Meu nome é Wellington Magalhães, mais conhecido como “Gringo”. Estou ligado ao surfe desde os 11 anos de idade, quando iniciei brincando com amigos na praia de Santos, cidade onde nasci. Depois da primeira vez surfando, nunca mais parei, e essa decisão mudou totalmente minha vida, para melhor, é claro, e em diversos aspectos. O principal deles foi formar uma família linda, viver em um lugar incrível com ondas perfeitas, feliz em paz comigo mesmo. Só tenho a agradecer ao surfe por esta vida cheia de coisas boas.
Portugal entrou em minha vida depois de conhecer minha mulher lusitana. Nosso primeiro encontro foi no Peru, onde ficamos por quatro meses entre o Norte e Sul do país, e nesse período ficamos grávidos (risos). Estávamos à espera de um bebê, e com isso mudamos todos os planos. Decidimos ir ao Brasil, país mais próximo se compararmos a distância entre Peru/Portugal e Peru/Brasil, então a melhor opção no momento foi ir ao Brasil, onde ficamos por um ano. Assim que o bebê nasceu, preparamos tudo para ir a Portugal com objetivo de viver em família e fazer uma vida. Como minha mulher já tinha família em Portugal, foi tudo muito mais fácil. Já tínhamos uma base para iniciar e pessoas incríveis que deram todo o suporte que precisávamos para dar os primeiros passos. E, o mais importante, termos confiança para seguir em frente com os novos projetos de vida.
Eu passei toda a minha vida viajando, surfando lugares ao redor do mundo, pois iniciei minha carreira no surf profissional muito tempo atrás e, desde então, sempre produzia para marcas que me patrocinavam no Brasil, e com isso (e muito trabalho duro) conquistei meu espaço na mídia, em revistas e em todos os canais de surfe do país. Mudar para um país diferente demanda um tempo, até para se acostumar e se adaptar aos novos costumes e cultura. Tenho muito orgulho de viver em Portugal, pois, depois de vivenciar o dia-a-dia e a educação que o cidadão português tem por seu país, tudo me trouxe muita paz, afinal meus filhos vão crescer e ser educados neste país. Além disso, Portugal, é um dos melhores lugares em que já surfei na minha vida. Assim que cheguei aqui, pensei “Nossa, vou ter que começar novamente uma carreira onde ninguém conhece o meu trabalho”. Mesmo assim mantive a calma e no decorrer do tempo as coisas foram se encaixando. Tudo está acontecendo no tempo certo e estou muito feliz com os resultados que consegui até agora. Estou focado em dar um futuro melhor para minha família.
Aéreos gringos – Essa tendência dos aéreos no meu surfe começou no início da minha carreira, quando competia como Junior, passando para amador. Naquela fase eu já tinha muita facilidade em fazer aéreos, apesar de, na época, eles não serem bem pontuados e valorizados nas competições.
Hoje em dia é básico você ter em seu repertório as manobras aéreas e, agora eles são muito bem pontuados. Desde pequeno eu sempre fui mais voltado a um surfe mais radical. Buscava referências em vídeos da Califórnia, onde estava em alta esse segmento de surf aéreo, mas no Brasil não existiam ainda tantos surfistas que faziam esse tipo de surfe. Sendo assim, eu me foquei totalmente nisso, visando evoluir meu surfe e, principalmente, evoluir o esporte com manobras novas, para que as gerações futuras tivessem em quem se espelhar e, é claro, seguissem aqueles movimentos.
A partir dali as coisas correram muito bem, eu conquistei meu espaço e hoje em dia no Brasil, atletas da nova geração, alguns deles no Circuito Mundial, dizem que eu fui uma inspiração para eles depois que viram minhas atuações. Para mim é um orgulho enorme saber que fiz a diferença para ajudar os nossos futuros surfistas, e mais ainda, ver alguns deles sendo os melhores surfistas do mundo e campeões mundiais.
Eu estou muito feliz de encontrar em Portugal, surfistas tão talentosos, desde aqueles da velha guarda até essa nova geração e profissionais. Todos estão muito focados. Tenho assistido a isso sempre que entro no mar. Tenho visto os moleques destruindo, “partindo a louça”, como dizem aqui, e isso me faz pensar cada vez mais em um futuro de campeões portugueses. Eles têm treinado forte diariamente, visando um futuro como surfista profissional e, na minha opinião, estão indo pelo caminho certo. Fico feliz de saber que vou assisti-los um dia nos eventos do Circuito Mundial e representando muito bem Portugal.
O surfe português está progredindo mais a cada ano e, com certeza, vários nomes surgirão. Nomes como Gato, Xenico Gonçalo Lopes, o Ratinho, e Toneca são só alguns deles. Surfistas locais da praia do Guincho, onde surfo e vivo, sempre chamam minha atenção pela leitura perfeita das ondas e pelo estilo e força com que surfam. Mesmo não fazendo aéreos, eu tenho me inspirado bastante ao assistir o surfe deles. Surfistas como Ruben Gonzalez e Marlon Lipke, esses dois são brutais. Eu via as suas performances em vídeos na internet, e foram uma grande inspiração para mim, muito antes de eu chegar aqui em Portugal. Da nova geração são tantos que nem me atrevo a dizer nomes, pois seria um livro completo (risos), mas, como disse, a nova geração vem para partir tudo e representar muito bem Portugal nas competições e freesurf.
Atualmente, estou mais focado (como jamais estive) para evoluir meu surfe com aéreos cada vez mais altos, também os tubos, manobras de borda e conseguir deixar meu surfe cada vez mais completo para entrar nas competições, obter grandes resultados e puxar o ritmo onde eu estiver. Com a qualidade das ondas de Portugal, não é difícil conseguir evoluir ainda mais. Eu tenho praticado muito skate, pois adoro e faz toda a diferença nos aéreos. Tenho andado quase todos os dias e me sinto muito bem quando estou no Skate Park. Tenho grandes amigos skatistas que me ajudam muito, dando toques de como executar as manobras e dicas de como executá-las nas ondas, como o kickflip que já foi feito por Zoltan, na Califórnia, e por Rodrigo Generik, no Brasil. Apenas os dois completaram a completaram no mundo até agora e quero ser o primeiro a fazê-lo em águas portuguesas.
Venho treinando bastante essa manobra e tenho fé que, em breve, vou acertar. Mas tudo isso tem um objetivo principal: ajudar a puxar a nova geração portuguesa a um surfe mais radical, com repertório de manobras cada vez mais amplo, fazendo com que o nível suba cada vez mais, como já está acontecendo.
No último ano, queria ter participado de mais competições, mas estava aguardando meus documentos. Agora que tenho tudo em mãos, estou super motivado para competir e me sinto preparado e confiante para isto. Hoje tenho apoio de uma escola de surfe da praia do Guincho, a Moana Surf School, e recentemente fechei uma nova parceria com a Xen&CO. Eles têm me apoiado muito desde que cheguei a Portugal, conseguindo pranchas da Chilli Surfboards, além de tudo o que preciso para ter um excelente rendimento na água e tranquilidade para surfar com equipamentos de alto nível.
Agradeço imensamente por tudo o que eles têm feito por mim, acreditando no meu potencial como surfista profissional. Acredito que trabalhando sério posso conseguir um patrocínio principal para poder entrar em mais competições pela Europa, afinal, nunca se sabe o que nos espera e não tenho dúvida de que vou chegar lá com apoio de todos aqui em Portugal.
Vivência dos picos locais – Por enquanto surfei poucos lugares, conheci algumas praias de Ericeira, Peniche e também fiz duas sessões na Costa da Caparica, local que curti muito. Tenho surfando as ondas da linha de Cascais e Guincho, que adoro, mas tenho muito para conhecer deste país lindo e rico em ondas perfeitas. Até agora, a onda mais irada foi nos Coxos. Aquela direita é incrível e quando fui lá pela primeira vi que era melhor ainda do que imaginava quando assistia aos videos. “Não acredito que estou surfando essas ondas”. Essa é a melhor parte de viver em um pais com qualidade de ondas brutal.
Tops brasileiros – Ver o Gabriel Medina ser campeão mundial foi incrível, pois o Brasil já teve muitos surfistas que foram vistos como futuros campeões mundiais e até então nada acontecia. Chegavam muito perto, mas algo se passava, pois o resultado tão esperado nunca chegava.
Mas, de repente chegou a “Tempestade Brasileira”, nome que o mundo deu aos brasileiros que representam o surfe mundial, e tudo mudou.
Eu conheço Gabriel desde moleque, assisti à trajetória dele e tenho maior orgulho de ser amigo desse surfista que vi quando era pequeno e que agora é o primeiro brasileiro campeão do mundo. Foi o surfista que mudou a visão dos gringos, que levou a nossa bandeira no topo do mundo e fez com que os surfistas brasileiros fossem ainda muito mais respeitados, além de abrir mente de todos os outros brasileiros do Tour a seguirem seu caminho, como aconteceu com Adriano de Souza logo no ano seguinte.
Mineiro também é um dos que vi crescer e um grande amigo; Filipe Toledo (gelo cósmico), que conheço e convivi desde pequeno nas praias de Ubatuba com sua família totalmente surfe e hoje é um dos favoritos em quase todas as etapas do Circuito Mundial.
Isto tudo para mim é muito satisfatório e quero ver o mesmo acontecendo com os surfistas de Portugal.