Leveza na caminhada

Apaixonada pelo estilo clássico do longboard, Chloé Calmon encontrou nas ondas o seu maior amor. Por onde passa deixa estilo, leveza e graça. Confira entrevista com uma das maiores representantes do Brasil no esporte.

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Chloé Calmon dá aquele passeio pelo bico durante o Surf Relik em Malibu, Califórnia (EUA).

Entre todos os surfistas do Rio de Janeiro atualmente, poucos talvez sejam tão emblemáticos no momento como a longboarder Chloé Calmon, 25 anos. E não são apenas os números que estão aí para confirmar.

Admirada na praia da Macumba, respeitada nas competições em todo o mundo, a surfista desliza pelos sete mares para exibir seu estilo e graça, combinando a arte do modo clássico às performances mais inovadoras.

Bonita e carismática, a surfista não faz o tipo musa das redes sociais. Ao contrário, inspiradora, esportiva e simpática com seus fãs, ela procura se divertir nas postagens, sem esquecer de dar o importante retorno aos patrocinadores, para transmitir uma imagem pura, limpa e saudável do lifestyle do esporte dos kahunas.

Numa lista publicada recentemente pelo jornal carioca O Globo, Chloé figurou entre as top 10 da história, apesar de ser tão nova. E para celebrar um ano da conquista da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos realizados no Peru, aproveitamos para falar com ela sobre esta importante conquista, bem como o vice-campeonato mundial da modalidade por duas vezes, a relação dela com a praia da Macumba e um pouco sobre os novos objetivos e perspectivas mesmo durante este grave momento de pandemia por Covid-19.

“Essa pandemia afetou todo mundo. Com o surfe não foi diferente e todos os eventos foram cancelados. Só tivemos a primeira etapa do Circuito Mundial, em março na Austrália. Achei que seria um período muito mais difícil, mas para mim teve um respiro sem as competições e sem a cobrança diária de treino. Foi algo que me fez muito bem, foi o primeiro momento que eu tive para relaxar em alguns anos. Foi também um momento em que eu consegui refletir sobre muitas coisas. No início eu nem senti tanta falta do surfe. Sentia mais falta da vida ao ar livre, do contato com a natureza, do sol, da areia, do vento, enfim. Mas depois que voltei a surfar eu senti que estava revigorada, como se fosse uma outra versão minha, muito mais inspirada, fissurada e motivada a me divertir. Voltei dando muito mais atenção às pequenas coisas, sentir o pé na areia, o sol no rosto, o primeiro mergulho na água. Passei a dar muito mais valor a tudo isso depois da pandemia. Percebi que estava num piloto automático de treinamento, de entrar na água me cobrando para ter uma performance perfeita”, revela Chloé.

Confira a seguir os melhores momentos deste papo exclusivo com o Waves.

Chloé Calmon celebra a conquista do título sul-americano da WSL no Oi Longboard Pro 2019, em Maresias (SP).

Você é local da praia da Macumba, mas curte outros picos da região?

Sou local da praia da Macumba, uma das melhores ondas para longboard do Brasil e epicentro do longboard aqui no Rio. Mas também gosto bastante de surfar no Recreio, em frente à minha casa, uma onda mais em pé, que consigo surfar com bem menos gente, praia da Reserva. Também gosto muito do Quebra Mar, em Santos, que é como se fosse minha segunda casa. É uma onda muito boa para longboard. Se fosse escolher as três melhores ondas para longboard no Brasil seriam primeiro Macumba, segundo Quebra Mar e em terceiro Jericoacoara, no Ceará.

Como foi sua trajetória no surfe desde criança? Como se deu o seu desenvolvimento como atleta e por que escolheu o longboard?

Comecei a surfar por incentivo do meu pai, Miguel Calmon, que surfa há mais de 50 anos. Na realidade, não sei quando foi que eu peguei minha primeira onda. Tenho foto ainda de fralda na minha primeira onda. Desde pequena meu pai me levava à praia e me colocava dentro da água. Sempre adorei nadar e estar conectada com o oceano. Então, sempre me senti muito à vontade praticando esporte e sabia que, mais cedo ou mais tarde, ia acabar escolhendo um pra seguir como principal.

Desde pequena eu tive a chance de experimentar todos os esportes possíveis. Minha mãe até tentou me colocar no balé, jazz, sapateado, mas acabou que foi realmente no surfe que eu me encontrei. Ganhei minha primeira prancha quando tinha 10 anos, um funboard, 6 pés, tinha até o desenho da Pantera Cor de Rosa, quando eu comecei a ir à praia com maior frequência, todos os fins de semana com meu pai. A gente ia surfar e com 12 anos eu peguei emprestado o longboard dele.

E digo que foi amor à primeira onda. Eu me apaixonei pelo pranchão, principalmente por dois motivos. Primeiro que, com 12 anos, a prancha mal cabia embaixo do meu braço. Não tinha como carregar fora da água, mas conseguia controlar a prancha dentro do mar. Conseguia domá-la de um jeito que era possível utilizar toda a extensão da prancha. Este desafio me chamou muito a atenção desde sempre.

Em segundo lugar, me apaixonei de cara pelo estilo clássico do longboard. A caminhada sobre a prancha sempre me remeteu ao balé, a uma dança, a um lado superfeminino. Ainda com 12 anos participei da minha primeira competição de longboard aqui no Rio, uma etapa do circuito estadual amador. Não tinha vaga na categoria feminina e acabei entrando na categoria Iniciante Masculino, passei uma bateria e achei aquilo o máximo.

Fazia natação quando era mais nova, cheguei a participar de algumas competições e sempre tive essa veia competitiva dentro de mim. Meu pai sempre foi atleta no surfe e na natação, então eu sempre me dei bem neste meio. Desde o meu primeiro contato no surfe competição eu sabia que era este o caminho que queria seguir, queria ser uma das melhores surfistas do Brasil e, posteriormente, do mundo. Tive muito incentivo do meu pai, da minha mãe, da minha família toda, desde o início. Isso foi essencial para evoluir tanto no esporte, seguir uma carreira, até porque eu comecei a competir e a viajar muito nova.

Chloé Calmon baila com categoria sobre as ondas de Maresias (SP).

Como foi chegar até onde está? Quais pontos você considera mais importantes para atingir estes objetivos?

Quando eu comecei a surfar e a competir de longboard tinha uma cena muito forte de competição no Brasil. E a praia da Macumba sempre foi o celeiro de grandes nomes do esporte. Vários campeões nacionais saíram de lá. Então, vendo os melhores do Brasil surfarem no meu quintal desde pequena foi um incentivo muito grande. Existiam de duas a três competições por mês, e dos 12 aos 14 anos eu peguei uma experiência muito grande de competição, porque havia circuito estadual amador e profissional, circuito brasileiro amador e profissional, pro junior.

Acabou que nesta época eu tive a oportunidade de competir em vários eventos, virei profissional com 14 anos e consegui a vaga para entrar no Circuito Mundial e representar o Brasil quando eu tinha 15 anos. Naquela altura, o Circuito Mundial acontecia em Biarritz, França, uma etapa por ano para definir a campeã do mundo. Desde este meu primeiro momento houve um turning point, tudo mudou pra mim, da água pro vinho, pois até os meus 15 anos eu vivia num cenário nacional. E desde o meu primeiro contato com o cenário internacional eu vi que estava muito aquém do nível das gringas. Mas foi ali que eu percebi que queria ser uma delas, uma das melhores atletas do mundo.

A partir deste momento, que me marcou bastante, voltei pra casa e botei na cabeça que eu queria ser campeã do mundo e que eu iria batalhar bastante para chegar ao nível das minha ídolas, independente se iria demorar um ano, cinco ou dez anos, eu sabia que era isso que eu queria. Meu caminho no surfe sempre foi muito natural, sempre tive apoio da minha família.

Com 15 anos eu acabei entrando para o time da Roxy, que era um sonho, com as melhores atletas de longboard do mundo na equipe. Este foi um passo a mais para chegar ao meu objetivo. Acho que o que marcou bastante minha carreira e a minha trajetória foi a minha dedicação e o meu foco desde pequena. Sempre ficou muito claro o caminho que eu queria seguir e aonde eu queria chegar. Sabia que teria que batalhar duro para isso. Por mais que demorasse, pra mim sempre ficou claro que valeria a pena.

Desde então estou no Circuito Mundial, há 11 anos. Já fui vice-campeã mundial duas vezes. E isso é muito legal porque hoje, quando paro e penso nos sonhos da Chloé de 12 anos, eu vejo que já alcancei vários deles e consegui ir muito além. Mas, hoje eu vejo que tenho muito mais para conquistar, muito o que aprender e pontos a evoluir. Porque o surfe é uma jornada de aprendizado, de autoconhecimento e evolução diária, que independe de resultado. Sempre tem algum ponto que você pode aprimorar, algum ponto que você pode dar mais atenção, tanto para ser um surfista melhor como uma pessoa melhor.

Eu cresci praticamente competindo e em todas as minhas escolhas durante a minha adolescência tive que abrir mão de festas, sair com amigos, namorados, mas hoje em dia não me arrependo de nada. Foram por estas escolhas que eu cheguei ao que estou vivendo hoje, o auge da minha carreira. Ainda quero conquistar mais coisas e para mim nunca teve fórmula mágica. Para mim, a fórmula mágica era acreditar naquilo e trabalhar duro para um dia conquistar.

WSL / Hain
Chloé Calmon no pódio do Mundial de Longboard 2017 em Uligan Bay, Papua Nova Guiné.

Como é a sua relação com a praia da Macumba?

Eu tinha 12 anos quando comecei a surfar de longboard e toda a galera da escola surfava de pranchinha. Ficava todo mundo me zoando, dizendo que longboard era coisa de velho, só pra onda pequena, pra iniciante, já tinha muito esse estereótipo de o longboard não ser muito bem visto pela nova geração e não ser assim muito popular, porque todo mundo aprende a surfar com prancha grande depois diminui pra prancha pequena.

Quando eu comecei não tinha nenhum amigo ou amiga da minha idade que surfasse de longboard. Como eu sempre ia surfar com meu pai, meus primeiros amigos no surfe eram ele e os amigos dele, o que era muito legal, porque sempre que eu chegava na Macumba, ficava ouvindo as histórias deles, histórias antigas. E eles me ensinaram muita coisa do que eu sei hoje de posicionamento, leitura de maré, de direção de swell, de período, vento. Tudo isso eu aprendi naquela época. Sentava ao lado deles no outside, conseguia me posicionar bem e pegar boas ondas mesmo no meio do crowd da Macumba.

Porque quem já surfou na Macumba sabe que é um crowd animal. Ter crescido na praia da Macumba me deixa preparada para encarar qualquer crowd. É muita gente. Mas é uma onda realmente muito boa. Aliás, essa região onde eu moro e cresci, região do Recreio, aqui no Rio, é a melhor região de surfe da cidade. São várias opções de praia e que funcionam com todas as direções de ondulação, marés, tipo de vento diferente.

Enfim, sempre tem algum lugar de condições surfáveis, é um lugar muito constante, o que me ajudou muito na época em que eu comecei a treinar. Porque todo dia era uma condição diferente, todo dia dava pra surfar uma onda diferente da outra, com prancha diferente. Pra quem é competidor, ter uma onda no quintal de casa que nunca é a mesma, é um fator que te deixa muito preparada para qualquer condição que você venha a encontrar.

Orlando Cunha
Chloé Calmon sempre à vontade em casa, nas ondas da Praia da Macumba, Rio de Janeiro (RJ).

Fale um pouco sobre as tuas pranchas. Como elas são?

Tenho meu modelo oficial, desenvolvido na New Advance, com meu shaper Neco Carbone, o modelo Chloé Progressive Series, modelo de competição, uma prancha com uma linha mais progressiva, 9 pés, com encaixe de três quilhas, de epóxi, bastante curvas, bem leve, a prancha que tem sido mágica nos últimos anos e que uso em praticamente todos os mares de meio metro pra cima.

Ela aguenta qualquer condição. Por isso digo que ela é mágica. Confio nela de olhos fechados. Mas ultimamente também tenho gostado muito de surfar com pranchas mais clássicas. Então, hoje meu quiver é bem variado. Mas, ele basicamente se divide entre pranchas progressivas e pranchas clássicas. Das pranchas clássicas eu tenho três, duas logs, uma single fin 9”3’, no meio termo, que funciona bem pra beach break, pra onda maior e mais em pé. E tenho uma 9”6’ log. Pra quem não sabe, log é um modelo de prancha clássica inspirado nos longboards da década de 60, uma prancha maior, pesada, monoquilha, com borda redonda e que favorece o estilo tradicional do longboard.

Chloé Calmon com o seu shaper Neco Carbone (à esquerda) e Sérgio da New Advance à direita.

Como tem sido sua rotina de treinos, mesmo em mares mais pesados?

Minha rotina de treinos envolve bastante tempo dentro da água surfando em condições diferentes todos os dias. A minha preparação física, que é muito importante e tenho focado bastante nos últimos anos porque traz muitos benefícios à minha performance, também inclui yoga. Ao longo do dia sempre tento fazer uma ou duas destas atividades.

Se o surfe está bombando acabo focando mais nas ondas, fazendo algumas caídas por dia. Basicamente minha rotina é essa. Em relação aos mares maiores e mais pesados, como eu falei a Macumba é um lugar que sustenta bastante ondulações maiores. Enquanto outros picos podem estar um pouco passados, o tamanho do swell na Macumba sempre vai ter uma condição, mesmo que seja perto da pedra, mais no meio da praia.

Este ano eu fiz alguns modelos de pranchas mais voltados para ondas maiores e mais buraco. E o que eu tenho testado e tenho gostado é que o yoga me ajuda bastante na parte de concentração e respiração, apneia também. É um trabalho que envolve bastante coisa e que para mim começa fora da água.

Como é possível manter um equilíbrio entre o estilo mais lapidado do longboard clássico com a radicalidade do surfe performance?

Para mim, dois pontos muito importantes no longboard são estilo e fluidez. Estilo é uma coisa muito pessoal. Não tem como você tentar imitar ou treinar o estilo de alguém. Cada um tem o seu e isso é muito único. A questão da fluidez é algo que você trabalha e eu, desde pequena, sou uma pessoa muito observadora. Gosto de assistir muitos filmes, vídeos, analiso foto.

Quando chego na praia, seja em competição ou num dia normal de surfe, observo todo mundo na água, quem está com o melhor posicionamento, adoro assistir baterias. Observo bem para aprender o que os surfistas podem me acrescentar de alguma maneira, para que eu possa evoluir. Eu tiro muita influência do surfe de longboard das décadas de 60 e 70, praticamente de quando o surfe começou a se tornar mais popular mundialmente, antes da revolução das pranchinhas.

E o mais legal, é que com este movimento mundial das logs, o retorno do surfe clássico, com pranchas inspiradas nessa época, muito vídeo desta época ainda é atual. Gosto de ver vídeos do Nat Young, David Nuuhiwa, Phil Edwards, Bob McTavish, George Greenough, enfim, atletas muito influentes e que me inspiram bastante hoje em dia. Grande parte desta, não digo nova geração, mas o surf clássico tem tido uma atenção muito maior nos cenários mundial e nacional. É quase como um novo olhar para uma coisa que já existe. É uma coisa segue um pouco de fase.

Tem fase em que eu sigo mais uma linha de surfe e tem fase que eu me sinto mais à vontade surfando onda mais buraco, ondas maiores, surfando com minha prancha progressiva, fazendo uma linha de surfe mais moderna, com foco no surfe de rabeta, com rasgada, batida, cutback. E tem época que estou mais voltada ao surfe tradicional, mais clássico, prestando atenção aos detalhes. Não precisa ser necessariamente um mar grande ou acaba que no mar pequeno posso ficar mais satisfeita. E a questão da fluidez no longboard ela independe do estilo que você está seguindo, progressivo ou clássico.

Danielle Zymkowitz
Chloé Calmon aproveita semana nas ondas na América Central em 2017.
Danielle Zymkowitz
E esbanja estilo por onde passa.

Na realidade, a fluidez vai além das manobras em si. Mas, o que você faz entre uma manobra e outra, como você começa a onda, como você prepara a sua prancha para fazer determinada manobra. Esses momentos entre uma manobra e outra são o que chamam mais atenção para o estilo e a fluidez. Durante vários anos da minha carreira eu fui uma atleta mais conhecida pelo estilo progressivo, principalmente pela escola e pela cultura de longboard aqui no Brasil, que começou um surfe mais progressivo, com atletas que vieram da pranchinha e que migraram para o longboard. Até pelas ondas no Brasil, sempre surfei com pranchas progressivas, voltadas mais para o surfe moderno.

E na questão de critério de julgamento nas competições avaliavam o mix dos dois estilos, 50% do clássico, 50% para o progressivo. Mas, de uns anos pra cá tem havido uma transição de critério e um novo olhar para o longboard, em que o estilo tradicional é muito mais valorizado, não tem restrição ao tipo de prancha que você usa, mas é como eu falei. Hoje em dia tem o foco não só na execução das manobras, no momento em que elas estão sendo feitas, mas a fluidez entre elas, o que você faz entre elas, a caminhada de passos, o teu olhar para onde você está mirando, a posição dos braços, a posição do corpo, do quadril, enfim, tudo isso acaba influenciando bastante na fluidez.

Na realidade, quando penso na performance e no estilo, tento ser o mais eu possível, surfar da maneira mais natural, mas pensando neste link entre os movimentos para que seja uma ação contínua, não seja uma linha quebrada de ondas, só das manobras. Até mesmo quando eu não esteja fazendo manobra nenhuma, só deslizando na onda em um movimento com nexo e de acordo com a velocidade da onda e o que a onda pede naquele momento. Acho que a maneira mais eficaz de ser natural e conseguir equilibrar a performance e o estilo é tentar compreender o que a onda está pedindo, para você fazer tudo no momento em que ela te pede para ser uma coisa graciosa e fluida entre um movimento e outro.

© WSL / Tim Hain
Chloé Calmon exibe leveza e tranquilidade em qualquer situação.
WSL / Hain
Seja nas curvas…
…ou ao caminhar pela prancha durante o Taiwan Open Longboard Championship 2018, Jinzun Harbour.

Fale um pouco do vice-campeonato mundial no ano passado e de sua temporada recheada em 2019.

O ano passado foi o melhor ano da minha carreira, com certeza. O fato de o circuito acontecer em ondas diferentes acabou me favorecendo bastante, principalmente porque tirou aquela pressão de ser um evento só que define tudo. Primeira etapa foi na Austrália, em Noosa Heads, um lugar incrível para o longboard, com bastante história, e eu ganhei a etapa.

A segunda foi em Pantin, Galícia, Espanha, uma onda muito boa que achei bem parecida com a Macumba, onde também consegui a vitória. Terceira etapa foi em Nova Iorque, Long Beach, um evento inédito de longboard, um fundo de areia e as ondas mudavam bastante ao longo da semana, mas eu gostei bastante do ambiente, ondas parecidas com as do Rio e fiquei em segundo nesta etapa. Para finalizar a temporada, a etapa em Taiwan, uma onda bem difícil de ser surfada porque a ilha de Taiwan fica num ponto bem isolado, muito propício a receber tufões, onde você pode encontrar qualquer tipo de condição.

Nesse evento final acabei ficando em terceiro e a junção destes resultados acabou de dando o vice-campeonato mundial. Vejo que a cada ano vou ficando mais madura e que o longboard também está crescendo, evoluindo. Tem pessoas certas no comando, organizando e pensando em prol dos atletas, pensando no crescimento e na popularidade do esporte. No ano passado também consegui conquistar o título Sul-Americano da WSL (World Surf League) pela primeira vez.

Também disputei festivais de log, o principal deles o Duct Tape Invitational, evento organizado pelo Joel Tudor. Ele convida os e as 16 melhores surfistas clássicos do mundo. Eu tive duas vitórias em três participações, além de um quarto lugar. Fui a primeira brasileira a participar desses eventos. Joel Tudor foi e ainda é uma grande inspiração para mim. Além do Duct Tape também tem vários outros festivais de log, como o Mex Log Festival, no México; Nine Foot & Single, da DEUS, que acontece na Indonésia; Ferro Log, na Espanha; Belza Classic, França. Além disso também teve o ISA Games, evento mundial por equipes.

Chloé Calmon durante a vitória da primeira etapa do Mundial de 2019 em Noosa Heads, Austrália.

Há um ano você se sagrava campeã dos Jogos Pan-Americanos. Como foi atingir um resultado tão marcante?

Foi a estreia do surfe como esporte olímpico, com entrada do longboard e dos stand up paddle, um marco muito grande para o esporte. Com certeza foi um dos maiores eventos da minha carreira, senão o mais importante, com um retorno de mídia muito grande. Foi uma conquista pessoal muito grande e ajudou o esporte a se tornar muito mais popular.

Ao chegar no Peru caiu a ficha de que eu estava fazendo parte de algo muito grande. A principal diferença ao competir era a de que eu entrava no mar para competir pelo Brasil. Era o Brasil na água contra os Estados Unidos, Peru, Costa Rica. Eu me sentia surfando por todo o meu país e representando toda a comunidade de longboard de todo o Brasil. Sempre sonhei em ouvir o hino nacional ser tocado comigo no pódio e isso aconteceu no Pan. Foi um momento em que eu fiquei tão nervosa, que eu esperava tanto, que eu chorei durante o hino inteiro. Deu branco na letra. Em todas as fotos eu estou com uma cara de choro, mas foi um momento muito especial ver a bandeira do Brasil sendo erguida.

Chloé Calmon conquista a tão sonhada medalha de ouro nos Pan-Americanos 2019, em Punta Rocas, Peru.

Quais marcas te patrocinam e de que maneira você recebe este apoio?

Tenho patrocínio da TNT Energy Drink, Corona Extra, Roxy, Universidade Estácio de Sá, Neutrox e New Advance Surfboards. Faço parte do time da TNT há mais ou menos um ano e meio. Fui procurada por eles e foi algo muito especial, primeiro por estar numa equipe grande, ao lado de outros grandes atletas e referências no skate.

Eu sou a única surfista do time. A minha imagem do longboard tem a ver com algo mais delicado, mais feminino, sutil, e não está tão relacionada assim à adrenalina e aventura, resistência, força. E desde que eu entrei na equipe TNT, eu sinto que acabo incorporando um pouco da identidade da marca no meu dia a dia, na minha personalidade, no meu surfe.

Então, hoje em dia eu me vejo arriscando mais, saindo um pouco desta caixa que era o que eu acreditava e que guiava a minha personalidade e o meu jeito de surfar. É uma marca totalmente voltada à quebra da nossa zona de conforto diária. Isso é um conceito muito legal.

Chloé Calmon em parceria de sucesso com a TNT.

Qual o papel do seu pai em sua carreira de longboarder de sucesso?

Devo tudo a ele, me apresentou ao mar e me iniciou no surfe. Hoje, sou quem eu sou graças a ele. Por muito tempo foi meu treinador, me ensinou tudo. Só quando eu comecei a viajar com mais frequência ficou difícil para ele me acompanhar por conta do trabalho dele. Mas, ele é o meu torcedor número 1. Vira a noite para assistir baterias.

Depois vai trabalhar como um zumbi no dia seguinte quando estou competindo em um lugar de fuso horário diferente (risos). Ele também é meu empresário e cuida de tudo relacionado à minha carreira. Confio nele de olhos fechados para buscar sempre o melhor pra mim. Nossa relação acaba sendo bem próxima e às vezes fica difícil desvincular a atleta do treinador, do empresário, e do pai e filha. Mas a chance de voltar de uma viagem e poder surfar com ele é um momento muito especial para mim.

Agora a gente estava em Ubatuba e foi a primeira surf trip que a gente fez em alguns anos. Foi muito bom passar estes dias lá com ele. Ele é a pessoa mais fissurada que eu conheço. Pode estar 1 pé, maral ou flat, mas ele vai estar sempre dizendo que tem onda, que dá pra surfar, que teria campeonato, que ele vai cair independente da condição. Pra mim, ele é sempre um grommet no coração.

 

Arquivo pessoal
Miguel e Chloé Calmon durante uma trip para Punta Lobos, Chile, em 2012.
Mariana Vianna
Ana, Maria Clara, Chloé e Miguel Calmon na festa de lançamento da loja da Quiksilver em Ipanema, Rio de Janeiro, em 2015.