
Lendo as notícias no site Waves.Terra, uma me deixou extremamente melancólico porque este será o último ano de Occy, o touro indomável, no circuito mundial de surf.
Neste momento minha mente volta ao passado, para há mais de vinte anos.
Lembro das baterias contra Curren, Carroll, Kong e o fenômeno radical Martin Potter.
Lembro do meu brilho no olhar naquela época, um adolescente deslumbrado (continuo assim) ao ver a beleza das ondas e dos mágicos cutbacks de Occy enterrando a borda.

Esse cara tem de circuito mundial a idade de muitos garotões que correm baterias contra ele, e que jamais terão sua força, raça, carisma e nem ao menos a história que se transformou em lenda, sendo um dos mais belos capítulos do livro do esporte dos reis polinésios.
Em 1982, Durban, África do Sul, um desconhecido garoto de 16 anos, cabelos loiros, parafinados e compridos apareceu na praia de bermuda, camiseta e chinelo com duas pranchas embaixo dos braços e assombrou o mundo ao chegar à final contra o famoso Shaun Thomson no antológico Gustom 500.
Marco Lucciano Ochillupo nasceu em Cronell, Austrália, e apareceu como um meteoro no circuito no ano de 1982, chegando a ser Top 16 no ano seguinte.
A partir daí foram quatro anos disputando o título mundial. Ganhou duas vezes o OP Pro na Califórnia. Quem não lembra da semifinal entre ele e Curren ao som de Tomorrow Comes do Eurythmics?
Ganhou também o Pipemasters gigante em 1986, segundo muitos um mar over control.
Em 1988 veio a decadência. Occy abandonou tudo e com a morte de seu pai se isolou do mundo, entocando-se em casa e em uma dieta de pizza, cerveja e televisão. Engordou 50 quilos, ficando desfigurado.
Exceto por Gordon Merchant, diretor da Billabong, que sabia que o touro indomável estava apenas hibernando, o mundo esqueceu Occy.
Quatro anos se passaram até que, em 1992, assisti Pump e The Green Iguana, com Occy pesadão, mas surfando como um garoto, jogando água para tudo que é lado nas suas famosas e brutais enterradas de borda.
Comparei com o surf de caras famosos como Pottz, Curren, Carroll e novos fenômenos como Kelly, Taj, Rob e, sinceramente, a exceção de Kelly, Occy não devia nada a ninguém, mesmo porque até hoje nenhum mortal chegou perto do nível de Kelly e acredito que ninguém irá chegar.
Fiquei imaginando que se Occy emagrecesse e encontrasse motivação para correr o circuito novamente ele iria dar trabalho.
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Comentei isso com uns amigos e eles riram, dizendo que a era Occy já havia passado. Essa idéia durou até 1994, quando ele, magrinho como nos anos 80 reapareceu, varou as triagens do Pipe Masters para chegar à final, só não ganhando por ter pego o ?E.T.? chamado Kelly Slater.
No ano seguinte disputou todo o WQS e em 96 de novo ficando à sombra de Kelly foi o vice-campeão do mundo.
Quem entende de surf sabe que na era Slater ser vice é como ser campeão (é alguém como Michael Jordan, Tyson, ou Schumaker, um gênio sem adversários).

E, para coroar sua fantástica carreira, depois de vencer campeonatos em ondas perfeitas como em Bells, o OP nas Mentawaii, e alguns WCTs em Teahupoo, Fiji, ganhando algumas vezes até de Slater, que deixando o circuito, abriu caminho para Occy buscar o seu merecido título.
Posso ver a cena ainda na minha mente. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, penúltima etapa do WCT (1ª divisão do surf). Teco X Campbell, o último pretendente ao título de Occy, Teco na frente da bateria, faltando 10 segundos para o término o público colocou-se em volta de Occy e, após a contagem regressiva, comemorou com o campeão que foi às lágrimas, provando a todos que mesmo diante de dificuldades não devemos deixar de lutar e acreditar em nossos sonhos.
Mark Ochillupo não é exemplo de comportamento para ninguém, mas é um talento nato, extremamente determinado e, acima de tudo, um cara de atitude, raça e que, após vinte anos do seu aparecimento para o mundo, continua enterrando sua borda com rasgadas insanas, dando aula para a molecada aos 39 anos.
E, só mais um lembrete: ele é um dos primeiros colocados do WCT e é forte candidato ao título mundial desta temporada.
Decididamente, sinto-me melancólico e saudosista, porque apesar de Curren ter feito uma volta triunfal nesta temporada, aos 40 anos, saindo em todas as revistas do mundo, ainda termos mais um ano de Occy no WCT.
Sinto que a mágica década de 80 torna-se cada vez mais distante e assistir Occy, Curren, Pottz e Carroll torna-se algo cada vez mais difícil.
Marco Lucciano Occhilupo vai deixar muitas saudades, e para surfistas de alma como eu, um grande aperto no coração.
Aloha, Occy, você merece todas as honras que o surf possa te dar!
Paz!