O último mês de agosto foi um período excepcionalmente bom de ondas em partes opostas do Oceano Atlântico, em picos onde elas não costumam aparecer com tanta potência nessa época do ano. Tudo por conta do furacão Erin, que teve seu início no dia 11, na costa da África, cruzou para o Caribe, subiu pela costa leste dos EUA e apontou de novo para o outro lado do oceano, até encontrar a costa da Europa. O fenômeno em seu auge atingiu a categoria 5.
Pela cronologia do fenômeno, Erin se formou nas ilhas de Cabo Verde devido as águas quentes na faixa equatorial com ventos de cerca de 250 km/h, passou por Porto Rico e por outras áreas no Caribe até chegar a Costa Leste dos EUA, seguindo paralelo à costa entre 19 e 21 de agosto, e depois curvou para leste/nordeste sobre águas mais frias. Em 22 de agosto, já chamado de ciclone pós-tropical, tinha ventos mais amenos fracos e se deslocou em direção ao norte da Europa.
Por onde o furacão passava, levava boas ondulações. Picos no Caribe, como Soup Bowl, conhecidos por ser um dos preferidos de Kelly Slater, em Barbados, tiveram ondas limpas e muitos tubos para direita. Kelly, inclusive, já deu dicas anos atrás sobre o pico. “Soup Bowl tem muitos humores. Dependendo da direção, tamanho e ventos do swell, ele pode se assemelhar a qualquer outro local, de Backdoor a Haleiwa e Off-the-Wall. Quando o mar está grande, o principal perigo é perder a prancha, pois é um local muito difícil para nadar. São milhares de ouriços do mar no recife. O Soup Bowl é possivelmente a onda mais consistente do mundo. Eu nunca vi nada como isto”, fala o Goat.

Como representado no mapa, Erin seguiu em direção à Europa com ventos mais fracos, onde se dissipou em 28 de agosto, a oeste do Reino Unido. Já no Velho Continente, Erin gerou energia suficiente para rolar onda em Mullaghmore, na Irlanda; na famosa Nazaré, em Portugal; e no pico de Mundaka, na Espanha, entre ouros lugares. Esses picos costumam ter ondas apenas no inverno europeu, mas o furacão deu um jeito de fazer as séries chegarem no verão do Velho Continente.
É bom lembrar o quão destrutivo pode ser um furacão. Se uma determinada praia está dentro ou próxima da trajetória de um furacão os efeitos são normalmente devastadores. Há muita chuva, ventos fortíssimos, e tudo pode ser destruído. Não há a menor condição de mar para surfe nessas áreas. Os picos que normalmente se beneficiam são aqueles bem mais distantes da trajetória do furacão. Isso pois uma vez geradas no oceano as ondas se propagam para áreas bem distantes. Aí sim, essas praias que recebem bem essas ondas com elevada energia (como Nazaré) se beneficiam desses fenômenos climáticos mais intensos.
Para entender melhor, o geógrafo marinho da Universidade Federal Fluminense (UFF), professor Eduardo Bulhões, detalha o fenômeno. “Furacões são ciclones tropicais de núcleo quente (centros de baixa pressão) que se formam sobre águas quentes do oceano (normalmente acima de 26–27 °C). A energia que os alimenta vem do calor e da umidade do oceano, transferidos para a atmosfera por evaporação e liberados como calor latente na condensação, o que intensifica as nuvens e os ventos sustentados. Como dependem do oceano para se manter, costumam enfraquecer ao alcançar águas mais frias ou o continente. Os ventos do furacão geram ondas locais (chamadas de windseas ou vagas). Parte dessa energia organiza-se em marulhos ou swell (ondulações de período mais longo) que podem se propagar por milhares de quilômetros, alcançando costas distantes e potencialmente gerando condições surfáveis em algumas praias”, explica.
Instigação máxima
Grandes nomes aproveitaram a oferta de ondas que o Erin proporcionou. Na Europa, Nic Von Rupp, Conor Maguire, Nathan Florence, Gearoid McDaid, Aritz Aramburu e Natxo Gonzalez fizeram as malas para surfar. Já no Caribe, Josh Burke curtiu bastante o pico de Soup Bowl.
Outros milhares de surfistas aproveitaram da melhor forma as ondas derivadas da energia do furacão Erin. “Que mês e que tempestade”, diz Charlie Hutcherson, diretor de previsão da Surfline nos EUA. “O furacão Erin vai ficar marcado como um dos criadores de ondulações mais memoráveis do Atlântico. Ele teve uma trajetória perfeita, evitou o Caribe e passou pela brecha entre o Cabo Hatteras e as Bermudas, recuando antes de atingir o nordeste. O que queríamos era só surfe e nada de terra, e Erin conseguiu isso”.
Conor Maguire deu seu depoimento sobre as ondas em Mullaghmore. “A Irlanda, sendo o que é, tão selvagem e indomável, a gente não presta muita atenção até alguns dias antes. Mas este swell parecia louco”.
Nic Von Rupp relata que já pegou Nazaré no verão, mas que esse swell foi diferente e, como queria pegar tubos, também foi para Irlanda. “Já surfei em Nazaré no verão, pode acontecer. Mas este swell parecia ser outra coisa, um outro nível. Era grande, mas não tão enorme quanto esperávamos. Nazaré é sempre uma opção (chegou a cerca de 9 metros), mas eu achei que o swell era um pouco de oeste, e queria pegar tubos, então fui para a Irlanda. A galera irlandesa estava se jogando, eles são impressionantes. A água estava mais quente do que em Portugal, foi tão bom não estar morrendo de frio lá em cima (no norte europeu)”, conta.
A moral da história é que o furacão lançou tanta energia no mês de agosto, que tornou muitos picos surfáveis. Os surfistas agradecem. “A área onde o Erin se desenvolveu permitiu que ele gerasse ondulações que se propagaram por todo Atlântico norte incluindo praias do continente europeu que consequem capturar e transformar em ondas surfáveis toda essa energia propagada pelo oceano”, finaliza Eduardo Bulhões.
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