Entrevista

Teco abre o jogo

Em entrevista exclusiva, presidente da CBSurf, Teco Padaratz, explica principais mudanças do calendário de 2026 dos circuitos brasileiros, fala sobre gestão e enfatiza foco no esporte.

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Ex-atleta do circuito mundial, Flávio Teco Padaratz agora trabalha para organizar e promover o surfe no Brasil.Divulgação
Ex-atleta do circuito mundial, Flávio Teco Padaratz agora trabalha para organizar e promover o surfe no Brasil.

A gestão de Flávio Teco Padaratz à frente da CBSurf desde o início de 2022 trouxe mudanças significativas para o campeonato brasileiro de pranchinha. Uma das principais foi a criação, em abril de 2023, do Dream Tour, que se tornou o circuito de elite do esporte no país.

A atual gestão também implementou a Taça Brasil (divisão de acesso para o Dream Tour) e reformulou o campeonato de base. A temporada de 2025 do Dream Tour está na reta final, com duas etapas decisivas marcadas para novembro em Florianópolis (SC), onde serão definidos os campeões.

Para 2026, a CBSurf anunciou no último mês de agosto a unificação do Dream Tour e da Taça Brasil, criando um único campeonato com no mínimo quatro etapas. A competição terá um número maior de atletas, totalizando 228 (168 homens e 60 mulheres).

O campeonato de base também passará por uma reformulação. Os títulos das categorias Sub 12, Sub 14, Sub 16 e Sub 18 serão decididos em um evento único, cujos participantes serão apontados em três seletivas regionais: uma para o Sul, uma para o Sudeste e uma para o Norte/Nordeste.

Para entender melhor as mudanças da CBSurf para 2026, o Waves conversou com Teco Padaratz. Ele fala sobre as competições, sua gestão e os planos para o futuro. Confira a entrevista na íntegra:

A Confederação anunciou um calendário renovado para 2026. Quais são as principais mudanças e o que a CBSurf espera alcançar com essa nova configuração?

Eu acho que a principal mudança que fizemos foi criar um calendário que é lançado com o que já está confirmado. Ou seja, ele não vai mudar. À medida que vamos fechando outras etapas e competições, elas são adicionadas ao calendário, sempre como um acréscimo, nunca como uma troca ou diminuição. Acredito que esse seja o principal objetivo que buscamos, que é dar mais estabilidade para as viagens dos atletas. Assim, eles podem comprar suas passagens com bastante antecedência, sabendo que a etapa realmente vai acontecer e não precisam ficar esperando a abertura das inscrições para só depois comprar a passagem aérea, reservar um hotel ou algo do tipo.

Existe a possibilidade de o Dream Tour 2026 expandir o número de etapas e incluir novas praias no circuito? Quais seriam os critérios para a escolha desses novos locais?

Bom, para começar, o Dream Tour vai ter outro nome no ano que vem. A princípio, ele é o campeonato brasileiro de surfe, mas o circuito terá outro nome, digamos assim. Hoje confirmamos quatro etapas, mas sim, novas praias e novas etapas surgirão até o final do ano. Até porque já estamos em fase avançada de negociação com alguns outros lugares, mas só vamos divulgar isso quando tivermos 100% de confirmação da etapa. Não vamos lançar um calendário e correr atrás dele. Vamos lançar um calendário e, no momento em que fecharmos outra etapa, vamos adicioná-la a ele.

Os critérios são: primeiro, a sustentabilidade do evento, sem correr riscos; segundo, a qualidade das ondas; e terceiro, as cidades que nos recebem realmente querendo nos receber. Isso a gente já percebe. Pela negociação com as próprias prefeituras, sentimos na primeira conversa se a pessoa realmente quer ou se somos nós que queremos convencê-la de que deveria haver um evento ali. Então, isso vai influenciar muito quais serão as etapas que teremos no ano que vem.

A premiação do Dream Tour tem sido um ponto de destaque. O atual valor já permite que os atletas vivam exclusivamente do surfe, ou ainda há um caminho a ser percorrido? Qual a visão da CBSurf sobre a sustentabilidade financeira dos surfistas profissionais no Brasil?

A premiação para os atletas visa criar mais sustentabilidade e segurança financeira para a carreira deles. No entanto, hoje, o valor dessa premiação está muito mais relacionado ao custo da viagem para a etapa do que a sustentar a vida deles, no lugar de patrocinadores.

Eu acho que o surfista ainda precisa de patrocínio para bancar sua carreira no dia a dia. Mas, com certeza, uma premiação alta o incentiva, porque retira um custo altíssimo que ele precisaria repassar ao patrocinador para cobrir as viagens. Dessa forma, ele tem mais liberdade para fechar contratos de patrocínio que sustentem sua vida no dia a dia, e não necessariamente as viagens.

Como a Confederação planeja fortalecer as categorias de base para garantir a continuidade do domínio brasileiro no cenário mundial?

Uma das grandes mudanças no formato das competições no ano que vem é o sistema da categoria de base. A nossa ideia é regionalizar a classificação para o evento nacional. Antes, todo mundo competia no evento nacional. O evento se tornava uma maratona gigante de dez dias, e o atleta precisava passar por várias fases para chegar a uma final. Agora, não. Teremos uma nova etapa nacional e etapas regionais. Dividimos o país em três regiões: Norte/Nordeste, Sudeste e Sul.

Quando competem em um campeonato regional, os atletas, que ainda estão estudando, participam de um evento de apenas três dias. Eles perdem somente a sexta-feira de aula, enquanto que, antigamente, com três etapas nacionais, eles perdiam três semanas inteiras de aula. Isso influenciou bastante nossa decisão.

E quando chegam ao evento nacional, como só vão os classificados, o evento também deve durar três, no máximo quatro dias. Assim, o atleta perde menos aulas no evento nacional, e no regional ele não tem um custo muito alto, pois pode viajar de carro ou, se for necessário, de avião, já que o local é próximo à sua casa.

Ele terá mais competições durante o ano, porque para se preparar para o regional, ainda terá que disputar o estadual. É toda uma escadinha, construímos uma escada de evolução para cada atleta.

Quando ele chegar ao evento nacional, que é a grande final, onde definimos o campeão brasileiro e a seleção brasileira para representar o Brasil nas categorias de base, já teremos atletas com títulos. Para a mídia, é muito melhor comentar, “olha, esse é o campeão regional Sul”, “esse é o campeão regional Sudeste ou Norte/Nordeste”.

O atleta, dentro de sua região, fortalece seu argumento para conseguir novos patrocinadores. É uma maneira de incentivar o futuro da vida desses atletas.

O Campeonato Brasileiro de Base, em 2026, ocorrerá em apenas um evento. Não seria mais vantajoso para o desenvolvimento dos jovens atletas ter um circuito com mais etapas, proporcionando maior experiência competitiva e minimizando a pressão de um evento único?

Olha, na categoria de base, como eu respondi na pergunta anterior, se você pensa que competir mais vezes ajuda a evoluir a carreira do atleta, sim, mas fazer várias viagens longas, longe de sua cidade, durante o ano, prejudica seu currículo escolar. E manter o currículo escolar de cada atleta é uma prioridade para nós.

Não queremos que eles deixem os estudos para competir ou para ser surfistas, queremos que eles continuem estudando e se formem no ensino médio. Então, cara, eu aposto muito nisso, e não só eu, como toda a equipe, apostamos muito em preservar essa base curricular do jovem atleta. Ele terá bastante competição porque tem o circuito do estado dele, dos estados vizinhos, o regional e também o nacional.

A ideia de ter o campeonato nacional é uma maneira de treinar o atleta para os campeonatos da ISA, os mundiais, porque, veja bem, a própria ISA faz uma competição por ano por categoria. Não tem duas, é apenas uma, é uma única chance que você tem. E a galera que está muito acostumada a competir em circuitos e lidar com ranking acaba sentindo um grande impacto quando vai para uma etapa onde é tudo ou nada. Não tem ranking. Ou você é campeão, ou tem uma boa semana, ou está fora. Então, a gente já prepara melhor os atletas para encararem esse formato de competição.

Quais são os planos da CBSurf para os talentos que se destacam nas categorias de base? Existe um programa de transição ou apoio para esses atletas migrarem para o circuito profissional?

O formato da categoria de base e nosso campeonato nacional criaram, na nossa visão, a escada ideal. Até que os campeonatos nacionais voltassem a ser realizados, porque isso era incerto nas gestões anteriores, às vezes acontecia, às vezes não, existia um gap muito grande entre um garoto de 13, 14 anos e sua transição para virar um profissional e correr o circuito mundial.

A partir dessa idade, ele não tinha muitas competições que o desafiassem o suficiente para evoluir na carreira e se preparar para ser um profissional. Agora, não. Ele começa na 12 (Sub), depois vai para a 14, 16 e, depois para a 18, aí ele entra no circuito brasileiro através das triagens, mas se for bom, pode se tornar rapidamente um dos principais atletas do circuito.

Isso acontece porque encaramos o ranking de forma dinâmica, que muda a pré-classificação e a posição dos atletas a cada campeonato. Não é considerada a posição do ano anterior, mas sim o ranking atual de cada campeonato.

Então, ele pode sair de uma posição baixa e se tornar um dos melhores já no primeiro ano, disputando o título brasileiro logo no início de sua carreira. Se isso não acontecer, ele ainda tem toda a oportunidade de crescimento dentro do circuito brasileiro profissional. Ele tem muitas oportunidades de evolução e pode dar passos curtos, sem precisar pular etapas de sua carreira.

Há alguma iniciativa em andamento para aprimorar a estrutura de transmissão e cobertura dos eventos da CBSurf, visando atrair mais patrocinadores e público?

O setor de comunicação da CBSurf é um dos principais temas de discussão em nossas reuniões de diretoria, porque, sem uma boa comunicação, o mundo não saberá tudo o que estamos fazendo.

As transmissões são um ponto crucial em nossa comunicação, e trabalhamos sempre na sua evolução. Vocês verão a partir do ano que vem, ainda não estou autorizado a anunciar nossas evoluções nesse setor, mas vocês vão ver uma grande diferença desse ano para o ano que vem no formato de transmissão, na maneira em que a gente vai interagir com as pessoas.

Olhando para os próximos anos, qual é a grande meta da CBSurf para o surfe brasileiro, tanto no circuito profissional quanto nas categorias de base?

Eu acho que a grande meta da CBSurf para o futuro é colocar o surfe nacional no mesmo patamar em que o surfe brasileiro se encontra hoje no mundo, internacionalmente. Acho que nós não devemos nos comparar a outras entidades do esporte. O importante é o surfe se comparar a outros esportes, porque já temos condições de competir com os maiores esportes do Brasil, pois temos a mesma ou, às vezes, até mais visibilidade que eles.

A gente tem um esporte que é muito mais livre para a criação de novos conceitos do que outros esportes, que são muito tradicionais. A gente tem um estilo de vida e uma identidade que nos acompanha, algo que a grande maioria dos outros esportes não tem.

Então, deveríamos estar nos comparando a isso, e não necessariamente a outra entidade do mesmo esporte ou a alguma história escrita no passado. Acho que se nós vamos pensar no futuro, temos que pensar de forma diferente do que vem pensando até hoje, para conseguir alcançar novos patamares e níveis para o esporte do surfe.

Em meio à sua gestão na CBSurf, você já vislumbra um sucessor? Há planos para uma chapa de transição ou a intenção é continuar à frente da confederação por mais tempo?

Olha, essa última pergunta é bem interessante. Para começo de conversa, não há outro mandato de presidente. São apenas dois, e nunca pensamos em estender isso. O que vai acontecer é uma eleição livre e independente no final de 2028, em que nossa equipe, com certeza, vai lançar sua chapa, seus candidatos, e vai aguardar para ver se existe outra frente no Brasil que queira assumir o trabalho que temos feito até hoje.

Não existe plano de manipulação desse sistema daqui até 2028, nem existirá. Mas existe, sim, um plano de proposta para o surfe brasileiro em vigência, que já está em prática. Muito provavelmente, na nossa proposta de continuação, vamos incluir os próximos níveis desse plano, desse projeto que estamos fazendo, e vamos encarar a concorrência, seja lá quem for que queira competir para assumir essa responsabilidade aqui na CBSurf, que não é pequena. E vamos concorrer, naturalmente. Com certeza, teremos um candidato, mas hoje não temos esse plano formatado.

Acho que estamos muito mais preocupados, na atual gestão, em conseguir dar os próximos passos do nosso objetivo do que pensar em uma transição daqui a quatro anos. É muito cedo para falar nisso e, hoje, nosso foco é outro, é o esporte. Queremos que o surfe alcance tudo aquilo que ele merece. E essa é a nossa obrigação e o nosso foco também.