Depois de alguns dias angustiado, achando que passaria mais um carnaval entre bêbados, praia suja, axé e poucas ondas, consegui uma passagem só de ida para o arquipélago de Cabo Verde, África. Finalmente!
Mesmo correndo o risco de perder o emprego e a esposa, arrumei minhas tralhas e deixei para me preocupar depois. Tudo certo, pranchas, malas, taxas e dinheiro. Aventura!
O importante era chegar rápido, pois vi na previsão que havia dois sistemas de baixa pressão se formando no Norte do Atlântico. Era quase certo que nos próximos 15 dias teríamos grandes ondas.
Depois de quase 24 horas de viagem, lá estava eu desembarcando no Aeroporto Internacional da Ilha do Sal. Fiquei louco procurando um táxi para me levar até Santa Maria, vilarejo localizado a 10 km do aeroporto e onde eu supostamente iria ficar.
No caminho até lá, costeamos diversos picos de ondas solitárias e grandes. Imaginei que a previsão da internet havia se confirmado.
Parei no primeiro hotel em que recebi uma boa indicação e consegui um apartamento, melhor do que eu esperava. Olhei pela janela do quarto e vi que em frente tinha umas ondas. Fui conferir.
Quando cheguei me deparei com séries azuis, de 2 metros lisos e perfeitos que se enroscavam pela bancada por mais de 300 metros.
Corri, me troquei rápido e me atirei em direção àquela vala perfeita! Depois fiquei sabendo que o nome do pico é Ângulo (por causa de Josh Ângulo, campeão mundial de wind wave e que tem uma base na praia). É um pico que quebra três ou quatro vezes por ano, somente quando a ondulação está muito grande.
Poucas cabeças na água e ondas perfeitas que rodavam sem parar. Com o passar do tempo, chegaram outros surfistas dizendo que tinham vistos séries de 5 metros e um grande desafio nos picos de Punta Preta e Ponta Sino.
Depois de um bom jantar veio o merecido descanso e a expectativa de ótimas ondas para o dia seguinte. Acordei cedo e olhei o mesmo pico (Ângulo), mas estava menor e resolvi ir para Punta Preta.
Arrumei minhas coisas e tomava um café da manhã na padoca perto do Hotel quando ouvi de um Tiozão que Punta Preta estava enorme e que Punta Sino seria o melhor surf daquele dia.
Aluguei uma bike e pedalei até o pico. Ondas de 2 a 3 metros vinham batendo no beach break até abrir para a Baía, formando um bowl enorme que rodava um tubo quadrado em uma direita longa e emparedada. Não havia remada, a corrente era tão forte que era sair da onda e caminhar de volta para o pico.
Depois de alguns quilômetros caminhados e surfados, retornei para a cidade querendo me arriscar em um big surf. Peguei minha 6’8’’ e chamei um táxi que me levou para Punta Preta.
Chegando lá, não acreditei. Séries de até 4 metros alinhados produziam ondas enormes, longas e abrindo. Não havia ninguém no mar. Em vinte minutos, três carros com pranchas olharam as ondas e foram embora.
Quando estava esquecendo a prudência e me jogando naquele mar sozinho, apareceu um gringo, nem olhou o mar direito e já foi tirando a prancha do carro. Meu parceiro neste surf!
Simon era um inglês que havia morado três anos em Cabo Verde. Ele me ajudou bastante na minha estadia, pois me levou para alguns picos nas melhores condições possíveis.
Depois de uma boa remada até o pico, com atenção extrema para não ser surpreendido por uma série traiçoeira, chegamos ao outside exatamente quando entrou uma série das grandes, lisas e perfeitas.
Aquela talvez tenha sido uma das melhores sessões de surf da minha vida. Depois daquele dia ficamos à vontade para explorar novas ondas e Simon me apresentou um secret no final do Monte Leão, que depois apelidei de Simon Slab.
Este lugar é um tubo seco que quebra em cima da bancada de pedra. Com a maré subindo, não se podia errar nenhum drop e a cada nova série as ondas ficavam mais perigosas, até não ser mais possível surfar no pico.
Pela internet, vi que um segundo swell estava se concretizando e a probabilidade de mais uma bomba era quase certa. Desta vez, porém, estaria com uma direção mais de Norte, com vento de até 10 nós. A direção perfeita para Punta Preta, que estaria clássico.
Já adaptado às ondas, achei que seria uma ótima oportunidade para testar os limites e dropar umas grandes neste novo swell. Depois de causar estragos na Ilha da Madeira e nas Ilhas Canárias, a tormenta diminuiu de intensidade e mandou para a costa de Cabo Verde apenas o néctar.
Na manhã do dia 18 de fevereiro, um novo e grande swell já bombava sem parar em Punta Preta e nos picos alternativos.
Pegamos Alibaba, uma direita longa e perfeita. Rápida e alinhada, ela é muito parecida com Jeffrey´s Bay, na África do Sul. São longas direitas enroscando em uma bancada de pedras. Este surf foi incrível! Mais uma vez surfamos Simon e eu sozinhos, por mais de 3 horas. Depois fomos para Punta Preta determinados a encarar as bombas.
Chegando lá, ondas grandes com séries de diferentes direções atrapalhavam bastante o posicionamento e a segurança. Simon resolveu não cair e me restou a decisão de ir sozinho para tentar algumas boas.
Engraçado como nestes momentos todos os sentidos se aguçam e você fica pronto para qualquer ação emergencial.
Mesmo com a desgastante remada contra a corrente, cheguei ao pico depois de uma série na cabeça. Depois de duas ondas, a terceira me pareceu bem sólida e remei com tudo. Um pouco de vento atrapalhou o drop, mas desci a ladeira, colocando lateralmente para ganhar as seções.
Chegando ao final da onda, já no canal, sentei na prancha e dei uma boa respirada. Com o coração bombando no peito fui para mais uma tentativa.
Nesta altura já estava destruído pela corrente e resolvi pegar apenas mais uma. Depois de algumas séries, entre puxadas de bico, vento na cara e correnteza forte, consegui me posicionar novamente e remar na segunda onda de uma série grande, que entrou mais para o meio da bancada.
Remei com tudo para dentro e consegui me posicionar no crítico antes de jogar a crista, antecipando o drop e jogando pra dentro do barrel azul e cristalino. Momento mágico! O tempo parou. Foi uma união máxima com a natureza. Saí e acelerei para tentar passar a massa de espuma que já tentava me alcançar.
Consegui passar a seção e sair no canal ileso, êxtase total!
Fiquei empolgado até dormir. Naquele momento sabia que tinha pegado as ondas da minha vida.
No dia seguinte, com o mar menor e alinhado, as ondas estavam totalmente perfeitas e vinham em séries de seis, alegrando o crowd que apareceu do além. Aliás, que fenômeno é este que acontece quanto as ondas estão clássicas?
Este dia foi o mais completo. Ondas de mais de três metros vindo sem vento, emendando as três seções e produzindo tubos lisérgicos de tão perfeitos!
Todos estavam chocados com aquelas condições. O guia local e fotógrafo profissional, João, dizia que há muito tempo não rolavam ondas com tamanha qualidade. Depois deste dia o surf ficou mais suave e o swell foi perdendo intensidade gradativamente.
Estou muito feliz pelas oportunidades que tive. Consegui no penúltimo dia uma passagem de volta passando por Lisboa e dei um super rolé antes de para voltar a São Paulo. Uma dica para quem for a Lisboa, visite o Oceanário da Cidade.
Existem poucas informações sobre o surf em Cabo Verde, até porque este é um pico reconhecido de wind e kitesurf.
Algumas agências especializadas dizem que têm pacotes para lá, que mandam surfistas, que sabem das ondas. Mas nenhuma conseguiu me passar um guia de surf descente.
Mas a aventura vale a pena. Agradeço as pessoas que conheci nesta viagem e que me proporcionaram momentos únicos. Obrigado Cabo Verde, Ilha do Sal 2010!











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