Arduíno Colassanti, surfista e shaper pioneiro do Rio de Janeiro, é um dos homenageados no Festival Lendas do Arpoador.
No relato publicado abaixo, Colassanti conta como tudo começou no final na década de 40, e narra como produziu as primeiras pranchas, então chamadas de porta-de-igreja.
O festival reúne os pioneiros do surf no Rio de Janeiro neste final de semana (24 e 25/10) no Arpoador, berço do surf carioca.
Comecei a frequentar o Arpoador no final dos anos 40. Naquela época, surfar ondas era chamado de “pegar jacaré”. Podia ser de peito ou com a própria tábua de jacaré, com ou sem pé-de-pato.
A tábua, com algumas variações, era de cerca 50 x 90 x 1,5 cm de tamanho. Os pés-de-pato, fabricados no Brasil e vendidos na Casa da Borracha, eram da marca SwimFins, iguais às Owen Churchill que o pessoal do morey boogie utiliza até hoje.
Naturalmente, os melhores dias eram os de ressaca, com as ondas rebentando no Pontão. A chinfra nestas ondas era cortá-la pela esquerda, o mais longe possível.
Chegar em frente à torre do Serviço de Salvamento (que até ser derrubada por uma ressaca era bem mais perto da Rua Francisco Otaviano do que a atual) já era considerado bom. Alcançar o edifício cinza (agora azul) na esquina era um feito possível, mas raramente conseguido.
Com o passar do tempo, me enturmei com os locais e soube de um grupo anterior ao nosso que surfava no Arpoador durante os anos 40 utilizando pelo menos duas pranchas ocas, construídas através de planos publicados na Popular Mechanics, uma revista americana.
Em uma maior – apelidada de DC-3, um conhecido avião bimotor – desciam dois em tandem. Os nomes mencionados eram Luis ‘Bisão’ Vital, Jorge Grande, Rubens Torres, Péricles Memória, Abel Gázio e Paulinho ‘Preguiça’.
As pranchas ocas faziam muita água e alguns daquela turma desenvolveram as ‘porta-de-igreja’, que eram tábuas planas, largas, quase quadradas com apenas a proa arredondada.
Com uma destas, Paulinho Preguiça, operador de câmera da TV Rio, aparecia no Arpoador em dias de grandes ressacas, até o início dos anos 50. Ele descia a primeira parte da onda ajoelhado e, quando a onda que vinha do Pontão dava uma enchidazinha, antes de rebentar na praia, ele ficava em pé para descer o resto.
Alguns de nós fizemos nossas próprias versões da porta-de-igreja e começamos a descer as ondas ajoelhados. As nossas tábuas eram muito diferentes umas das outras, pois cada um procurava a forma e as medidas que considerava melhores. Teve até um que fez uma mais comprida, com uma espécie de rédeas, que puxava para levantar sua proa quando esta ameaçava embicar.
Nisso, em meados dos anos 50, o Bisão, já engenheiro que trabalhava na construção do edifício Marquês de Herval, na Rio Branco, mandou construir uma prancha de cerca de 0,6 x 1,5 metros, com o bico virado para cima. Ele nos entregou para ser testada.
Não deu muito certo, a curvatura da proa era exagerada, quase de 90 graus. Quando embicava não levantava a proa sobre a água, dava uma freada brusca que jogava para frente quem estivesse ajoelhado sobre ela.
A curvatura deveria ser mais suave e um pouco mais comprida, falamos com o Bisão. Pouco depois, ele apareceu com seis pranchas iguais, e distribuiu entre os que pegavam melhor onda ajoelhados.
Foi uma revolução. Com as novas pranchas do Bisão, de pouco mais de 2 metros de comprimento, ficou relativamente fácil ficar em pé. Para entrar na onda tínhamos que continuar usando os pés-de-pato, porque elas flutuavam pouco, e para entrar no corte era necessário enfiar a mão na água porque no lugar de uma quilha vertical as pranchas tinham uma ripa de uns 3 cm de altura que tomava todo seu terço traseiro e as fazia deslizar retas, como se estivessem sobre trilhos.
O mais difícil era voltar para dentro, dar um cutback. Era preciso enfiar a mão na parte da onda abaixo da prancha, manobra difícil e pouco realizada.
Com as pranchas do Bisão, quem mais se destacou foi Jorge Paulo Lemman, sendo o mais habilidoso e elegante da turma. Depois veio Gil Laport, o primeiro a pegar, no meio da praia, ondas que não estouravam no Pontão. Os outros privilegiados com uma prancha do Bisão foram Paulinho “Macumba” e eu. Não lembro o nome dos outros dois.
O tempo foi passando e as pranchas feitas por Bisão foram quebrando aos poucos. Foi quando, bem no início dos anos 60, Irencyr Beltrão trouxe a novidade: Moacyr, o carpinteiro naval que fabricava as lanchinhas voadeiras utilizadas pelos caçadores submarinos do Clube dos Marimbas, que trabalhava com compensado naval, resistente à água do mar e com ele poderia fabricar pranchas para a turma. Começava a era da “madeirite”, que marcou a expansão do surf por toda a zona Sul do Rio.
No grupo do Arpoador, a maioria praticava também a caça submarina, que fez sua primeira vítima fatal. “Bimbico” Azulay. Bimbico apagou e desmaiou desentocando uma garoupa nas ilhas Tijucas.
Este acidente foi causado por uma hiperventilação prolongada, que aumentou a duração da apneia, mascarando a falta de oxigênio. Ela leva à síncope que, por sua vez, se não houver uma intervenção imediata, leva à morte por afogamento.
Em sua homenagem pensamos em realizar um campeonato de caça submarina com a participação prioritária dos mais jovens, os seus colegas. Isso seria de costão, dispensando o uso de barcos.
.
No dia marcado para o campeonato o mar amanheceu com uma ressaca que inviabilizou o mergulho. Reunidos no churrasco que culminaria a festa, de repente alguém lançou a ideia: “e se fossemos pegar ondas?”.
A caminho do Arpoador ressurgiu a idéia do campeonato, só que desta vez de surf. O julgamento seria por aclamação do pessoal que havia ficado em terra. Nisso levei vantagem, minha namorada Ira juntou uma torcida que me deu a vitória, ajudado bastante pela ausência do Jorge Paulo e do Gil Laport.
Por essa época, início dos anos 60, comecei a escrever uma coluna semanal em O Jornal. A coluna era intitulada Esporte é Gente que, devido ao seu foco, tornou-se Surf e Mergulho. Por total falta de equivalente em português e contra meu gosto, passei a adotar, penso que pela primeira vez na imprensa, as palavras surf e surfista.
Desde muito, inspirado em fotos que apareciam ocasionalmente na Skin Diver, uma revista californiana de mergulho, pensei em como fazer uma prancha como as deles. Mas as que tinha visto até então eram de balsa, que aqui valia uma fortuna, e de fibra de vidro e resina, que ainda não se encontravam no mercado.
Foi quando saiu uma reportagem de capa sobre as ondas gigantes da Costa Norte na revista Life. Além de ficar boquiaberto com o tamanho delas, fiquei sabendo da espuma rígida de poliuretano e saquei como era a nervura central de madeira.
A espuma rígida de poliuretano não se encontrava por aqui. Existia o isopor, mas ele derretia com a resina poliéster. Ao mesmo tempo de Jorge Bally, o Persegue, que também estava na batalha, testamos materiais para isolar o isopor da resina e trocamos muitas experiências.
Por duas vezes pensei ter encontrado a solução: só para destruir duas pranchas shapeadas com muito trabalho e investimento (nestas alturas já se conseguia comprar fibra de vidro e resina, mas com o preço nas alturas).
Finalmente tive a ideia de procurar ajuda na Shell, onde um engenheiro indicou a resina epóxi, que eles comercializavam como Epikote. O engenheiro me ensinou como trabalhar com ela. Foi a solução.
Fiz mais uma prancha que consegui recobrir com fibra de vidro. A última mão de resina por fissura passei na praia mesmo, para aproveitar o sol, curá-la rapidamente e cair logo na água. Feita de palpites e memória, a prancha era muito grande em todas suas dimensões e tinha muita flutuabilidade.
No pouco tempo que a usei fiquei cheio de satisfação: estava livre do pé de pato e mais perto de meu modelo havaiano.
Nestas alturas, um belo dia apareceu na praia um cara esquálido. Alto, magro e com aspecto doentio, puxou papo comigo em inglês. Contou ser um surfista australiano, chamado Peter Troy, que estava vindo do Peru via Amazonas. Peter achava que continha alguma doença tropical. Irencyr, vulgo Barriguinha, hospedou o gringo e o pai dele, médico, o curou.
Assim que o gringo se restabeleceu, voltou para o Arpoador. Mostrei minha prancha e ele topou experimentá-la.
Como estava ventando um Sudoeste fresco, fomos cair no lado esquerdo do Pontal do Recreio. Peter olhou um pouco o mar, caiu na água e pegou logo uma onda. Nós na praia ficamos de queixo caido: ele andava sobre a prancha e deu o que depois aprendemos a chamar de bottom turn, turn back e hang five.
Tudo com uma fluidez e facilidade que desconhecíamos. Peter voltou para o pico remando ajoelhado, também novidade. Na segunda onda em que entrou, deu um bottom turn tão radical que a pressão da água sobre a quilha arrancou o fundo da prancha que eu, para economizar, havia feito com uma fibra mais fina.
Minha prancha destruída e eu, sem me importar, pulando de emoção pelas possibilidades demonstradas em apenas duas ondas.
Logo em seguida soubemos que Russel Coffin, um garoto americano que morava com os pais em um hotel em Copa tinha uma prancha. Lá fomos nós para o hotel com o Peter a tira-colo. De lá voltamos triunfantes, com Russel e sua prancha – uma Bing – para o Arpoador.
O que se seguiu foi uma demonstração de todas as manobras conhecidas na época, com o hang ten incluso. Foi um ponto de inflexão. Dali para frente pegar ondas não seria mais a mesma coisa.
Antes de partir, Peter Troy nos deixou um gabarito, recortado em papel, do que seria uma prancha padrão.
A partir dele me lembro de pelo menos mais três sendo construídas ao mesmo tempo, por economia revestidas de algodãozinho e resina epóxi. A do Barriga, shapeada sobre a mesa de jantar do apartamento familiar e polida com uma escova de dentes, a do Valcyr e seu irmão Marcelo e a minha nova.
Fiz mais algumas, voltando à fibra de vidro para Fernandinha Guerra e Bruno Hermanny. Procurado pelo Coronel Parreiras, passei o gabarito e meus conhecimentos e ele montou a São Conrado Surfboards.
Era a época da ditadura. Os militares proibiram o surf até as duas da tarde. Para ter representatividade e organizarmos campeonatos, iniciamos os procedimentos, nunca terminados, para fundar a Associação Carioca de Surf.
Yllen Kerr, um jornalista que nos dava apoio, e Walter Guerra, pai de Fernandinha, seriam respectivamente presidente e vice. Eu, leitor da Surfer, seria o diretor técnico. Com isso, as reuniões para organizar os campeonatos foram no meu apartamento.
Os três primeiros campeonatos foram vencidos pelo Persegue e por Fernandinha Guerra. Prova de uma superioridade bem estabelecida.
A partir daí a história do surf é mais conhecida e há mais registros. Deixo para os historiadores contá-la.
O campeonato Além do encontro que homenageia os pioneiros do surf carioca, também acontece um campeonato de Legends em duas modalidades: Pranchinha e Longboard, divididas em três categorias – Master, Pranchinha e Pranchão (45 a 50 anos); Legend, Pranchinha e Pranchão (51 em diante) e Super Legend Pranchão (56 em diante, apenas para convidados).
Haverá uma exposição com pranchas raras dos anos 60 apresentada pelo Museu de Surf de Cabo Frio e pelo Museu Monarca. Entre as raridades, nomes que marcaram a história do surf nestes 50 anos: Surfboards Hawaii, Hobie, São Conrado, Barlan, Hansen, Diffendenfer, Gordon & Smith e as madeirites.
A premiação distribui seis longboards Daniel Friedman, laminados pela empresa RT Glass; duas passagens para o Peru, kits da Redley para todos os finalistas e homenageados, bem como troféus de madeira pinho canadense (réplicas do Pranchão São Conrado) feitos à mão pelo artista Beto Eagle.
As inscrições devem ser feitas por intermédio da Feserj no valor de R$ 60 (sessenta reais) para todas as categorias. Serão 24 inscritos na categoria Master, 24 inscritos na categoria Legend e 16 inscritos na categoria Super Legend.
Para obter mais informações, ligue para a Feserj: (021) 2490-0754 / 8386-0231, falar com Simone.
As presenças dos ilustres homenageados deste ano já estão confirmadas: Arduíno Colasanti, Irencyr Beltrão, Maria Helena, João Cristóvão, Heliana, Piuí, Mario Bração, Marcelo Rabello, Pauleti, Fabio Kerr, Maraca, Fernanda Guerra, João Cristóvão, Tito Rosemberg, Penho, Ceceu Pimentel e Betinho Lustosa.
O evento conta com o apoio das empresas Redley, Kenner, Guaraviton, Mustang 45, Pranchas Daniel Friedman, RT Glass, Mega Energia, Ryno Foam, Pranchas Marea, Ki Doguinho, Casa 2, Tripping Viagens e Turismo, site Waves.Terra e Governo do Estado do Rio de Janeiro e Feserj. (Por Wady Mansur)






