Leitura de Onda

Vôlei em J-Bay

 

Alejo Muniz: uma vitória amarga para o Brasil ao derrotar Adriano de Souza. Foto: © ASP / Cestari.

Dizem que o vôlei é um esporte sem zebra – essa, aliás, é uma das razões da minha implicância visceral com o esporte. Pois o surf, para mim, sempre esteve do lado oposto: tem o DNA da imprevisibilidade. São tantas variáveis – a onda, a prancha, a posição do surfista na prancha – que é impossível dizer o que vai acontecer, de verdade, numa bateria.

 

 

O adversário? O maior obstáculo de um surfista na bateria não é o cara que está no outside com uma camisa de lycra de outra cor, e sim o desafio do desconhecido. Mesmo nos embates mais monótonos, o surfista em desvantagem pode ser premiado com a melhor da série.

 

Mas, para ganhar, ainda deve vencer o maior de todos os monstros: seus próprios medos.

 

Pois, mesmo com tantas variáveis, o surfe anda para lá de previsível. A vitória de Jordy Smith em Jeffrey´s Bay era uma bola cantada aos quatro cantos.

 

E ninguém ousa dizer que ele não mereceu. Vencedor do ano passado, Jordy voltou a surfar muito bem em Jeffrey´s Bay. Arcos potentes, manobras áreas, um surf de impacto. Na final ao vivo, cheguei a concordar com o resultado. Afinal, eu também tinha cantado a bola.

 

Mas, depois, resolvi voltar ao mundo do vídeo on demand. Minha certeza afundou na água gelada de Jeffreys. Por um momento, pensei: Mick poderia ter vencido a bateria, caso a final fosse numa praia qualquer de New South Wales, na Austrália.

 

Em algumas outras baterias, tive a sensação de desconforto de não entender o julgamento. Lembro da melhor onda de Heitor Alves no round 1. Surfou como os juízes mandam, mas era como se aquilo estivesse fora do script. Não pode. Tascaram-lhe um 7,5.

 

Parecia uma nota limite, um teto. Como se dissessem: ei, sua nota não pode ser maior, ok?

 

Vi um Matt Wilkinson disposto a parar o twitteiro Joel Parkinson no round 3, mas os juízes não viram as pauladas de backside do Wilko que eu vi. O que terá achatado tanto as notas dele?

 

Vivemos um conturbado período de transição de critérios, quando as notas podem ficar meio esquizofrênicas. Confesso que tenho tido uma dificuldade inédita de me calibrar aos critérios da ASP. Ando dando mais tiro na água que no alvo quando arrisco uma nota. 

 

Sei lá, talvez eu esteja cansado. Só acertei mesmo o palpite do campeão, que eu dei antes de os surfistas chegarem à África. Apostei no óbvio, num esporte que nunca foi óbvio. Acertei na mosca, mas preferiria ter sido surpreendido. 

 

Adriano, o centurião do surf no Brasil, não se encontrou na África do Sul, para desespero da massa. Perdeu para um renascido Alejo Muniz, que conquistou a vitória mais amarga do ano para o Brasil, mas, com o resultado, garantiu presença na elite depois do corte de Nova York.

 

Para Adriano, a derrota não é o pior dos mundos. Agora, ele está na posição mais confortável que um atleta brasileiro pode desejar para voltar a brigar pelo título: fora da liderança, longe dos holofotes da mídia anglo-saxônica e de twitters preconceituosos de alguns adversários.

 

Agora, Adriano poderá nos surpreender de novo. Que vença o imprevisível.

 

Tulio Brandão é colunista do site Waves e autor do blog Surfe Deluxe. Trabalhou três anos como repórter de esportes do Jornal do Brasil, nove como repórter de meio ambiente do Globo e hoje é gerente do núcleo de Sustentabilidade da Approach Comunicação.

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