Espêice Fia

Diversão em Mentawai

O ano de 2016 foi marcado por ser difícil financeiramente. As marcas se retraem e atletas são obrigados a correr atrás mais do que nunca. Em tempos como este, ouvimos falar também que a dificuldade faz muitas vezes as pessoas buscarem novos caminhos, se reinventarem, etc. Não me acomodei e a recente trip para o arquipélago de Mentawai, na Indonésia, mostra esse lado. Desde dezembro do ano passado, buscava uma parceria com agências de viagem para botar em prática um projeto de acompanhar grupos em surf trips, e ao fechar com a TGK Surf Operator, a empreitada acabou se realizando com sucesso. Com três meses de antecedência em divulgações, fechamos a trip por completo cerca de duas semanas antes.

Em parceria com a Mentawai Surf Charters, no último dia 18 de outubro embarquei junto a outros 10 surfistas no Star Koat. De conhecido, apenas o amigo residente também na cidade em que vivo, Marcelo Pretto, ex-fotógrafo de revistas especializadas em surfe na década de 90. O ingresso de Marcelo na barca foi uma surpresa e também uma alegria, pois sabia que, com seu bom humor, se não desse onda a diversão da galera já estaria garantida. Marcelo pilhou mais dois amigos seus a embarcarem também na trip – Leandro Huertas e Luiz Rodarte, ambos de São Paulo. Pilhados por verem o anúncio da trip no Instagram, reforçaram a trip Tiago  e Gustavo Camerino, um de Bombinhas (SC) e outro de Salvador (BA). Em comum, os dois tinham o sonho de conhecer a Indonésia e não deixaram passar a oportunidade. De São Paulo, também embarcou na trip o advogado Ricardo Leitão, que acabou nos encontrando em Kuala Lumpur, penúltima parada antes de chegarmos à cidade de Padang, em Sumatra.

Já na chegada ao hotel Mercury, que recebe muitos dos surfistas que embarcam e desembarcam das trips em Mentawai, encontramos o restante do grupo: Felipe Feijão, que veio direto de Niterói em voos diferentes dos primeiros seis citados, e mais quatro surfistas também do estado do Rio de Janeiro que já se encontravam na “Indo”. Entre eles, Hugo, Felipe Correa, Fernando Fefa e Luis Henrique, um agente de viagem conhecido dos surfistas brasileiros. Também já o conhecia e foi mais uma grata surpresa ter sua presença na embarcação, que já nos aguardava no porto. E ao escurecer, começava nossa jornada de cerca de 12 horas de navegação até nosso primeiro destino, HT’s, conhecida também como Lances Rights. Por ser fim de temporada, alguns dos clientes da barca que me procuraram antes do embarque chegaram a questionar sobre o tamanho das ondas nessa época. Minha resposta era que nos últimos três anos tinha surfado mares excelentes no mesmo período.

Para a nossa felicidade, a previsão estava ótima para os três primeiros dias em que ficaríamos ancorados ali. Ventos calmos nos proporcionaram uma navegação excelente até o pico dar o ar daquela primeira manhã de 4 a 5 pés e com umas de 6 pés perdidas. Outro fator positivo de fim de temporada era que algumas companhias que fazem as ilhas ja estavam ancoradas, e isso traduzia-se em menos pessoas na água.

Dividimos o primeiro surfe com o Mangalui, embarcação que usei na minha primeira trip para Mentawai, em 1997, para gravar um programa Surf Adventures, que, antes do prestigiado filme, rolava no Sportv. No momento em que a âncora era lançada no reef, nosso guia e amigo Bruno Veiga completou os dizeres da palestra inicial da noite anterior: “Por favor, galera, vamos esperar uma meia-hora para que os dois surfistas da outra embarcação que estão na água desfrutem sozinhos mais um pouco da sessão deles. Em seguida cairemos aos poucos, ok?”.

Chegar a Mentawai com swell bombando é alegria pra uns e preocupação pra outros. Como ali se tratava de um grupo não profissional, os questionamentos eram muitos, tal como a apreensão às ondas. Qual o tamanho da prancha a cair, que configuração de quilha, melhor usar botinhas? Essas eram algumas das dúvidas, mas é claro, faziam parte da primeira caída. Aos poucos a galera foi entrando e se posicionando mais ao inside, onde algumas séries vinham mais cheias e outras mais cavadas e maiores, mais ao fundo. Passei para a primeira sessão afim de pegar uma onda mais tubular e até achei algumas, mas, por estar demorando um pouco, depois me juntei à galera para um melhor entrosamento que também se concretizava em pilha, incluindo para uma possível ida à seção do outside, que, aparentemente mais rasa, deixava a galera mais apreensiva. Mas isso se tratava apenas da primeira caída, pois naquele fim de tarde, a turma, mesmo não indo pro primeiro pico, já estava bem mais solta.  

De cara tentava desvendar o surf da turma, e naquele primeiro momento chamou atenção o Fernando Fefa e seu backside, aplicando curvas bonitas, seguidas de muitos leques de água ao puxar sua prancha mais uma vez para a base. Com certeza tínhamos ali um surfista de nível avançado. O baiano Gustavo mostrava atitude, descendo algumas ondas com a base sutilmente postada para a parte frontal de sua prancha. Imaginei que aquela seria uma boa base para tubos de backside e que no decorrer da viagem poderíamos ver a evolução. Esta sensação era de certa forma válida também para Hugo e Felipe. Já Leandro Huertas, que surfa de longboard, tinha a força para a remada com seu 9” pés shapeado pelo gênio Neco Carbone. Ele poderia ficar um pouco mais ao outside, mas acabava ficando junto da turma, até porque, fazendo a parceria com Luiz Rodarte, um cara “cool” de 52 anos, saía sempre aquela boa conversa durante as séries. Estes dois, na companhia de Marcelo Pretto, que começou devagar, observando bastante, completavam a trinca de zoação naquele período. Os goofies Luis Henrique e Ricardo Leitão pegaram boas e mostraram nível, aliás, ambos já bons frequentadores da Indonésia, tendo Luis inclusive emendado duas trips. Felipe Feijão deu alguns drops, fazendo jus a quem vem de Niterói bota pra baixo ,afinal sua escola era Itacoatiara. Acredito que, com menos experiência, estava Tiago Amorim, que ao ver a bancada rasa da seção chamada de “mesa de cirurgia”, devia estar cabreiro.

Nosso fotógrafo e guia Bruno Veiga, entre as sessões de cliques, como de costume, pegou as suas ondas em seu stand up 7’10”. Conhecedor do pico, boas ondas e algumas da série foram surfadas. Com o por do sol, várias Bintangs já foram abertas em tom de celebração, afinal, para tirar o ranço da longa viagem, tudo estava perfeito. Com a maioria goofy, no dia seguinte acordamos em um Lances Lefts com altas ondas. Como tinha virado a noite em claro devido ao fuso horário, não tive disposição para madrugar no pico. Em meio ao café da manhã reforçado, cambaleando, assistia à session, pois a barca, que já se mostrava fissurada, já se encontrava riscando as ondas. Lances Lefts é um passeio, onda longa, e com a maré vazante os tubos se apresentam, mesmo em menor escala. Leandro, com seu long, estava se divertindo, tal como Luis Rodarte, que, de backside, já se mostrava mais à vontade que na primeira session. Marcelo Pretto, da mesma forma, e de frente pra onda, já vinha dando boas rasgadas, assim como Fernandinho, fazendo um surfe já em alto nível. Mais tarde, descobri que sua escola era a praia carioca, o Leme. Ricardo Pixa pegou boas, Felipe e Hugo também. No entanto, Luis Leitão teve o momento do dia ao pegar um tubo limpo em uma onda da série. Felipe Feijão pegou umas ondas em que passou raspando na bancada durante a maré seca, e nessa hora, eu, que já tinha entrado também na água e já de cabeça feita, saímos pro almoço. Aliás, segundo dia de de pratos exóticos como um arroz de polvo. Ê, beleza!  

Macaronis é uma das ondas mais famosas e de alta performance. O zum zum zum na barco era de que a turma estava agoniada pra ir pra lá. Com as leis do surfe local, devido ao resort em terra, apenas dois barcos são permitidos por dia no pico e mediante reserva antecipada. Não lembro agora se não tínhamos reserva ou se, por sorte, só havia uma embarcação no pico. O fato é que desfrutamos de altas ondas em mais um dia clean e ensolarado. Nossa trip estava dos sonhos! A galera fazia a festa e foram muitas horas na água com todos já bastante soltos, inclusive disputando muitas ondas (risos). E essas disputas faziam a alegria noturna, quando as fotos feitas durante o dia por Bruno eram exibidas. Aplausos para as boas manobras, posicionamentos e muita zoação quando alguém aparecia na frente do outro exibindo aquela clássica rabeada (risos). A essa altura, a turma já estava se conhecendo e o puxador da zoação Marcelo Pretto, também neste quesito, já estava soltinho na vala.  

Para o dia seguinte, a previsão era de vento ruim para Macaronis, e também, como não tínhamos reserva, zarpamos para a região de Thunders, onde ficamos por cerca de três dias, até porque o mar já vinha em declínio. Previsão confirmada com a visão de maral em Thunders Lefts. Levanta âncora para checarmos a direita. Com a turma já cansada de três dias intensos de surfe, esse dia já foi aquele embaço pra cair na água. Sendo assim, um dos capitães seguiu com a documentação de todos para efetivar o pagamento da taxa de US$ 77, que agora é cobrada em Mentawai, em uma ilha próxima. Aos poucos a turma foi caindo em uma direitinha em meio a uma bela baía que funcionava apenas com condições mínimas. Estava divertido e a galera fez a mala, no entanto, essa não era a direita procurada, que estampava uma foto de Taj Burrow em uma das revistas disponíveis no barco. Rápida e tubular no drop, mas depois engordava, caímos nessa direita à tarde. Fui primeiramente com Ricardo Leitão tentar um posicionamento que possibilitasse pegar o tal tubo. Bem difícil, pois a onda vinha de lado e nem sempre o triângulo era no mesmo lugar. Mesmo assim, deu pra pegar ótimas com minha fish biquilha 5’6. A turma que não se arriscou nesse primeiro momento foi mais uma vez pra direitinha dentro da baía. Mais tarde, eu e Ricardo fomos ao encontro de todos pra completarmos a bagunça, afinal, lugar sem ninguém e chegam 12 caras, vira uma festa. A sessão estava boa, e ao visualizar uma onda mais ao fundo, pilhei Luiz Rodarte pra ir lá. Remada de uns 8 minutos e já estávamos tentando nos encontrar no lineup. Ainda consegui pegar um tubo nessa onda e Luiz fez dois drops, mas apesar do fim de tarde ainda render luz, uma tempestade nos forçou a voltar pro barco mais cedo. Como de costume, a galera faz sempre uma session de relax em alguma praia; a escolhida foi a pequena baía desta direitinha relatada. Depois de mais uma manhá de surf hotdog divertido, o capitão encheu um cooler e a “macharada” foi toda pra uma grande comemoração aos dias surfados até ali. Entre petiscos e Bintangs em meio à contemplação daquela paisagem de sonho, as risadas das zoações eram muitas. O swell continuava pequeno nas ilhas, mas a área em que estávamos era propícia para marolas. Ficamos para esperar um swell que viria para Greenbush nos dois dias finais da trip.

Ao acordarmos no dia seguinte, estávamos chegando a mais uma onda que nunca havia surfado. Esta não estava na lista das boas de Mentawai, mas, mesmo com mar pequeno em todos os outros locais, pegamos ondas entre 3 a 6 pés com bastante volume. O pico até lembrava um Sunset Point quebrando de noroeste, onde a parede entrava alinhada no ponto do drop e depois vinha fazendo uma curva à frente e aumentando de tamanho. Nesse momento, muitas vezes ela engordava, mas quando chegava ao inside, em uma seção bem rasa, às vezes proporcionava um tubo e algumas rasgadas fortes, sempre com muita emoção. Nesse pico, aproveitei pra pegar a minha câmera e gravar a turma seguindo por trás ou pela frente das ondas. Foi bem divertido e gerou boas imagens. Mais tarde, aliadas às da terra que Bruno Veiga fazia, elas fizeram do pós-janta mais um momento agradável a bordo da embarcação.

No penúltimo dia, acordamos em Greenbush, e a onda também parecia acordar aos poucos. A turma, já bem cansada, olhava umas séries demoradas que aos poucos iam mostrando a cara. Nosso capitão Bruno, como muitas vezes de costume, abriu a session e no momento em que pegou a primeira, a turma foi se animando, ao mesmo tempo em que as séries iam ficando mais constantes. Por Greenbush ser uma onda para experts e bem perigosa na seção do inside, a galera ia se soltando aos poucos. Tiago, que no primeiro dia da trip parecia acanhado mediante o reef e às ondas maiores, botou as mangas pra fora e não parava de pegar onda. Foi muito legal ver sua evolução, tanto dele como de todos. Leandro, que estava sempre com o pranchão, buscou uma menor, uma Evolution 7’6”, e saiu-se bem. Felipe Correa e Hugo, em especial, não paravam de pegar onda. Felipe Feijão deu um drop em uma das maiores do dia e também despencou lá de cima em outra da série. Subia rindo, pois, pra quem vem de “Niquite”, tava suave, mesmo sendo fundo de pedras naquele momento. Luis Henrique estava sempre divertindo o lineup, assim como Marcelo Pretto. Aliás, esse já tinha virado mais que atração com seu humor hilário. Ninguém escapava de suas brincadeiras. Gustavo Camerino e Fernando Fefa pegaram altas. Infelizmente Luis Rodarte havia visitado os corais no dia anterior e preferiu ficar seco, mas acompanhou o desempenho da galera e vibrou como se estivesse surfando junto.

À noite, ancorados em uma pacata baia, as Bintangs no deck do barco eram muitas. Um subwofer potente bombava um som e a galera se divertia quebrando a calma do lugar. Tripulantes de dois barcos ancorados ao lado do Star Koat não devem ter acreditado na zoda da galera que pulava sob as batidas de Vintage. Para a última manhã, o vento, que era forte, diminuiu e aproveitamos uma session muito boa em Macaronis. Não tínhamos reservas para estar ali, mas Felipe Correia, um dos nossos parceiros, iria nos deixar para se hospedar no resort. Logo por uma boa causa (risos), pegamos altas ondas enquanto fazíamos o transfer do brother. Com a galera já cansada, era hora de arrumar as pranchas para iniciarmos a longa travessia de volta ao porto de Padang. Ao amanhecer, a alegria de todos era visível. Em meio às despedidas da tripulação, já no atracadouro, constatamos a grande quantidade de barcos que já não estava operando. Logo vimos o porquê de ter surfado alguns picos sozinhos. Sem dúvida, quem pensava que fim de temporada em Mentawai seria de ondas fracas e muitas cabeças na água, enganou-se. Falando em nome de todos, a galera fez a mala em uma das trips mais divertidas em que participamos. “Masura Bagata”!

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.