. Eu sou a nova geração, que almeja chegar lá entre os melhores do mundo, mas não tem muita margem pra isso. Não tem muita explicação pra nada”, desabafa Gabriel Sampaio, que também já tentou inscrever suas ondas em duas ocasiões, mas nunca obteve resposta da entidade.

 

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Os vencedores do Red Bull Big Wave Awards 2022 serão anunciados através do site da WSL no dia 7 de julho de 2022 no. As ondas vencedoras serão elegíveis para verificação do Recorde Mundial se o júri determinar que a(s) onda(s) desafiam os atuais Recordes Mundiais. As verificações do recorde mundial serão anunciadas no dia 1º de novembro de 2022.

Procurada para esclarecer as questões levantadas pelos atletas, a WSL não respondeu aos diversos contatos da nossa redação. Tudo que está na matéria sobre informações oficiais da entidade é o que foi publicado no site da mesma.

“É um momento triste para quem sempre lutou pela profissionalização do esporte. Mas a esperança nunca vou perder, e vou sempre estar aqui para apoiar movimentos para a melhoria do nosso esporte”, conclui Carlos Burle.

 

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