Os compadres Tito Rosemberg e Sidão Tenucci no casarão da Liberdade. Foto: Edinho Leite.Há quinze dias, fui ao lançamento da Surfer´s Journal Brasil. Meu amigo Adrian Kojin, ex-editor da Fluir, é agora responsável pelo veículo, ao lado do fotógrafo Jair Bortoleto.
Conheci Steve Pezman, criador da antológica publicação, há muitos anos. Ex-editor da Surfer Magazine, ele é idealizador do ousado conceito da Journal, de (entre outras inovações bem soul e bem Califórnia) ter um número limitado de anunciantes, tratar todos os assuntos eleitos na pauta em profundidade, com matérias atemporais e, até hoje, ser o cara que bota a mão na massa e conhece o universo do surf e seus personagens com a amplitude e dimensão que o cargo requer.
Além da própria Surfer´s Journal, referência de qualidade internacional, dois outros motivos motivaram minha ida do Brooklin até a Liberdade, do outro lado da capital paulista: Rever os amigos e participar do lançamento do livro do meu velho compadre Tito Rosemberg sobre os primórdios do Arpoador (RJ), um dos berços do surf na antiga terra dos Tupinambás.
Ao encontrá-lo, ficamos emocionados e a dedicatória acabou elogiosa e agradavelmente exagerada: “Ao compadre Sidão, que tem mais histórias que eu para contar!” Um toque de humor e humildade (ou ele tava tirando uma da minha cara?) do homem que se jogou de Land-Rover pela costa da África na década de 60!
Abaixo outra história – na verdade um presente – que recebi naquela mesma noite. Escutei de surpresa, de uma simpática mulher na fila do autógrafo do Tito. Exemplifica o feeling da comunidade e da própria OP (Ocean Pacific) com certa perfeição. Pensei: “Vou colocar ou não em uma das minhas colunas?”. O cacoete do jornalista/surfista/escriba, que quanto menos procura mais pérolas lhe aparecem, venceu. Estão aí, em primeira mão e ainda frescas de tinta, as palavras da moça emolduradas pelos meus comentários.
“No lançamento da revista Surfer´s Journal, no dia 26 de abril, na Editora Gaia, o astral estava alto, com uma combinação de personalidades que, infelizmente, tornou-se rara dentro da comunidade do surf – o encontro, não as personalidades. Talvez os culpados sejam os tempos que escorrem, os afazeres que consomem e o mar no fundo de nossas mentes, não na frente dos nossos olhos. O lindo casarão da Liberdade, sede da editora, era o cenário perfeito para o evento.
No meio da balburdia do bem, do abraço em dezenas de amigos, e na fila para pegar a assinatura do livro do Tito, com textos sensíveis e fotos maravilhosas em PB da década de 1960, uma mulher simpática me abordou sorrindo:”Lembra de mim?”. Não, não lembrava. “Meu nome é Cláudia, trabalhava como produtora da revista Capricho, da Editora Abril, em 1986. Naquela época fui pegar umas roupas para fotografar na OP e você me deu um bodyboard!” Eu? “Sim, me incentivou a pegar onda ao invés de ficar na teoria das matérias de moda da revista” Uau, eu não tinha ideia de que tinha sido tão generoso! “Pois bem, levei o meu presente para Ubatuba. Tinha acabado de ter a minha filha, que está aqui ao meu lado, a Maíra, hoje com 25 anos” Ôi, prazer. “Ela tem exatamente a minha idade na época”. Interessante: eu adoro sincronias, principalmente quando envolvem datas simétricas, me sinto como se estivesse em sintonia com a vida.
“Eu ainda estava amamentando, acho que deixei o bebê com o pai ou com a minha mãe, peguei o meu presente e fui para Itamambuca. Era o meu primeiro dia de surf. Entrei pelo canal. Estava grande. Meio desajeitada, fui remando e observando os movimentos da água ao meu redor, as espumas, a flutuação do body, até que finalmente cheguei no outside. Quando sentei na prancha, mais uma vez observei o azul à minha volta, e pude perceber que algo destoava daquela tonalidade: vi uns fios de uma substância branca na água, em volta da prancha, como se estivessem me seguindo desde a praia. Aí me deu o estalo e percebi: era o meu leite! O massageamento da remada havia estimulado meus seios, que deixaram um rastro no mar…”
Poderia parar por aqui, mas não resisto comentar: poucas vezes ouvi uma história tão roots. Soul surf absoluto. Leite espargido nas ondas. O que pode ser mais primordial?
O primeiro bebê, o primeiro mar, o primeiro leite. A Cláudia protagonizou uma vivência de surf pura. Senti-me parte de algo, de uma história que foi construída com um amor sem tamanho, e continua a ser construída: a história do surf no Brasil.
O mar, a origem da vida, sendo reforçado com mais vida. Senti que algo relevante aconteceu há 25 anos atrás, criado num impulso tão inconsciente quanto alegre, e que esse fato influenciou a vida daquelas mulheres de uma maneira positiva, quase imperceptível de tão natural.
Percebendo a minha comoção, ela sorriu, a filha sorriu. Senti-me presente, com uma satisfação simples e completa. Senti-me validado, privilegiado. Essa é apenas uma das consequências, pensei, de abrir o coração e descobrir, duas décadas e meia mais tarde, que os seus batimentos e um simples ato geraram ecos de felicidade que não tem previsão para extinguir-se, e que não há caldo possível que afogue esse sentimento.”
Sidney Tenucci Jr, o Sidão, é surfista há 43 anos. Viajou 52 países pescando ondas e caçando culturas. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Publicou dois livros: o Alamaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o design gráfico David Carson; e O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Seu terceiro livro, Poentes de Amor, com os textos ilustrados por 56 artistas plásticos, será lançado em maio. Só se encontra quando está totalmente perdido.