Ela cresceu longe dos epicentros clássicos do surfe mundial. Sem as longas direitas da Indonésia, sem os point breaks da Austrália, sem a cultura consolidada da Califórnia. Ainda assim, foi dali, das ondas curtas e instáveis do Mediterrâneo, em Tel Aviv, Israel, que nasceu uma das histórias mais improváveis e inspiradoras da nova geração do surfe mundial: Anat Lelior.
Lelior não apenas quebrou barreiras geográficas e culturais. Ela fez história ao se tornar a primeira atleta de Israel a alcançar o Championship Tour da WSL, a elite do esporte. Nascida em 29 de abril de 2000, em Tel Aviv, Anat começou a surfar aos cinco anos, levada pelo pai para o Mediterrâneo.
Num país com pouca tradição no esporte e pouquíssimas mulheres surfando, ela evoluiu praticamente sem referências locais.
“Algumas pessoas não sabem qual é o propósito da vida. Eu e minha irmã sabemos”, disse em entrevistas sobre sua conexão com o surfe. Sua irmã mais nova, Noa, também surfista, foi peça-chave na virada competitiva da carreira. Uma viagem para competir na França abriu os olhos de Anat para o circuito internacional e ali nasceu a ambição.
Sem ondas perfeitas no quintal, Lelior desenvolveu um surfe adaptável, técnico e resiliente, características típicas de quem cresce em condições difíceis.
A base foram ondas curtas e inconsistentes do Mediterrâneo desta surfista goofy, que tem como ponto forte a leitura do mar e a competitividade, com estilo funcional, estratégico e progressivo, com foco em performance a cada bateria. A própria trajetória explica o estilo. Como ela mesma disse: “As pessoas nem sabem que existe surfe em Israel, eu quero mostrar que somos capazes.”
Do Pro Junior para o mundo
Antes de chegar à elite, Lelior construiu uma base sólida no circuito europeu, foi vice-campeã Pro Junior Europa (2018), campeã do Deeply Pro Anglet (QS) em 2019, títulos nacionais consecutivos desde os 12 anos.
Ela rapidamente esgotou o nível competitivo local e precisou buscar evolução fora do país, enfrentando um desafio logístico constante de viajar para treinar e competir.
Entre o surfe e o exército
A carreira de Lelior tem um capítulo único no surfe mundial: o serviço militar obrigatório em Israel. Durante anos, ela conciliou treinos, competições e 30 horas semanais no exército.
“Representar Israel no WQS e nos Jogos Olímpicos é a minha missão”, afirmou. A rotina incomum moldou sua mentalidade, em que disciplina, foco e resiliência viraram marcas registradas dentro e fora d’água.
Olimpíadas e pioneirismo global
Lelior entrou para a história ao representar Israel na estreia do surfe olímpico em Tóquio 2020, obtendo o 17º lugar. Nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, um 9º lugar, em Teahupoo, uma das melhores ondas do mundo.
A evolução entre uma edição e outra mostra sua maturidade competitiva, especialmente em ondas pesadas e técnicas.
Resultados recentes
Mesmo enfrentando lesões sérias no quadril e no tornozelo, Lelior voltou ao circuito dos campeonatos com força sendo bronze no Pro Anglet (2021 e 2022), ouro nos Jogos Maccabiah 2022, top 6 no Mundial ISA 2024 (melhor resultado israelense da história).E então veio o marco definitivo.
Este ano de 2026, com um resultado decisivo em Newcastle, garantiu vaga no Championship Tour. “Isso não é real… eu não sabia que sonhos podiam se tornar realidade.”, disse Anat impactada pelo resultado desde há muito sonhado.
Afinal, Lelior não é apenas uma competidora, ela é uma pioneira. Primeira surfista israelense na elite do surfe mundial, referência para mulheres no surfe em regiões emergentes, símbolo de que o surfe pode nascer fora do eixo tradicional. Sua própria existência no Tour já redefine o mapa do esporte.
Influências e visão
Embora tenha crescido sem ídolos locais, Lelior se inspira na geração global do surfe feminino, especialmente atletas que unem performance e consistência. Mais do que nomes específicos, sua influência vem da ideia de pertencimento tardio. “Quero mostrar que qualquer pessoa, de qualquer lugar, pode conseguir.”
Treinos e rotina
Sem acesso constante a ondas de classe mundial, Lelior construiu uma rotina híbrida, com treinos em Tel Aviv (base técnica), viagens constantes para Europa, Austrália e eventos WSL, adaptação rápida a diferentes tipos de ondas, pois a limitação geográfica virou vantagem competitiva: ela se tornou uma surfista extremamente versátil.
Futuro
A entrada no Championship Tour não é o fim da história, é o começo. Agora, Anat Lelior entra no mesmo palco de nomes como Carissa Moore e Tyler Wright, pronta para provar que sua trajetória não é exceção, é evolução.