Dias Bárbaros

Livro capta a essência

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Autobiografia de William Finnegan conta histórias do surf nos anos 1960. Foto: Reprodução.

 

Vencedor do prêmio Pulitzer em 2016, o livro “Dias Bárbaros – Uma vida no surfe”, foi lançado no mês de julho no Brasil.

 

A autobiografia conta a trajetória do jornalista e surfista norte-americano William Finnegan, que viveu a infância entre a Califórnia e o Havaí nos anos 1960.

 

Finnegan, que também foi correspondente de guerra e é colaborador da revista The New Yorker, conta histórias sobre a época em que pertencia a uma gangue de meninos brancos em Honolulu ou quando desbravou a famosa Honolua Bay sob efeito de LSD.

 

São narrativas surpreendentes, que nos transportam a lugares remotos como  a pitoresca Polinésia dos anos 60, uma aldeia de pescadores em Samoa ou as excêntricas regras tonganesas para o sexo com estrangeiros. 

 

“Mais do que um livro de aventura, Dias bárbaros é uma autobiografia inteligente, uma história social e um road movie literário. Apresenta de modo surpreendente o domínio gradual de uma arte tão exigente quanto magnífica, narrado com uma voz que transporta o leitor até as águas, as ondas, os povos e os países que Finnegan conheceu, extrapolando tempo e espaço em uma das melhores viagens que um livro será capaz de proporcionar”, relata a sinopse da Editora Intríseca.

 

Leia abaixo um trecho do livro

 

ARREDORES DE DIAMOND HEAD
Honolulu, 1966-196

 

Nunca me considerei uma criança protegida. Mesmo assim, a Kaimuki Intermediate School foi um choque. Tínhamos acabado de nos mudar para Honolulu; eu estava no oitavo ano, e a maioria dos meus novos colegas de escola eram “viciados  em  drogas,  cheiradores  de  cola  e  marginais”  —  ou  pelo  menos  foi o que eu escrevi para um amigo em Los Angeles. Não era verdade. A verdade era que os haoles (as pessoas brancas; eu era uma delas) formavam uma minoria impopular em Kaimuki. Os “nativos”, como eu os chamava, pareciam não gostar especialmente de nós. Isso me agoniava porque muitos havaianos eram, para crianças no fim do ensino fundamental, assustadoramente grandes, e dizia-se que gostavam de brigar. Os orientais — mais uma vez, minha terminologia — eram o maior grupo étnico da escola. Naquelas primeiras semanas, eu não era  capaz  de  distinguir  entre  crianças  japonesas,  chinesas  e  coreanas  —  para  mim, eram todas orientais. Também não percebia a existência de outras tribos importantes, como os filipinos, os samoanos ou os portugueses (que não eram
considerados haoles), muito menos as crianças miscigenadas. Provavelmente eu achava até mesmo que o cara grande na aula de marcenaria, que imediatamente demonstrou um interesse sádico por mim, fosse havaiano.

 

Ele usava sapatos pretos reluzentes de bico fino e comprido, calças justas e camisas floridas coloridas. Tinha o cabelo crespo cortado em um topete, e parecia que se barbeava desde o dia em que nasceu. Quase não falava e, quando dizia alguma coisa, era apenas em um pidgin incompreensível. Era uma espécie de chefão-mirim do crime, claramente vários anos atrasado em relação a sua turma de origem, apenas passando um tempo ali até poder largar a escola.

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