Já fui criticado por divulgar certos picos chamados secretos. Não vejo problema nisso. Se eles forem de difícil acesso, ficarão sozinhos. São picos sozinhos, não picos secretos.
A maioria dos surfistas não surfa muito longe do estacionamento. Restaram poucos surfistas com a vibe original, aqueles que se aventuravam em busca do desconhecido. O surfe não é mais alternativo, virou parte da sociedade.
E a sociedade é o centro da desordem do Universo, na qual o ego, a inveja e o medo se concentram.
Estou na Austrália, talvez o país mais surf do mundo. Um certo dia, as condições se encaixaram. Ondulação de qualidade e vento terral. O crowd foi em busca de ondas e sobraram picos sozinhos, já que todos se concentraram em poucos lugares e a tendência geral da sociedade é a aglomeração.
Muitas ondas quebraram vazias enquanto muitos se estressavam. Brigas por onda foram constantes, pois todos vão sempre na mesma direção, mas os surfistas originais estavam na contra-mão. O surfe era apenas a busca pelo prazer e o ego estava longe, eles não estavam no automático e buscavam algo novo.
Surfistas de alma ainda existem. Não é a roupa nem a profissão. Não é a cidade nem a nação. O que define um surfista de alma é o amor pela divina sensação, de encontrar Deus ao deslizar sobre a onda. Talvez não Deus, mas a plenitude, independente da onda, independente dos outros.
O surfista de verdade não vive a moda! O surfista de alma ainda vive! O surfista de alma sempre viverá!
Carlos Portella Conta com o apoio da escola QIBA. Para curtir mais viagens do autor, visite o site Umas Viagens.
Foto da reportagem Douglas Cominski / Shotspot.com.au .