Família Pacelli

Legado das ondas

Com atitude nas maiores ondas, Nicole Pacelli choca o crowd em Maresias. Foto: Renato Aloha.

Irmã mais nova Alana exibe talento também no stand up paddle. Foto: Arquivo Pessoal.

Geralmente, os filhos costumam visualizar um futuro igual ao dos pais. Em contrapartida, os pais tentam direcionar o futuro de seus filhos. E o que acontece quando o pai é surfista de ondas grandes e a mãe ex-bodyboarder profissional?

 

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Neste caso, o resultado é surf em dose dupla. Filhas de Jorge Pacelli e Flavia Boturão, as belas Nicole, 18, e Alana Pacelli, 16, desde crianças esticam os limites da turma.

 

Me lembro de algumas cenas dos primeiros anos de vida da dupla. Elas contrastam com um episódio no último mês de julho, quando vi Nicole pegar tubos de 2,5 metros em Maresias (SP) rebocada de tow in pelo pai.

 

Nicole surfava melhor do que muitos marmanjos na água. Na próxima triagem para o campeonato mundial de tow in em Maresias, ela e Alana formarão a primeira dupla feminina da modalidade no Brasil.

 

Outras cenas que também guardo em minha memória são de Nicole indo surfar conosco no Montão de Trigo, São Sebastião (SP), há 10 anos, ou saindo em meio aos quebra-cocos da praia de Boracéia. As irmãs também sempre praticavam kitesurf na praia da Enseada, acompanhadas de perto pelo pai coruja.

 

Naquela época a pipa arrastava ambas pela areia e testava os joelhinhos da dupla, ainda em formação. Hoje em dia elas são destaques em outras modalidades, como no stand up. Nicole acabou de se tornar campeã no último campeonato de sup, realizado no dia 7 de agosto em Santos (SP). Alana foi vice.

 

“Sempre gostei de ficar no pé do meu pai e praticar todas as modalidades que ele fazia. Ele sempre me apoiou e nos passava muita segurança. Já minha mãe tentava nos segurar. Agora que estamos um pouco maiores, ganhamos alguns campeonatos e exibimos controle até nos mares grandes, ela começou a nos apoiar e ficar mais tranquila”, conta Nicole.

 

A surfista não se acha muito diferente das outras surfistas da sua idade: “O que acontece é que quando entro em um mar grande com meu pai ele me passa muita confiança, então não fico com medo. Percebo que os outros pais não querem que os filhos entrem em um mar grande por também não se sentirem seguros ali, então eles ficam até com mais medo que os próprios filhos”, explica Nicole.

Jorge Pacelli acha natural o talento das filhas para as modalidades radicais. “Elas foram criadas em uma casa com pranchas de todos os tipos por todos os lados. Eu nunca forcei nada, foi natural. A Nicole sempre foi atirada, mas mais tímida e Alana é mais descontraída”, revela um dos maiores surfistas de ondas grandes do Brasil e, é claro, pai babão.

 

Pacelli ainda lembra de uma vez em que levou Alana para andar de skate em um half público e os meninos não a deixavam andar no meio deles: “Ela foi lá e cortou a frente de alguns. Ganhou seu espaço com atitude e talento na pista. Ela tem muita personalidade”.

 

Questionado se não tem medo de colocá-las nestas situações, ele garante: “Elas gostam, é engraçado. Entro com elas nos mares grandes e os surfistas ficam olhando como se perguntassem o que aquelas meninas estão fazendo ali. Mas depois de algum tempo eles ficam até intimidados ao ver elas dropando as maiores da série”, comenta Pacelli.

A mãe Flavia, por sua vez, sempre um pouco mais receosa com a atitude das filhas, mas orgulha-se da dupla. “Elas foram criadas na praia, diferente do resto da turma delas o que facilitava a tranquilidade nestas situações”, diz a bodyboarder, que passou boas temporadas no Hawaii e se jogava nas maiores da série.

 

Enquanto Alana ainda estuda no colégio, Nicole já cursa o primeiro ano de Educação Física na faculdade USP em São Paulo. “Sinto orgulho por ter duas filhas felizes com o esporte e com muita saúde’’, finaliza Jorge Pacelli.

A família Pacelli segue à risca o ditado que diz: “filho de peixe, peixinho é”. Outro ponto bacana é que toda família usa pranchas de tow in e stand up Pacelli Model, que o pai Jorge desenvolve em parceria com a Gzero Tech.

 

Como estamos na terceira ou quarta década da geração de surfistas no país, creio que cada vez mais veremos pais surfando com filhos no outside. Ou quem sabe até avós com os netos daqui a algum tempo. Viva a liberdade e o surf.

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