Piscina de ondas pública em SP?

A possibilidade existe. Turco Loco resgata a utopia da onda artificial na capital paulista.

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Capaz de gerar quase mil ondas por hora, a Surf Lakes australiana é uma das tecnologias estudadas por Turco Loco e poderia mudar completamente a cena do surfe na cidade de São Paulo.

Depois de 14 anos, o empresário Alberto Hiar, 53 anos, mais conhecido como Turco Loco, diretor da conceituada marca Cavalera e atual presidente da ABEST (Associação Brasileira de Estilistas), pensa seriamente em retornar à vida pública, depois de receber convite do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), inicialmente para ocupar um cargo na administração.

“Desde que eu perdi a eleição em 2006, sinto que os segmentos que eu gosto, como música, rock, rap, surfe, skate e moda foram deixados um pouco de lado pelo setor público. Enfim, o prefeito de São Paulo andou conversando comigo e eu também levei algumas pessoas para falar com ele. Ele é uma pessoa que eu gosto muito e me perguntou se eu queria ocupar algum cargo público. Eu não quis, disse que não. Então, um pouco antes do começo da pandemia, fui novamente convidado para almoçar e ele me perguntou se eu não queria ser candidato”, narra Hiar.

Segundo ele, a ideia do prefeito era propor justamente um canal com estes segmentos de esportes de ação, moda e música, mais voltado aos movimentos underground. “Eu preciso de uma pessoa que interaja com este segmento em que você atua, pois ninguém consegue interagir como você interagia”, sugeriu Covas.

Depois de alegar não ter interesse em ser “candidato de mim mesmo”, Hiar, ficou tentado. Ele resolveu sondar algumas pessoas e uma amiga disse uma frase levada em consideração: “Alberto, você é uma pessoa marcante, as pessoas gostam de ouvir a sua história, então, o novo caminho é você.”

Num momento em que ele começou a fazer lives nas redes sociais passou a ouvir que os setores onde atuava estavam “órfãos”. O guitarrista Clemente, do clássico punk rock paulistano, chegou a comentar que durante os mandatos de vereador e deputado estadual, havia rock no metrô, na estação de trem, esquinas, street rock, campeonatos de surfe.

Numa conversa com Luiz Henrique ‘Pinga’, treinador do surfe conhecido por traçar a estratégia da carreira campeã de Adriano de Souza, entre outros atletas renomados, também chamou a atenção para o apoio dado por ele aos campeonatos amadores, nacionais e internacionais realizados no Brasil, pela Secretaria de Esportes, a ponto de o estado de São Paulo reunir três títulos mundiais – um bicampeonato de Gabriel Medina e outro de Adriano de Souza.

“Não vou te dizer que a mosquinha não mordeu outra vez”, revela Turco Loco referindo-se à possibilidade de retorno à Câmara Municipal de São Paulo, com exclusividade ao portal Waves.

Neste contexto, o virtual pré-candidato a vereador pelo PSDB, enxerga várias possibilidades de propor novas ideias e ideais para os segmentos nos quais mantém suas bases. Entre elas, talvez uma de suas propostas mais ambiciosas e, porque não dizer mais emblemática, a construção de uma piscina de ondas artificiais na capital paulista, num projeto envolvendo o poder público e a iniciativa privada.

Confira abaixo, outros temas deste bate papo bastante revelador por telefone, por conta da pandemia do Covid-19.

Ricardo Macario
Turco Loco folheia a revista Fluir em seu gabinete na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, em 2002.

O Grito da Rua

“Anunciar a minha loja Surf Combat no programa de skate O Grito da Rua, nas madrugadas da TV Gazeta, no final dos anos 80, foi algo inédito. A gente fazia o que gostava de uma maneira irreverente, brincando que o Turco tinha ficado louco com as ofertas. Ali eu tive as minhas realizações, paguei a faculdade dos meus filhos e comprei um apartamento.”

Vision Street Wear

“A minha estratégia era a de que a marca fosse ligada a comportamento. Até lembrei disso com o skatista Thronn, de quando eu dei patrocínio para o fotógrafo Cândido Neto, da revista Overall. Na época ele me apresentou ao pessoal do Sepultura e virou um casamento. Na verdade, eu não achava que eu patrocinava. Na minha concepção era uma parceria. As bandas brasileiras ainda não tinham um trabalho de merchandising, camisetas e adesivos para vender em turnê.

Mais ou menos na mesma época, o João Gordo, do Ratos de Porão, me pediu apoio para um show em Piracicaba ou Sorocaba, e apareceu muito fedido na minha fábrica com o roadie e amigo dele, o Kishi. Lembro que o Gordo falou que não iria sair de lá enquanto eu não desse umas roupas. Desde então eu nunca mais deixei de estar próximo dele, do Igor, Andreas. O Paulo e o Max ficaram mais distantes. Em seguida começou a aparecer um monte de bandas, Yo-Ho-Delic, Volkana, Zero Vision…”

Democratização das pistas de skate

“A gente sofria um preconceito e era tirado de marginais, vagabundos, delinquentes, no surfe, no skate e no rock. Acabei virando vereador porque eu queria fazer um show do Sepultura e os caras não liberavam a praça Charles Miller. Naquela época, diziam que precisavam de um vereador pra liberar. O skate chegou a ser proibido de ser praticado nas ruas. Cheguei a retirar skatista de delegacia, sob a alegação de que estava tirando o direito de o cara ir e vir.

Também perguntava para o delegado onde na constituição estava escrito que era proibido andar de skate. O delegado meio que peitava e eu, como parlamentar, usava o poder que me foi dado para defender o skatista. Na verdade, o movimento pela democratização do skate não fui eu quem fez. Eu gostava do esporte, sentia que ele não era respeitado e os skatistas começaram a me pedir as pistas, legais como na maioria das cidades americanas. Assim, fizemos muitas pistas, muitos campeonatos nacionais e internacionais, campeonatos em escolas municipais e estaduais, acabando por ter o privilégio de conseguir campeões mundiais.

Também criamos o Dia Municipal do Skate em São Paulo, 15 anos antes do Dia Mundial do Skate. Certamente somos o primeiro país a ter um dia do skate, todo dia 3 de agosto, dia em que o Digo foi campeão mundial em Münster, Alemanha, numa época em que os skatistas brasileiros eram até impedidos de treinar, segundo o Sandro Dias, o Mineirinho.

Depois tivemos Bob Burnquist, Ueda, campeões mundiais. Assim o skate passou a ser respeitado. O skate tem uma característica de comportamento, totalmente diferente de outros esportes. Por exemplo, você não vê voleiwear, você não tem isso nem na Fórmula 1. Então, eu tive que brigar muito para conseguir pistas, eventos.”

Na mesma linha da democratização das pistas de skate, Turco Loco sonha em democratizar as ondas artificiais, como esta da Surf Lakes, na Austrália.

Dia do Surfe

“Quando eu criei o Dia do Surfe, comemorado em 14 de setembro, o Fantástico tirou sarro da minha cara, o Jô Soares tirou sarro da minha cara, os vereadores tiraram sarro da minha cara porque São Paulo não tem onda. Mas é a capital do Brasil onde mais tem surfista. Aí, o Derico, tirou um sarro do Jô. Ele disse ‘Jô, eu pego onda e sou da cidade de São Paulo’. O Jô calou a boca.”

Falta de apoio

“Nestes 14 anos em que estou fora da vida pública a gente viu os shows de rock minguarem, os campeonatos de surfe minguarem, os campeonatos de skate na cidade de São Paulo quase não existem, não temos Circuito Brasileiro de Surfe e ninguém sabe quem é o atual campeão brasileiro de surfe. Isso tudo acabou. Mas a gente é campeão do mundo. Todo mundo sabe que o Italo Ferreira é o atual campeão mundial de surfe, mas ninguém sabe se no ano passado teve campeonato brasileiro de surfe.”

Nancy Geringer
Exposição de pranchas na na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo em comemoração ao Dia do Surfe, em 2004.

ABEST

“A associação existe há 18 anos, cheguei a ser diretor, depois desisti porque percebi que ali tinha muita alimentação de ego de pessoas que queriam mostrar que eram associados ou presidente. Eu sempre olho as coisas tentando visualizar o futuro. E o que eu previa acontecia. A gente não tinha uma entidade organizada no sentido de ver quais eram as necessidades do setor.

Neste momento, por exemplo, de pandemia, quem está tendo grandes financiamentos? O setor automobilístico, que tem até banco próprio. O setor agropecuário, que tem uma bancada federal. Você tem o setor da aviação, que tem um lobby ferrado no congresso e até dentro do governo. E a moda nunca se preocupou com isso. E aconteceu o que a gente previa.

Hoje, a moda brasileira, que chegou a ser um das cinco mais importantes do mundo, atualmente está ao léu. Não tem mais os desfiles, marcas como no passado, como Forum, Zoomp, e criadores como Alexandre Herchcovitch e vários outro estilistas em destaque. E o Brasil tem uma capacidade criativa inigualável. Enfim, me perguntaram se eu queria ir para a diretoria.

Eu fui um pouco arrogante e disse que não queria participar como diretor. Disse que queria ser presidente da entidade para poder brigar por ela. Disseram acreditar que eu faria a diferença e me elegeram. Espero estar fazendo um bom trabalho à frente da ABEST (Associação Brasileira de Estilistas) e estive com o presidente do Senado para levar as reivindicações do setor.

Eles não têm noção do poder que a moda tem no Brasil. Afinal, é o segundo setor que mais emprega na indústria de transformação no Brasil, atrás somente do setor de alimentação e bebidas, e movimentou R$ 230 bilhões em 2019. O papel da moda praia é enorme, porque o segmento fala de algo que é a cultura do nosso país. É uma tendência mundial.”

Ricardo Macario
Alberto Hiar e Claudio Martins de Andrade durante evento em 2002.

Piscina de Ondas em São Paulo

“É uma iniciativa que estou tendo com o Claudio Martins de Andrade, fundador do Waves e da Fluir. Como sou um pré-candidato a vereador, estou escutando as pessoas e hoje temos a possibilidade de ter em torno de quatro piscinas de ondas particulares no Brasil e nenhuma pública. E nenhuma na cidade de São Paulo, onde tem a maior concentração de surfistas no país, talvez no mundo. Quando a gente fala de piscina de onda, isso pode ser uma coisa supérflua para algumas pessoas, afinal há outras prioridades, educação, saúde, transporte público.

Mas quando você fala da piscina de onda como geradora de emprego, turismo e de economia criativa, ninguém consegue olhar a piscina de onda com este potencial. Hoje já temos tecnologia para gerar quase mil ondas em uma hora, como na Austrália. Se houver uma piscina assim na cidade de São Paulo, podemos fazer um campeonato mundial, e transformar isso em um grande empreendimento turístico e hoteleiro.

Imagine o potencial, dando isso de uma maneira democrática para a população, pois em todas as piscinas que eu vi até agora, o valor para usufruir é muito alto. Uma piscina pública pode gerar recursos e ser administrada por meio de uma parceria pública e privada.

O Estado cede o terreno de graça por um comodato de uns 50 anos e a iniciativa privada constrói. Não tem probabilidade de haver erro. É uma iniciativa que promove inclusão social, é geradora de renda, promove o município, o estado e o país. Eu vou para Garopaba com o Claudio para conhecer melhor o projeto de lá.

E no caso de ganhar a eleição já vamos começar a brigar para ter emenda no orçamento. Não sei falar o número exato do valor do investimento, até porque todo mundo guarda isso a sete chaves. Mas, acho que isso deve girar em torno de uns R$ 20 milhões. É uma máquina de ondas, pode funcionar 24 horas. Então, vamos avaliar qual é a melhor tecnologia, para oferecer o máximo de ondas, com formação apropriada para todos os níveis de surfe, capaz de proporcionar desde as marolinhas até os tubos perfeitos. Talvez esta seja a minha maior bandeira, um sonho, pois praticar o surfe é caro para quem mora em São Paulo. Já estou discutindo isso com o prefeito e só vou me candidatar de fato se houver este apoio.”