Leitura de Onda

Eu sou uma ilha

 

“Nenhum homem é uma ilha”, disse certa vez o poeta inglês John Donne. Ele defendia a convivência, o respeito ao semelhante como legítimo na convivência, atacava o egoísmo e via o continente como metáfora perfeita da coesão, de união do homem como raça.

 

Sentado na prancha, à espera da melhor onda do mundo de uma manobra só, de frente para o horizonte, eu e todos os outros surfistas do Leblon e de Ipanema passamos a vida a mirar a exuberância da Ilha Cagarra, a mais chamativa do arquipélago que leva o mesmo nome. 

 

Como o intervalo entre as boas ondas é grande, muitas vezes me vi afogado no dilema de Donne, olho perdido no infinito.

 

Minha leitura de ilha, a partir daquela rocha flutuante que passou a vida na minha frente, como doce vista obrigatória, sempre foi mais condescendente.

 

É da ilha como um corpo insistente, sólido no meio do líquido, que é capaz de viver e conviver com a enorme diferença que o cerca.

 

Da ilha como um surfista, que se deixa rodear pelo mar à espera de ondas. Da ilha como parte de um conjunto muito mais diverso que só um continente. De um conjunto que não exclui tudo o que não está num grande pedaço de terra. Ao contrário, inclui. O líquido, o sólido no meio do líquido. A diferença.

 

A defesa conceitual de Donne é perfeita. De fato, somos muitos e, no fim, somos um só. Mas as ilhas, aqueles pedaços de terra tão carregados de energia vinda de todos os cantos, são parte de um universo – e não apenas um continente – de diferenças. Nada pode ficar de fora.

 

O acaso me levou a um apartamento com vista para a ilha que me representa. Gosto de fotografa-la em várias cores, cercada de mar, nuvens, do céu azul ou cinza escuro. Vou registrá-la até o fim. Gosto de saber que ela está lá, como um pedaço de rocha diferente do mar, uma parte teimosa do continente que resolve brotar no meio do mar. Como um surfista.

 

Eu sou uma ilha. E, como Donne, espero que todos os sinos dobrem por mim. 

 

Tulio Brandão é jornalista. 

 

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