Muitas Águas

Penetra no pico

Região de Parati esconde secrets de acesso restrito. Foto: Vinicius Boneco.

Sempre me diverti com cenas em filmes de pessoas driblando seguranças, e dando aquele “jeitinho brasileiro”.

Achava o máximo a ousadia dos personagens e mesmo pessoalmente já tinha presenciado algumas situações assim, mas nunca havia tido minha própria aventura de “penetra” numa festa!

Isto aconteceu pra mim de uma maneira totalmente inusitada e inesperada.

Costumava passar, nos idos dos anos 1980, todos os finais de semana na praia, fosse no Guarujá ou em outra praia do litoral norte Paulista ou no condomínio fechado de Laranjeiras (RJ), na divisa de Ubatuba e Parati.

A família Alves, mais precisamente os irmãos Bruno e Alberto, com os quais dividíamos alguns gostos em comum, entre eles a fotografia, sempre me convidava para pegar ondas neste pequeno “paraíso” escondido no coração da mata atlântica, com uma onda de calibre internacional (quem já surfou bom sabe do que estou falando).

Mais um final de semana se aproximava e decidi fazer uma visita surpresa aos meus queridos amigos.

Meu Chevette, marrom e com rack weekend percorreu as quarto horas de distância da capital paulista até Laranjeiras. Só faltou eu buzinar e o porteiro abrir a cancela, de tanto que ia para lá e já conhecê-los. Bom, isto até eu perceber que havia tido literalmente uma “troca da guarda”, tal qual a Britânica em Londres.

Não acreditei; foram minutos que pareciam horas.

– Mo; o quê…? Falava o porteiro.

– Motaury seu guarda, eu venho aqui desde antes da criação deste condomínio, blá, blá, blá…

Não adiantou nada. Meus argumentos pouco serviram e minhas roupas e cabeleira esvoaçada tampouco ajudaram; ao contrário!

Meu nome não constava em nenhuma lista de convidados e ponto final.

Vendo que aquilo não daria em nada, dei marcha à ré e sumi da vista dele. Só da vista mesmo, pois já tinha arquitetado um plano mirabolante!

Entraria de qualquer maneira, nem que fosse… bingo….descendo escondido pelo pequeno córrego de águas translúcidas que andentrava por dentro do condomínio a partir da estrada, por uma mata cerrada e repleta de aranhas, insetos, cobras e afins…

O carro ficou escondido num canto, eu me esgueirando pela mata fui descendo, com a prancha à tiracolo. Passo após passo fui entrando na mata, apenas escutando os sons da natureza. Até que comecei a curtir aquele momento e minha raiva passageira do vigia foi se esvaecendo, afinal de contas ele estava certo e apenas fazia seu trabalho.

A água estava gelada, límpida e cheguei até a tomar alguns goles. Assim fui descendo e comtemplando aquela obra prima da criação. Ficava pensando em como nosso querido Brasil era privilegiado de ter toda aquela riqueza natural, imaginava os índios passando pelo mesmo lugar onde estava, algumas centenas de anos atrás, apenas vivendo do que a terra e o mar lhes oferecia.

Mas minhas meditacões se interromperam ao ver…. arames farpados! Não acreditava! Que agressão, que ousadia, querer cercar aquela mata! Mas era a realidade, eu entrava em propriedade particular e não fora convidado. Segurei a respiração e muito devagar achei um espaço para mim e minha fiel “companheira”; uma triquilha Summer Birds novinha.

Parei estático quando ao longe enxerguei um vigia, armado! Pensei: ferrou! Mas minha fé me dizia pra não desistir. Poucos minutos mais e o sujeito sumiu. Sem fazer barulho disparei pelas águas me molhando todo. Tropeçando em algumas pedras e não olhando para trás, quando me dei conta estava fora do alcançe dele. E mais; começava a ouvir o forte estrondo das ondas. Uau, devia ter altas!!!

Com muita calma fui percorrendo o restante do córrego até dar numa cachoeira. Lugar este que já conhecia pois costumávamos ir lá depois do surf com o Bruno, Alberto, Tucano e outros amigos.

Já lembrava do caminho e então pisei nas areias de Laranjeiras e me senti “em casa”!

A praia estava vazia, deserta e apenas um cara surfando.

Entrei e logo fui pro outside pegar aquelas direitas de sonho! Dropei uma e na volta encontro com o brother que estava sozinho alí. Ele falou: Motaury?

– Marcelinho!!!

– Cara, Como você veio parar aqui?

Respondi: Brother; olha pra frente e veja que onda vem vindo, depois te conto!

Peguei altas ondas naquele final de tarde e a história foi contada depois com calma na sala da casa da família Alves. Ele passava o final de semana lá a convite da família e eu acabei ficando para o domingo.

Ah, ainda voltei pela estrada de carona pra pegar meu carro e ao sair o vigia olhou pra mim e não entendeu absolutamente nada!

Nem eu mesmo entendi, tinha pela primeira vez na vida entrado de “penetra” numa festa, e que festa! Muita onda, muita alegria!

Obrigado, Senhor; obrigado Marcelo e família Alves. Ah, e obrigado sr. vigia, sem seu profisisonal trabalho jamais teria vivido esta aventura.

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