Leitura de Onda

Quarenta e nove

Tulio Brandão exalta o passado e o presente de Kelly Slater, o maior surfista da história.

O ano é 1990. Mikhail Gorbachev ganha o Nobel da Paz pelo esforço para por fim às tensões da Guerra Fria. Ghost lota as salas de cinema com a história de uma moça que beija um fantasma. Ayrton Senna conquista o bicampeonato mundial, num caminho que parece seguro para se tornar o maior de todos os tempos.

O ano é 2020. O Nobel da Paz vai para o Programa Mundial de Alimentos da ONU, pelo esforço para impedir o uso da fome como arma de guerra. As salas de cinema, com a pandemia e o avanço do streaming, já não lotam mais. Lewis Hamilton, que tinha 5 anos em 90, torna-se o maior campeão da história da F1, com sete títulos e 95 vitórias.

São dois mundos distintos, descasados, separados por um abismo maior que os 30 anos contados. Mas há um elo, uma liga especial a conectá-los: Kelly Slater.

O surfista mais importante da história tinha 18 anos quando, no distante ano de 1990, entrou no mar da pequena comuna de Lacanau para enfrentar, na semifinal, seu ídolo, Tom Curren, então um espetacular surfista a caminho do terceiro título mundial.

Kelly perdeu, mas apresentou suas cartas. Mostrou-se veloz, preciso, fora de seu tempo. Contra o surfe elegante do rival californiano, tentou virar com um aéreo, mas ainda não era tempo de manobras progressivas. Naquela bateria, o circo começou a se dar conta que uma nova e brilhante estrela passaria a disputar o centro do palco.

Em dezembro de 2020, lá estava Kelly, do alto de seus 48, a dividir o line-up de Pipeline com uma das mais brilhantes estrelas desta geração, John John Florence (que é quase um Curren contemporâneo, a caminho de seu terceiro título mundial, no auge da carreira, antes da possível aposentadoria).

De novo, Kelly perdeu, mas apresentou suas cartas. De novo, mostrou-se veloz, preciso, fora de seu tempo. Contra o melhor do evento, o 11x campeão passeou por tubos profundos, sempre sobre a bola de espuma, e obrigou o havaiano a fazer a melhor apresentação de sua história em baterias no pico. Em Pipe, o mundo renovou, mais uma vez, as apostas no floridiano como um cara capaz de vencer no palco central.

Neste enorme intervalo de três décadas, quase tudo o que usamos no mundo foi criado ou modificado. A digitalização ampliou ainda mais sensação de distância para o passado, com seu assustador desenvolvimento exponencial.

Mas Kelly estava lá, em todas as mudanças do surfe, neste enorme espaço temporal. O tempo, em vez de o oprimir e o aposentar, como fez com muitos dos melhores surfistas, assumiu uma condição de submissão diante do floridiano. Rendeu-se.

Sim, o cara venceu o tempo numa bateria homem a homem.

Em 30 anos, tornou-se a história. Num resumo modesto de carreira, ele foi 11 vezes campeão do mundo (cinco vezes consecutivas, a primeira vez com 20 e a última com 39), conquistou 55 vitórias em etapas do CT, ganhou o Eddie Aikau, aposentou dezenas de estrelas de diversas gerações, construiu a melhor piscina de ondas do esporte, desenhou pranchas, quilhas e outros equipamentos e ainda segue na disputa.

É dono de uma personalidade complexa, obsessivo por competição, e muitas vezes cruzou a linha fina do bom mocismo para derrotar e esmagar seus adversários. Sabe que influencia a opinião do mainstream do surfe e exerce sem vergonha este poder. Seu drive determinado inspirou adversários em gerações, e muitas vezes Kelly Slater se viu enfrentando um espírito de Kelly Slater. E sendo derrotado. Coisas da vida.

No dia 11 deste mês, Robert Kelly Slater, filho de Judy Moriarity e Stephen Slater e pai da jovem Taylor, fez inacreditáveis 49 anos em plena forma física e técnica.

Eu poderia dar razões de ordem fisiológicas, falar sobre a estrita dieta deste super atleta e de seus hábitos saudáveis, marcar sua disciplina. Tudo isso, é certo, contribuiu para a construção do fenômeno, mas, no fim, não o explica completamente. Se explicasse, teríamos exemplos em outros esportes. E, desta forma, com esta intensidade, com esta longevidade, com esta dominância, não temos.

Há algo de metafísico, que foge à compreensão lógica, no sucesso de Slater. Sorte dos espectadores, que, sem querer, tornaram-se testemunhas de um milagre contemporâneo.

Vida longa a Kelly Slater.

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