De um cotidiano de peregrinação pedindo uns “trocadinhos” ou um “o que comer” em frente a supermercados, padarias e ruas, relata a triste realidade infantil. Com isso, nasce o compromisso com a escola, com a saúde, com a construção de laços de amizade e respeito ao próximo.
É este o cotidiano de algumas crianças da comunidade Vila Feliz, bairro do Jacaré em Cabedelo (PB). Tudo isso acontece dentro de um bar paraibano, o “Bar do Surfista” em Intermares. Ele é coordenado por uma ONG, a Associação Guajiru: Ciência – Educação – Meio Ambiente.
A ONG foi formada em 2002, com o objetivo de proteger tartarugas marinhas nas praias urbanas de João Pessoa e Cabedelo, e só existe por causa do esporte, ao surf especificamente, pois foi por meio deste que dois biólogos conheceram o Valdi, dono do bar, e resolveram ajudá-lo, na proteção de ninhos de tartarugas nestas praias.
Com estrutura técnica e boa vontade dos voluntários, hoje são mais de 800 ninhos já catalogados e 93 mil tartaruguinhas que seguiram para o mar, realidade bem diferente da encontrada em 2002 quando milhares morreram devido à fotopoluição e furtos dos ovos.
Assim, como as tartarugas neste local, as crianças têm a chance e oportunidade de construir um futuro com mais dignidade. Tudo começou quando Valdi ao ser abordado por crianças na padaria do bairro, lhes disse “Vão até o bar lá eu dou uma prancha para vocês surfarem e depois a comida. Não quero ver vocês pedindo na rua”. E assim foi.
As crianças surfavam, comiam e iam pra casa. Muitos, apesar disso, continuaram pedindo nas ruas e sem frequentar a escola. Em 2004, apesar das já imensas dificuldades em tocar o projeto das tartarugas, a ONG, na pessoa da bióloga Lenira Guimarães, passou a assumir um papel mais efetivo neste processo e então inicia atividades pedagógicas com as crianças diminuindo ainda mais o tempo ocioso delas.
O primeiro passo foi matricular todo mundo na escola, acompanhar as notas, a frequência e alfabetizá-los, pois muitos não sabiam ler nem escrever. Com o apoio de familiares e amigos, Lenira adquire cadeiras escolares, armários e material didático e desde então todas as tardes depois do treino, a escolinha atende a molecada que no final recebe uma refeição e vai para casa. Esta refeição e doada por alguns amigos da ONG e pelo Bar do Surfista, que também é responsável pela preparação dos alimentos.
Uma fórmula simples, que tem como principal alicerce a boa vontade. É assim que funciona a Escolinha do Surfista Tia Lenira, sem recursos e sem patrocínio, sustentado por aqueles que fazem o projeto.
Se os resultados fossem somente estes já seriam grandiosos, mas, além disso, algumas das crianças começaram a se destacar como atletas, a exemplo do José Francisco, o Fininho, líder Mirim do nordestino amador (sub-16), sétimo Júnior nacional amador (sub-18), na categoria Júnior (sub-16) e é também o sétimo no ranking brasileiro para a mesma categoria.
Isto aumenta a responsabilidade daqueles que tem o compromisso com estas crianças, pois, além de buscar alimento e voluntários para as atividades educativas, é preciso apoiar o talento do cidadão atleta, e isto se traduz em mais recursos, viagens, hospedagem e alimentação mais equilibrada.
É aqui que entram mais outros parceiros, como lojas de roupa, fabricante de prancha, surfistas, empresários locais confiantes no trabalho de educação, de desenvolvimentos de valores humanos e sociais da ONG e do Valdi.
Os resultados com as tartarugas são magníficos, sem dúvida e satisfaz nosso objetivo profissional, de usar nossos conhecimentos técnicos na proteção do meio ambiente.
No que se refere às crianças a satisfação vai além, ela é pessoal, é o nosso exercício da cidadania é nossa chance de transmitir valores morais, éticos, a aqueles que estão à margem do sistema e contribuir com um mundo melhor, todos no sentido mais amplo da democracia tenham condições de desempenhar sua função na sociedade e assim engrandecê-la.
A perspectiva de demolição do Bar do Surfista, hoje representa o fim de todas essas atividades, além de outras como: apoio a grupos da melhor idade, igrejas e associações que usam as instalações do bar como teto e ponto de encontro.
Pedimos aqui somente o uso do bom senso, que todos unidos, sociedade civil, autoridades, governantes, empresários, atletas, enfim cidadãos na busca de uma solução que permita a continuidade destas atividades, para não falarmos dos desempregos daqueles que dependem do funcionamento do bar para alimentar suas famílias.
Para obter mais informações, acesse o site Guajiru.