Soul Surf

Mulheres guerreiras

 

Sílvia Nabuco e sua onda inesquecível em Jaws, Hawaii. Foto: Jimmie Hepp.

Conheço a Silvinha Nabuco há um bom tempo. Sempre percebi uma energia intensa emanando dela, como se algo estivesse morando lá dentro da bela morena, pronto para saltar para fora quando surgisse a oportunidade.

 


Silvia é uma das pouquíssimas mulheres brasileiras big riders do mundo. Contraria o que a maioria dos homens entende com “psique feminina”, ou seja, atitudes emocionalmente fortes, mas que não se refletem ou se materializam no mundo externo, como, por exemplo, dropar uma onda de 16,5 metros em Jaws, Maui, Hawaii.


 

Guiada por amigo local, Sílvinha encara trilha cansativa em floresta um dia antes da session. Foto: Arquivo pessoal Silvia Nabuco.

O mundo, a raça humana e, principalmente, as mulheres mudaram muito em pouco tempo.

 

 

Nos países desenvolvidos, para as mulheres, colocar-se plenamente na vida, sem restrições, com todos os atributos, talentos e missões que lhes são inerentes, parece ser cada vez mais um caminho sem volta.


Ainda assim, ainda hoje, e pelo menos por enquanto, as mulheres guerreiras no quesito físico e nessa dimensão de Jaws, são a exceção.

 

Conversando com Silvia no escritório de um amigo em comum, literalmente o aventureiro dos sete mares – sempre com o seu fiel Hobie Cat sem cabine – e também de rios, Roberto Pandiani, o Betão, tive a oportunidade rara de ouvir dela um relato que, pela autenticidade e fôrça, já faz parte da minha própria vivência. Transcrevo aqui.
 
“Surfando, experimentamos diversas sensações. Desde que comecei a surfar mares maiores, ficava analisando reações que meu corpo produzia. Na maioria das vezes eu fico meia eufórica. Gosto de falar e fico sorrindo quando vejo a série se aproximar. Nessas horas o corpo produz substâncias através dos neurotransmissores que inibem o medo momentâneo e te dão o go for it!

À noite, na cama, passava um filminho meio que de terror e suspense das ondas surfadas, e uma sensação de medo aparecia. Eu ficava com o sono perturbado. Com o passar do tempo, me acostumei ao tamanho de ondas maiores e já não me sentia mal à noite. Um dia vi um documentário de Peter Mel em Mavericks, no qual ele narrava essa mesma sensação. Então, comecei a entender o mecanismo das ondas grandes no psicológico do surfista.

Depois de um tempo já estava acostumada à euforia e adrenalina em dias grandes. Mas, num belo dia as coisas foram totalmente diferentes: a temporada 2009 / 2010 foi a que mais bombou grandes swells sem parar. Rolou Eddie, Mavericks, tudo. Fui a Maui a convite do meu amigo Robby Segger, passar uns dias e ser puxada em alguns outer reefs em dias de 3 a 4 metros. Bem divertido, e a primeira vez que surfei de tow in de backside.

 

Bem, já faltavam um ou dois dias para voltar a Maui quando Robby viu uma mancha roxa enorme de um swell se formando no meio do oceano, e me falou para ficar e ver Jaws quebrar. Eu disse que queria voltar e surfar Waimea (risos), mas ele acabou me convencendo a ficar, pois seriam um mega swell e uma rara oportunidade.

No dia anterior, ele resolveu fazer uma trilha em uma floresta de bambu com seus filhos e minha amiga e apresentadora Karina Oiliani, que veio me encontrar. Detalhe: ele falou para fazermos sem calçado algum! Andamos várias horas com obstáculos que exigiam que subíssemos de corda, atravessar rios e, por fim, chegamos a uma linda cachoeira. Cansativo. Se eu soubesse o que me aguardava no dia seguinte…

À noite ele preparou uma prancha e disse que eu poderia ir de jet ski até o pico, mas se não desse eu poderia assistir do penhasco. Resumindo, ele decidiu e me comunicou que iríamos sair às 10 da manhã, pois todo mundo estaria em Maliko’s Point de madruga para sair… Estaria um um crowd e uma confusão danada. Ele me informou que a partir das 10 em diante já teriam jets voltando por diversas razões, como combustivel, lesões, cansaço, fome, frio, etc… Dito e feito: vimos vários jets voltando.

Quando cheguei a Peahi (Jaws), parecia mesmo as cenas de filme que vemos em DVD’s. Aquelas massas de 15 metros de águas azuis se erguendo em forma de bowl e quase sempre com algum surfista dropando. Logo chega o Ross Clark Jones ao nosso lado e pergunta ao Robby se ele não está puxando ninguém, e ele responde que veio mostrar Jaws para a amiga (no caso, eu), e nos apresentou.

 

Logo Clark falou como criança: “Me puxa ,me puxa!!”. Robby olhou para mim e disse…”Fica passeando por aí pelo canal…”. Nossa! Senti o gostinho de ficar pilotando e vendo de tão perto aquele filme ao vivo! Laird, Ian Walsh, Burle, Pato, Danilo, Monster e todas as feras.

Lá pelas 3 da tarde já não havia quase duplas. Apenas umas três, talvez… Foi aí que Robby chega e pergunta: “Você gostaria de tentar?”. Imaginem essa pergunta ali em um mar de 15 metros, tendo visto varios wipe outs nervosos, resgates incríveis, machucados sinistros…. E aquela pergunta tão calma!

 

Respondi sem pensar: “Robby, você é quem sabe se estou apta para surfar esse mar, pois você me puxou nestes três dias em outros outer reefs de 2,5 a 4 metros (pequena diferença, não?), e nas minhas primeiras vezes de backside (uma dificuldade para mim)”. Ele simplesmente falou: “Eu acho que você está pronta!! Vou te colocar em duas ondas menores para você sentir”.

 

Quando fui subir a prancha para sair dali do canal, já caí. Ela era tão pesada, e eu não estva acostumada. Foram três tentativas. Na terceira peguei a manha. Robby me colocou em umas intermediárias, de uns 6,5 metros, e eu me senti muito à vontade, pois a onda não ficava tão em pé, nem ameaçava fechar.

 

Em seguida ele sugeriu: “Agora vamos lá para fora esperar uma da série!!”. Nessa hora eu pensei: “Já que estou aqui, com um dos melhores watermans para me puxar…” (Robby foi campeão mundial de windsurf e precursor, junto com Robby Naish, a windsurfar Jaws, muito antes de Darrick Doerner  e Laird começarem com o tow in).

Falei “vamos lá!!!”. E fomos nos encaminhando para fora. Minha cabeça começou a pensar…”Silvia, agora não tem mais volta!!”. Engraçado que, em vez de ficar eufórica (que era meu normal em mares grandes), fui me silenciando internamente cada vez mais. Ao mesmo tempo em que sentia esse estado letárgico, eu estava consciente.

 

Deitei na água de costas para o oceano (combinei com Robby para levantar o braço na hora de eu soltar o cabo, pois não conseguia ter ideia do tamanho, nem da profundidade da encrenca, e ele me falou para amortecer ao máximo com meus joelhos por causa dos ´bumps´, pois além de tudo ventava muito. Fiquei deitada ali com os pés nas alças e falei para mim mesma: “Silvia, você não vai olhar para trás nem prá onda enquanto estiver surfando, somente para frente” (risos).

Depois disso fui entrando num estado que nunca entrei antes. Tudo estava calmo e minha cabeça estava ali,mas não estava. Vi Robby esperando de pé no jet, e de repente deu o sinal que a série se aproximava. Dei o ok também. E lá fomos nós naquela estrada sem fim (comparado a outros lugares). Nesse meio tempo já passei para o lado esquerdo da esteira e abri o braço esquerdo para ter mais controle sobre os bumps, pois eu estava de backside.

Neste percurso, esse estado de calma no qual eu já me encontrava foi ficando mais intenso, e eu comecei a sentir tudo em câmera lenta, sem nenhum som, nada. Eu me via acima e um pouco atrás do corpo. Vi o abismo se aproximando como em uma montanha russa, e quando comecou a descida vi Robby levantar o braço. Soltei o cabo e comecei a descer (em câmera lenta), e pude ver o final da cratera bem longe. O que fiz foi continuar deslizando para frente sem olhar para trás, nem os bumps eu senti, eram muitos.

 

No final, já perto do canal, ela já estava pequena, mas se ergueu para fechar no rabo. Eu me joguei por cima. Ufa! Era o final dela… Na minha frente, o parceiro de Robby – o australiano Shaun Dickson – e o seu parceiro do dia – Dave Stein – gritavam eufóricos: “Você dropou a bomba!!!!”. A bomba… Mas eu não tinha ideia de como era a onda, pois não olhei para trás, né?

Nossa! Foi uma sensaçao tão boa tudo isso descrito acima. Eu estava em êxtase. O dificil foi achar a foto: não havia mais fotógrafos nos barcos nem no penhasco, pois não tinha ninguém famoso ali naquela hora. Aliás, não havia ninguém a não ser as outras duas duplas.

 

Tentei muito procurar a foto, nas desencanei. Depois de 20 dias, Shawn, que tinha meu Facebook, me escreveu dizendo que tinha achado a foto com um fotógrafo que curte a natureza, o Jimmie Hepp, que estava lá em cima do penhasco na hora H. Como o memory card dele já estava acabando, ele tirou a foto quando eu estava na base da onda e não fotos da sequência.

 

Mas isto para mim foi um achado! Eu tinha contado aos amigos que tinha dropado Jaws, e eles me questionavam, queriam ver a foto! Tive meu prêmio registrado. Se bem que se estivesse ficado só na minha memória uma experiência destas, já teria sido um sonho… Mas faltaria eu ver a onda (risos)!

 

Sou grata etenamente a Robby Segger pelos ensinamentos e a psicologia usada no dia da bomba e no dia anterior, não falando que eu iria surfar, tirando toda a ansiedade que eu teria se fosse feito de outro jeito (com pressão). O swell aconteceu no dia 11 de janeiro de 2010, um dos três maiores da temporada 2009 / 2010″.

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