Longboard Tour 2025

A volta de Jejé

Waves troca ideia com longboarder Jefson Silva, classificado para elite do pranchão na temporada 2025. WLT começa entre 26 e 30 de julho em Huntington Beach, Califórnia (EUA).

Com o título Sul-Americano de Longboard de 2025, Jefson Silva conquistou a vaga para o circuito mundial da modalidade, onde já esteve participando durante 11 anos, e agora voltará a enfrentar os melhores atletas do planeta. Ainda este ano, Jejé participará de quatro eventos em diferentes partes do mundo, em busca do tão sonhado título mundial.

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O circuito começa em julho, entre os dias 26 e 30, em Huntington Beach, Califórnia (EUA). As etapas seguintes serão em Bells Beach, Austrália, de 17 a 21 de setembro; Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos, de 24 a 26 de outubro; e o circuito termina em El Salvador, de 5 a 9 de novembro.

Jefson agora encara os melhores do mundo no pranchão e, em cada etapa, arca com custos de aproximadamente US$ 3,5 mil (R$ 18 mil), que incluem passagem aérea, inscrição, hospedagem e alimentação. Para competir em todas as etapas, que ocorrem em diferentes países, ele busca amigos, fãs e amantes do esporte que compartilhem desse sonho e ajudem a torná-lo possível.

O Waves bateu um papo com Jejé, que revelou sua trajetória no longboard, ídolos e referências, começo na modalidade, volta ao mundial e mais.


Jefson, você é um tetracampeão brasileiro de longboard, campeão sul-americano, pan-americano, e chegou a ser 5º do mundo. Olhando para trás, qual desses títulos ou feitos você considera o mais marcante em sua carreira e por quê?

Sou quatro vezes campeão brasileiro. Conquistei o título sul-americano este ano, em 2025, e também a vaga para o circuito mundial este ano de 2025. Acredito que cada título meu tem uma história por trás, porque em todo campeonato a gente dá o máximo, e eu procuro dar o meu máximo em cada bateria. Então, acredito que todos esses títulos têm um significado muito grande para mim.

Na minha idade hoje, com 38 anos (farei 39), voltar a figurar entre os tops do circuito mundial foi uma conquista enorme. Por isso, este título sul-americano deste ano tem uma marca muito grande para mim. Acredito que, até o momento, ele tem sido o mais importante, até por conta da idade, como mencionei. Voltar a figurar entre os melhores do tour é uma conquista muito grande e gratificante, sabe? Poder ver meu surfe no patamar em que está me deixa muito contente.

Você cresceu surfando no Canto Mágico, na Praia da Baleia, um pico especial do litoral paulista. De que forma esse cenário influenciou seu estilo? E como foi levar essa base para outros tipos de ondas, nas quais você também se destaca?

Comecei a surfar no Canto Mágico. A primeira vez que fiquei de pé em uma prancha foi lá. Depois, tive um incentivo muito grande do Marcelo Aguiar, que comandava a escolinha do Canto Mágico. Ele foi o responsável por criar inúmeros atletas ali, formando nomes como Danylo Grillo, Paraíba, Robson Santos, Aristide Tavares e Thiago Camarão, e colocando-os no cenário do surfe competitivo. Há pessoas como ele até hoje, então sou muito grato ao Marcelo Aguiar por me dar os primeiros passos no começo.

Sou muito grato também ao Wagner Pupo, que apoiava nossa escolinha e, junto com Marcelo, fazia questão de ir lá dar treino para a gente todas as terças e quintas. Portanto, o Canto Mágico é muito especial para mim. É realmente a minha casa, o lugar onde me encontro, onde recarrego todas as minhas energias. Sempre que estou viajando e volto, mesmo que não tenha onda, vou lá sentar nas pedras, olhar, admirar um pouco e recarregar as energias. Estou sempre por aqui, pois é um lugar muito especial para mim, que me ensinou a surfar ondas medianas, ondas grandes, ondas um pouco mais cavadas e ondas rápidas. Devo muito a este lugar; com certeza, ele ficará marcado na minha vida para sempre.

Como longboarder profissional, você precisa transitar entre o estilo clássico e o progressivo. Como busca esse equilíbrio no seu surfe e o que te inspira em cada uma dessas vertentes?

Hoje em dia, como longboard profissional, o estilo está mudado totalmente para o clássico, só que eu venho da escola antiga, que a gente diz, a velha guarda. Eu sou de lá, da escola do Picuruta Salazar, Amaro Matos, Marcelo Freitas, Phil Rajzman, Danilo Rodrigo, Molinha… esses caras eram monstrso absurdos na rabeta. Desde então, desde pequeno, já meio que não fazia frente com eles, mas chegava junto com eles em algumas baterias.

E eu fui crescendo e lapidando meu surfe clássico, ainda na época do progressivo. Quando rolou a transição do progressivo para o clássico, me senti um pouco mais em casa, não tive tanta dificuldade de me adaptar com o estilo clássico. Transitei rápido e consegui adaptação muito rápida. Ao longo do tempo fui tentando melhorar o estilo, melhorar um monte de coisas, que dentro do estilo clássico, a gente sabe que tem que ter uma boa posição para poder obter bons scores, umas boas notas dentro do circuito mundial.

É o que eu venho buscando até hoje, melhorar o estilo, melhorar algumas curvas, algumas posições sobre a prancha. E é isso que a gente vem sempre buscando em evolução no surfe. Por mais profissional que a gente seja, estamos sempre em evolução, sempre buscando acertos e é o que nos faz correr atrás de tudo isso. Buscar melhoria para nós mesmos.

Tive essa vantagem, mas eu venho desde a época do surfe progressivo e peguei toda essa transição do surf power para o surfe clássico e venho até hoje tentando manter o meu surfe e identizá-lo na melhor forma possível.


Você se classificou novamente para a temporada o WLT. Qual a sensação de estar de volta ao Tour Mundial e o que o motivou a persistir em seu objetivo de retornar?

Como mencionei antes, mesmo com certa idade, consegui me classificar novamente para o circuito mundial. A última vez que me classifiquei para o Tour Mundial foi em 2010, e me mantive nele até 2022. Foram praticamente 12 anos no circuito mundial, quase 12 anos, porque houve um corte no meio do ano e acabei ficando de fora. Desde 2022 estou ausente, então, voltar agora ao circuito mundial me deixa muito gratificado com meu trabalho, esforço e dedicação ao esporte.

Estou muito contente e feliz por poder vestir a lycra do Circuito Mundial novamente, um lugar onde estive por muitos anos, mais de uma década. Me mantive por bons anos, já fui o quinto melhor do mundo e fiz final em Nova York, sendo vice-campeão em 2019.

Voltar agora com toda essa experiência que adquiri no circuito me faz acreditar que terei uma posição melhor. Vamos ver, há caras novas também, e alguns amigos meus ainda estão no circuito. Taylor Jensen é um grande amigo meu, e Tony Silvagni está se classificando novamente. Espero reencontrar esses caras e competir de igual para igual, que é o meu objetivo.

Estou entre os melhores do mundo e agora preciso representar não só meu lugar, a Baleia, minha cidade, São Sebastião, mas também meu país, Brasil. No momento, sou o único sul-americano classificado para o circuito mundial masculino, então tenho esse dever de representar minha bandeira e meu país da melhor forma possível. Isso me impulsiona a buscar forças onde nem sei que as tenho, para conseguir um bom resultado e sair de lá classificado para o próximo ano, pois esse é o meu objetivo.

Qual a diferença de preparação e expectativas para o circuito mundial de 2025, considerando sua experiência anterior e a evolução do longboard de competição?

Minha busca por títulos e por competição vem de muito tempo. Acredito que há uns 20 anos descobri que realmente gostava dessa vida de competição, de me pôr à prova. Desde então, nunca deixei de competir. Sempre que havia uma competição por perto, uma competição à qual eu poderia ir, eu corria atrás.

Sempre falei com muitas pessoas que nunca tive apoio no começo. Hoje em dia, graças a Deus, tenho o suporte de uma marca que me ajuda a transitar para poder competir. Mas, antes, tive o suporte de muitos amigos ali da Baleia, da galera do Baleias Broad. Isso me motivou muito, me deu muita gana pela competição, pela raia.

Então, quando entro na raia, não digo que fecho os olhos para o meu oponente, mas fico aceso o tempo inteiro. Se eu tiver um segundo de chance, vou correr atrás daquele um segundo de chance. No ano passado, consegui virar muitas baterias na regressiva, e isso meio que provou que sou um cara que não desiste tão fácil.

Acredito que a competição está dentro de mim. Desde quando coloquei a lycra pela primeira vez, em 2003 ou 2004, fiquei possuído por esse esporte, pela forma de lidar com a competição e de correr atrás da vida competitiva. Amo muito o esporte e me dedico muito a ele, pela vida competitiva. Quero estar competindo até quando eu puder. Enquanto eu puder vestir a lycra e puder estar ali guerreando por uma bateria, eu estarei. Porque essa é a minha vida, vou viver e vivo para isso.

Como você equilibra a busca por títulos e o lado competitivo com essa missão de inspirar e ajudar a galera da próxima geração?

Minha busca por títulos e meu lado competitivo estão dentro de mim, acredito. E como falei antes, desde cedo sempre gostei muito de competir e me pôr à prova. Espero que essa galera da nova geração olhe para esse lado competitivo e realmente se inspire a buscar melhorar cada vez mais o surfe, surfar ondas diferentes.

Assim como há a galera do Nordeste, de Jericoacoara, um lugar com novos talentos, a galera do Iguape também. Há muitos nomes novos aí que, acredito, vão suprir e nos amparar muito bem pelos próximos anos, porque o Brasil é um celeiro de longboard muito forte.

Então, o que tenho para dizer para a nova geração é: nunca desista. Nunca desista de seus sonhos, por mais difícil que seja. Aquele campeonato que você quer ir e às vezes não dá certo, aquela ajuda que você fica contando e às vezes não vem, mas nunca desista. Sempre corra atrás, porque uma hora você vai alcançar aquele objetivo que sempre quis lá no começo. É isso, nunca desistir dos sonhos, porque uma hora o sonho chega para todos nós.

Em fevereiro deste ano, você foi vice-campeão no Uruguay Natural Longboard Classic. Como foi essa etapa e qual a importância de um bom resultado em eventos como este para a sua preparação e confiança antes do WLT principal?

Em fevereiro deste ano, no Uruguai, fiquei em segundo lugar, fui vice-campeão. No ano passado, fui lá e fui o campeão, e este ano, o vice-campeão. A importância de começar o ano na busca dos pontos é muito significativa para mim.

Quando você começa o ano com um bom resultado, isso lá na frente vai te fazer melhor e vai te deixar um pouco mais tranquilo, não confortável, porque o final vai contar muito. Então, o começo e o final são os que dividem os pontos e os que separam, pois geralmente a diferença entre campeão e vice é sempre de poucos pontos.

Tive a sorte de começar com um bom resultado. Depois, em Saquarema, fiz um quinto lugar e tive a sorte de me consagrar campeão da etapa, o que me deu o título de campeão sul-americano e me fez, automaticamente, voltar para o circuito mundial. Estou muito contente com essa conquista e com a importância de eventos como esse.

A importância é muito grande, porque os surfistas da região, por exemplo, no Uruguai, têm bons surfistas, como o Julio e o Nátil, que já fizeram parte do circuito mundial e sonham em voltar novamente. A importância de eventos como esse no país-sede é relevante por conta dos pontos, pois são eventos caros. E, tendo eventos como esse no seu país, você não gasta tanto, então é muito bom. Assim como o Peru fez há muitos anos com o pico, que foi bicampeão mundial. Enfim, a importância desses campeonatos é significativa para nós, atletas que queremos figurar no circuito mundial.

Sendo um dos longboarders mais carismáticos do Brasil, como você enxerga a evolução do longboard como esporte no país e o que, em sua opinião, ainda precisa ser feito para que a modalidade ganhe mais visibilidade e apoio?

Eu enxergo que o Longboard está em evolução crescente no Brasil. Eu venho da velha guarda, de vinte e poucos anos atrás, uma época em que grandes nomes do Longboard brasileiro, que acredito que a nova geração nem sabe quem são, estavam começando. Na minha opinião, o Longboard está em uma evolução e crescimento muito grandes.

Temos um celeiro enorme de Longboard no país, com uma nova geração vindo muito forte, tanto na categoria masculina quanto na feminina. Temos grandes nomes como Daniel Batista, Raoni Caleb, Hideki Duarte, Robson Silva. E na feminina, não posso deixar de citar Jamile Araújo, que é muito, muito boa. Temos também a Katelyn Oliveira, de São Paulo, e a Maya, de Ubatuba. Tem também a Luana Soares, uma menina que fez um trabalho comigo no começo e hoje já figura entre as surfistas do circuito mundial.

Não podemos deixar de citar nomes como esses, que são muito importantes para a nossa evolução e para o crescimento da modalidade. Acredito que a modalidade só tem a ganhar nome, só tem a ganhar força. Nós, como profissionais, devemos apoiar os pequenos que estão vindo. Eu procuro sempre apoiar os pequenos. Também tem o Arthur, o Arturzinho, o Alídio de Ubatuba, de Itamambuca, molequinho da nova geração que vai vir muito forte.

Eu procuro sempre estar apoiando esses garotos porque, no começo, quando eu era pequeno, quando eu comecei no circuito brasileiro e nos circuitos estaduais, sempre tive o suporte de vários caras. Às vezes eu tirava dúvidas com eles e eles sempre tiveram muito carinho comigo, sempre me davam dicas, sabe? O Jane Viúdes, o Picuruta Salazar, o antigo e falecido Olimpinho, o Bajel, o Eduardo Bajé, um cara que é muito meu amigo, que me ajudou muito, sabe? O Phil Rajzman, o Carlos Bahia, todos esses caras.

É muito importante que nós, longboarders que estamos em ascensão hoje em dia, possamos ajudar esses garotos, essa nova geração, ou apadrinhar um deles, pelo menos para ele se sentir, pelo menos, ter um suporte da gente. É muito importante. Mas eu acredito que a modalidade só tem a crescer. E o meu sonho é poder ver o longboard nas Olimpíadas um dia, sabe? Vai ser muito gratificante para mim ver um brasileiro lá nos representando, sabe? Com a bandeira nos apoiando e nos representando, vai ser uma grande conquista.

Seu objetivo é o título mundial. E qual o seu plano de ação e quais os principais desafios que você prevê para a temporada 2025 do World Longboard Tour em busca desse sonho?

Hoje, meu objetivo é claro: o título mundial. Tenho certeza disso, e desde que me classifiquei, venho pensando nisso dia após dia. Meu plano de ação é treinar e surfar, me manter bem, comer bem e dormir bem.

Se houver competição antes do circuito mundial, vou competir e treinar o máximo possível para, quando chegar e colocar a prancha no circuito mundial, não me desapontar e não desapontar as milhares e milhões de pessoas que represento.

Acredito que, hoje em dia, o maior desafio ainda são os apoios e patrocínios. Tenho o apoio da Hang Loose, um patrocínio da Hang Loose, mas mesmo assim, isso ainda dificulta um pouco, porque nossas viagens são em dólar e são muito caras. Terei viagem para os Estados Unidos, depois para a Austrália, e para a piscina em Dubai, então são custos bem altos.

No momento, o desafio é realmente a arrecadação de recursos para essas viagens, que são muito caras. Fora isso, procuro buscar outros apoios. Também trabalho com a LootSurf, e como te falei, tenho o suporte da Hang Loose, mas mesmo assim, ainda é um pouco difícil. Mas continuo focado e buscando forças até onde não tenho, porque meu foco este ano é o circuito mundial, voltar lá com fé em Deus para poder fazer o meu melhor, representar meus patrocinadores que estão comigo e meus apoiadores, e tudo mais.

Para finalizar, qual mensagem você gostaria de deixar para os jovens surfistas que se inspiram em sua trajetória e almejam seguir os passos de um campeão como você?

A mensagem que eu gostaria de deixar para os próximos surfistas da nova geração e para aqueles que se inspiram, não só em mim, mas em outros também, é: nunca desista do seu sonho. Seu sonho é muito grande para você desistir no primeiro problema que tiver. Então, continue sempre pendurado no bico, nunca desista dos seus sonhos, porque sempre haverá pessoas boas ao longo do caminho para poder te ajudar, sempre nas melhores situações. Um aloha e um beijo no coração de todos os longboarders e toda a galera da comunidade do surf brasileiro.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.