O shaper Hélio Silva de Oliveira, mais conhecido como Coquinho, conta um pouco sobre suas influências e a sua preferênciar em shapear pranchas manualmente.
O santista atualmente produz pranchas em sua oficina no Guarujá (SP).
De onde vem sua paixão pelo surf?
Desde os 5 anos já via alguns caras surfarem com madeirites e caixas de fósforo entre a Avenida Conselheiro Nébias e o Canal 3, em Santos (SP), cidade onde cresci. Naquela época a curiosidade me levou a surfar em uma pequena alaia e posteriormente em planonda de isopor.
Como e quando começou a produzir suas primeiras pranchas e qual foi o principal motivo?
No Canal 3, onde comecei a surfar, havia caras que faziam pranchas de isopor ou poliuretano revestidas de fibra de vidro.
Nelson, que fazia as Morsa, e a rapaziada do Big Kahuna, primeiro surf clube que eu imagino ter existido em São Paulo, faziam pranchas invocadas. Eu e a molecada da área ficávamos de olho, quando eles deixavam. Daí em diante, a curiosidade e a necessidade nos fizeram experimentar. Eram feitas a quatro, seis mãos, sem contar com os palpiteiros que ficavam na torcida, para dar errado, é claro, coisa de moleque. Os parceiros eram Fuad Mansur, Ney Bastos Barrera, Carlos Lafraia entre outros “metralhinhas”.
Na época, quais foram suas principais inspirações para a produção das pranchas? E nos dias de hoje?
Na época de transição ente os longboards para as mini-models, algumas pranchas importadas que caras como Timó, Petito Kaneblley, Paulo e Ucho Carvalho nos emprestavam foram os primeiros parâmetros. Davey Webber, Hobbie e Hansen eram as naves da época. Minha escola mais séria começou com o contato com Mark Jakolla / Lightning Bolt, nas Pitangueiras, Guarujá (SP), onde comecei a trabalhar. Lá, pude observar o havaiano Barry Kanaiaupuni shapear o que tinha de mais moderno para época.
Posteriormente, com a tradição que a marca tinha, outros top shapers passaram por lá, entre eles, Ricardo Wendhausen, o Wanderbill; Heitor Fernandes e Doug Warren. Na fase de mudanças na fábrica do Thyola, trabalhei ao lado de outras feras do design, entre eles Glen Minami, Denis Pang, Neville Hymman, Ned Mc Mann e Eric Arakawa. Eu acredito que a arte do shape não pode ser ensinada, mas pode-se transmitir e receber influências. Eu tive muita sorte e boas influências.
Hoje em dia, os modelos de pranchas que me agradam são as de Eric Arakawa, Pat Rawson, Al Merrick, entre outros.
Quais foram os principais progressos em termos de design ao longo de sua carreira?
Num primeiro momento foram as twin fins, os wings, os swallows e as stingers. As trusthers, criadas por Simon Anderson, até hoje são o que há de mais funcional desde os anos 80. As quads, criadas por Ricardo Bocão e também desenvolvidas por Glen Minami, nos anos 80, hoje tem uma leitura contemporânea, que com todo o refino da atualidade tornaram-se, 25 anos depois, um desenho muito importante para o padrão do futuro do surf de competitivo.
Outro fator importantíssimo para a evolução das pranchas e do surf, sem duvida são os materiais. O EPS com as novas resinas Epoxy tem permitido grande evolução ao esporte e a fabricação do poliuretano hoje tem um nível excelente. Tudo conspira para um futuro brilhante tanto para o esporte quanto para o mercado.
Quantas pranchas já shapeou?
Estou me aproximando dos 30 mil shapes desde que em meados de 76 me dedico profissionalmente. A grande maioria, feitas à mão, já que uso o uso máquinas (CNC shaping machine) há seis anos.
Os designs de suas pranchas são 100% produzidos manualmente. Qual sua opinião sobre a produção de pranchas em máquinas?
Hoje em dia, minha produção é quase 100% manual. Porém, trabalhar com o CNC também é muito bacana, pois permite dedicar o tempo para outras coisas, além da sala de shape. Como para o próprio surf, para o mercado e a mídia em geral, além de shapear com qualidade, sem todo o desgaste físico que exige na produção totalmente manual.
Eu particularmente, por vezes fico meio chateado, pois o programa pode trazer ao mercado muitas vezes caras que nem sabem o que é uma linha d’água e, com um pouquinho de ajuda da mídia, embolam o meio de campo do mercado. Mas jogo é jogo, o surfista ou postulante, na hora de encomendar seu brinquedo, deve informar-se da origem e do processo que será fabricado sua prancha….
Quanto tempo leva para a prancha estar pronta e quais os processos envolvidos desde o pedido do cliente até a entrega?
Meu prazo de entrega fica em torno de 21 dias. No verão, 30 dias. Eu gosto de conversar com o amigo / cliente, saber como e onde surfa, quais suas necessidades e nível de experiência, habilidade, idade etc. Para competição, gosto de ver o atleta em ação. Tenho a felicidade de trabalhar na arbitragem nos campeonatos e isso me ajuda muito na percepção do funcionamento das pranchas em diferentes situações.
Qual conselho daria a uma pessoa que procura a prancha mágica?
O contato direto com o shaper facilita. Desde que haja sinceridade e objetividade em suas informações, elas podem realizar seu sonho e ambos ficarão felizes. Mas você pode encontrar uma prancha mágica nas melhores lojas e sair voando na próxima sessão. Estilo “amor à primeira vista”.
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