Arpoador, berço do surfe

Gabriel Pierin volta ao passado para contar as origens do surfe no Rio de Janeiro (RJ).

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Arquivo Pessoal Irencyr Beltrão
Irencyr Beltrão e Maria Helena, 1968, Arpoador.

O Rio de Janeiro era a principal porta de entrada para as novidades e tendências mundiais que aportavam na América do Sul. Na década de 1950, o ritmo da vida de um grupo de jovens cariocas era definido pelas condições do tempo e do mar.

A intimidade desses rapazes com o mar vinha da pesca submarina. Os praticantes mergulhavam com arpões e entendiam das correntes marítimas e das condições climáticas. Nos dias de ressaca, esse grupo de rapazes aproveitava para pegar onda de peito ou com pequenas tábuas de madeira. Entre eles estava Gertz, Arnica, Afonso Bebiano e até alguns salva-vidas. A diversão era democrática.

Wady Mansur / Arquivo Waves
Fernanda Guerra e sua prancha Barlan.

A brincadeira pegou. Aos poucos, outros rapazes aumentaram o grupo. As tábuas eram subtraídas das obras dos prédios na orla, num período de franco crescimento do Rio de Janeiro, a capital federal.

Foi num desses dias de grandes ondas que os garotos viram pela primeira vez um surfista pegar onda de pé. Era o Paulo Preguiça e o ano, 1954.

Sua tábua, um pouco maior e sem quilha, foi apelidada de Porta de Igreja. Preguiça desceu reto, sem cortar a onda. O desafio de surfar daquele jeito passou a ser perseguido pelos cariocas.

Por volta de 1955, um dos mergulhadores da turma do Clube dos Marimbás, Luís Bisão, resolveu fabricar pranchas maiores e melhores. A tábua de compensado ganhou forma, um bico envergado e uma régua longa que servia de quilha. Nascia a prancha de madeirite.

Para estrear o novo modelo foram escolhidos os amigos Gilberto Laport, Arduíno Colasanti, Paulo Bebiano e Jorge Paulo Lemann, o Jorge Americano. Nas primeiras tentativas eles ficaram de joelhos, mas pouco depois conseguiram descer de pé. O surfe no Rio de Janeiro jamais seria o mesmo. Eles eram os grandes destaques dos primórdios do surfe carioca e se tornaram os “donos” do Pontão do Arpoador. Os aspirantes surfavam no meio da praia.

Com apenas 16 anos, Jorge Bally tornou-se o primeiro campeão carioca de surfe.

A identidade de praia da juventude carioca estava sendo formada. Um casamento perfeito. Durante a década de 1960 o mundo vive um período de contradição. Guerras ideológicas e intolerância racial contracenavam com uma juventude movida por novos valores e hábitos. Embalados pelo rock e surf music, a cultura de praia se disseminava pelo mundo. No Brasil, o surfe ganhava cada vez mais adeptos.

O aumento de surfistas trouxe um problema. As pranchas não tinham cordinha e a curiosidade dos banhistas e turistas acarretava acidentes. A polícia e as autoridades passaram a reprimir e a proibir a prática de surfe. Os conflitos se tornaram inevitáveis. A ordem era apreender as pranchas.

Nessa época, o jornalista esportivo e colunista do Jornal do Brasil Yllen Kerr, pai do surfista Fabio Kerr, se uniu ao pai de Fernanda, Walter Guerra, para criar uma federação organizar o surfe. As primeiras reuniões ocorreram na casa de Walter. Estava criada em 15 de junho de 1965 a Federação Carioca de Surf. A diretoria era formada por: Arduíno Colasanti, Armando Serra e Irencyr Beltrão.

Arquivo Pessoal Irencyr Beltrão
Irencyr Beltrão e Arduíno Colasanti fazem parte da história do surfe brasileiro.

Walter conhecia o sobrinho do governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima. O amigo intercedeu junto ao político para legalizar a prática do surfe em espaço e horário determinado. O esporte passou a ser liberado após às 14 horas numa faixa de 200 metros a partir da Pedra.

A outra demanda da Federação era promover o surfe e agregar os praticantes, fortalecendo e obtendo o reconhecimento do esporte pela sociedade. A Federação passou a viabilizar os primeiros campeonatos organizados. Os clubes sociais e o primeiro surfclub, o Arpoador Surf Club, também se engajaram para apoiar as iniciativas da Federação.

Nos dias 25 e 26 de setembro aconteceram as fases eliminatórias da disputa. Devido as condições das ondas, o local escolhido para a abertura do Campeonato Carioca de Surf, o primeiro do País, em 1965, foi a Praia da Macumba. O local ficava longe e tinha pouca frequência. O Clube Radar precisou ceder uma Lotação para levar surfistas e pranchas. A pequena plateia não tirou o entusiasmo dos jovens que manobravam suas pranchas sobre as ondas e disputavam a classificação.

Wady Mansur / Arquivo Waves
Arpex nas antigas.

Na primeira experiência competitiva, os próprios surfistas mais experientes se revezavam na função de juízes. Quando não estavam na água disputando as baterias, eles estavam avaliando seus amigos e concorrentes.

O mar estava manso e as ondas pequenas no canto junto ao Morro dos Cabritos. Ao todo foram oito baterias com cinco competidores no primeiro dia de disputa. Os dois melhores surfistas de cada bateria classificaram-se para as semifinais.

Reprodução
Paulo Preguiça e sua “Porta de Igreja”.

No dia seguinte, organizados em três baterias, os melhores competidores garantiam suas vagas para a final. O vento mudou e o canto da disputa também.

As ondas ofereciam melhor formação no Canto do Recreio e para lá foram os 15 concorrentes classificados.

O júri decidiu-se a favor de seis finalistas: Jorge Bally, Rafael Gonzalez, Mario “Bração” Brant, Alexandre Bastos, Antônio Bastos e Geraldo Fonseca. A disputa feminina foi organizada em bateria única e sagrou Fernanda Guerra a primeira campeã carioca de surfe.

As finais masculinas foram realizadas na Praia do Arpoador, em novembro. As ondas estavam boa formação. Com apenas 16 anos, Jorge Bally, o Persegue, confirmou o seu favoritismo e se tornou o primeiro campeão carioca oficial de surfe, enquanto Alexandre Bastos, Mario Brant e Rafael Gonzalez ficaram com a segunda, terceira e quarta colocações.

O sucesso do campeonato carioca inspirou outras cidades a organizar suas competições e instituições. O surfe avançava no País.

Tito Rosemberg
Visual da Pedra do Arpoador, cartão-postal do Rio de Janeiro.

Uma praia e suas origens

No passado, a costa do Rio de Janeiro era repleta de baleias. Os animais eram alvo de grandes caçadas e a Pedra do Arpoador tinha papel fundamental no processo.

Há quem defenda a tese de que alguns caçadores de baleia usavam a pedra para lançar arpões nas baleias. Contudo, renomados historiadores defendem outra teoria para o batismo da pedra e, consequentemente, da região.

Segundo o historiador Milton Teixeira:

“É muito pouco provável que caçassem baleias de cima da Pedra do Arpoador. Esse tipo de caça era muito complexa e de cima da Pedra, apenas, não seria fácil. O que acontecia era que os caçadores usavam a Pedra do Arpoador como mirante para avistar baleias que vinham longe.”

Em 1751, a Ponta do Arpoador foi registrada oficialmente. A praia do Arpoador fica entre a Ponta do Arpoador e o encontro da Rua Francisco Otaviano com a Rua Francisco Bhering, no início da Avenida Vieira Souto.