Ondas perfeitas e sem crowd é o sonho de praticamente todo surfista. Em um planeta abarrotado de gente, carros e surfistas, correr atrás deste sonho é uma missão constante na rotina de quem pega onda.
Mas a grande questão é: como encontrar ondas perfeitas com pouco crowd? A resposta é simples: procurar.
Viajei para um grupo de dez ilhas, localizado a Oeste da África e com área total de 4.033 km2. A região oferece condições clássicas de surf, com dezenas de points e ondas que variam entre 2 e 5 metros.
O meu caminho para encontrar ondas perfeitas e absolutamente vazias me levou ao meio do Oceano Atlântico. Fui parar neste arquipélago que tem o português e o crioulo como idiomas oficiais. O crioulo parece com o nosso português. É quase uma adaptação ou abreviação da nossa língua, mas cada ilha tem a sua própria variação do idioma.
Descobertas em 1460, o local era uma colônia de Portugal desde o século 15. Sua independência foi acontecer somente em 1975. As pessoas são absolutamente inteligentes, amigáveis, receptivas e muitas nunca viram o surf, sequer por revistas ou televisão.
Surfamos totalmente sozinhos durante os 35 dias da nossa estada. Muitas vezes, os moradores e amigos locais vinham nos assistir. Eles ficavam em cima das pedras para observar com curiosidade e admiração cada onda surfada. Os pescadores também passavam nitidamente perto da arrebentação para nos ver.
Os moradores da região vivem sob a premissa do que chamam de “Morabeza”, que significa “Amor à bessa” em crioulo. Em algumas ilhas, você pode sair com peixes e suco de manga apenas por pedir uma informação na casa de um local.
A posição estratégica das ilhas na rota entre Portugal e Brasil contribuiu para o fato de serem inicialmente utilizadas como entreposto comercial. Em 1876, com a abolição do tráfico de escravos, o interesse comercial de Portugal pelas ilhas diminuiu, mas voltou a crescer a partir da segunda metade do século 20.
A economia das ilhas é sustentada pela agricultura, riqueza marinha e a prestação de serviços. O turismo tem ganhado relevância em virtude das ondas e dos ventos que sopram na região.
Basicamente, os moradores de algumas ilhas vivem uma cultura de subsistência, apesar do povo não se preocupar em ganhar ou acumular, e sim com as necessidades primárias. Este modelo torna a competição entre as pessoas absurdamente menos agressiva e possibilita o surgimento de filosofias como a Morabeza.
Mesmo que você já tenha entendido de qual país estou falando, não espere encontrar o lugar nem nos maiores sites de surf do mundo. Em algumas praias as ondas são pequenas, mas basta você andar alguns quilômetros para encontra uma bancada com tubos perfeitos.
É possível encontrar bancadas de pedra que funcionam o ano todo. Por estarem localizadas bem no meio do Atlântico, todas as variações de ondulação acertam as ilhas e acendem as bancadas.
O povo das ilhas também é conhecido por sua musicalidade expressadas em manifestações populares. Uma delas é o Carnaval de Mindelo. Isso faz com que a cidade seja conhecida como “Brazilim”. Na música, existem diversos gêneros próprios como a Morna, o Funaná, a Coladeira e o Batuque.
No que diz respeito à gastronomia, a cachupa é o prato mais tradicional. Elaborada com feijão e milho estufados, o prato pode contêm carne e peixe e pode ser servido com legumes, batata e banana cozida.
Em todos os seus aspectos, a cultura das ilhas caracteriza-se por uma miscigenação de elementos. Não se trata de um somatório de culturas convivendo lado a lado, mas sim de um intercâmbio que começou há quinhentos anos. Para os surfistas, o ambiente não poderia ser mais favorável: calor, água quente, ondas perfeitas, crowd zero e amor à bessa.
Confira na galeria acima, os melhores momentos da viagem.














