Coração no mar

Coração no mar

O longa-metragem “The Heart & The Sea”, recém-lançado pelo diretor australiano Nathan Oldfield, traz nomes como Dave Rastovich, Joel Tudor e Alex Knost e oferece um olhar aprofundado sobre a íntima relação entre surfistas de alma e o oceano. 

Por Luciano Burin 

Se você pedir ao australiano Nathan Oldfield para elencar, por ordem de importância, suas atividades diárias, ele dirá: “Marido, pai, surfista, shaper, fotógrafo, filmmaker, professor e admirador do mar”. E é a partir desse perfil que podemos também entender as entrelinhas de “The Heart & The Sea”, o mais recente filme de surf escrito, produzido e dirigido por esse talentoso amante das ondas.

Lançado no último mês de dezembro após uma longa gestação de três anos de filmagens e edição, o longa-metragem independente, assim como as criações anteriores de Nathan, é uma obra com alta carga autoral, em que a intimidade com o mar e as ondas é o elo entre os diversos personagens que se apresentam na tela. Um elenco que inclui muitas das principais estrelas do que poderíamos chamar de “cenário alternativo do surf”, como Dave Rastovich, Alex Knost, Ryan Burch, Kassia Meador, Johnny Abegg e Chris Del Moro, além de um amplo escopo social que inclui pais, mães, avós, filhos e bebês de diversas procedências e culturas.

“Eu comecei a surfar ainda garoto e agora entrei na minha sétima década. Mas o que tenho percebido é que o prazer de surfar não diminuiu”, dispara, logo na abertura do filme, Shane Oldfield, pai de Nathan, já estabelecendo o tom da narrativa, da maneira mais familiar possível. Seja nas performances aquáticas ou na mensagem verbalizada nas poucas, mas ricas, intervenções como essa, os surfistas apresentados pelo diretor estão na tela a serviço de um único objetivo: celebrar os distintos sentimentos de paixão pelo mar que o surf – e talvez somente o surf – é capaz de produzir.

A junção harmoniosa dos elementos de ação e diálogo juntam-se à rica e cuidadosa cinematografia de Nathan, num contexto audiovisual concebido de modo a pontuar a poesia, a plasticidade e o “algo a mais” que para muitos faz do surf uma atividade muito mais espiritual do que propriamente um esporte. Nesse universo visual, a beleza de um pôr do sol, de uma árvore solitária ou de uma onda quebrando sobre a rocha é contemplada e valorizada como parte fundamental daquilo que forma o sonho dourado dos entusiastas do surf.

Confira na última página desta matéria o trailer do longa-metragem dirigido por Nathan Oldfield.##

Pai, marido e diretor 

A demora em concluir o filme deve ser creditada muito mais ao fato de a família ser prioridade na vida de Nathan do que ao eventual perfeccionismo e caráter centralizador que ele impõe em cada produção, cuidando sozinho de praticamente todas as funções principais relacionadas ao filme. Aos 38 anos, Nathan chegou a um ponto da vida em que aprendeu a valorizar cada pequena oportunidade que tem de pegar umas ondas em meio à rotina de cuidar da casa e criar os três filhos – Noa, Blossom e River – junto com sua esposa, Eliza, em sua propriedade no campo em Terrigal, na costa central de New South Wales. “Ser um bom pai e um bom marido é o principal objetivo em minha vida. O resto é secundário”, resume. Mesmo com o sucesso alcançado em seus filmes, a atividade de professor de escola primária ainda é a principal fonte financeira de Nathan, sustentando suas aventuras artísticas, reveladas na produção de fotografias e filmes independentes, além de trabalhos ocasionais para algumas pequenas e incensadas marcas independentes, como o coletivo A Critical Slide Society e a Valla Surfboards. Recentemente, ele também se tornou parte do time da marca Patagonia, mas, como a esmagadora maioria dos realizadores, ainda está longe de conseguir viver somente de produzir filmes de surf.

Sem pressa nem vaidade, movido pelo íntimo desejo de criar coisas com significado e expressar o seu amor pelo surf, agradecendo por tudo aquilo que o mar lhe proporciona, Nathan construiu uma sólida filmografia ao longo da última década, com dois longas-metragens de sucesso: “Lines From a Poem” e “Seaworthy” – que também levaram mais de dois anos, cada um, para serem concluídos e estiveram na linha de frente do “manifesto não declarado” pelo fim da ditadura das triquilhas e da valorização de todas as formas de surf – restabelecendo a democracia das muitas formas de pegar uma onda em nome da diversão como o principal elemento do surf.

Se “Lines From a Poem” foi um filme pioneiro no resgate dos prazeres mais básicos relacionados ao surf, em que a celebração do longboard clássico, das pranchas de madeira e shapes alternativos valorizam o papel fundamental dos equipamentos como a forma essencial de alcançar essa satisfação, o filme seguinte, “Seaworthy”, é marcado pela dor e pelo poder de cura proporcionados pelas ondas. Devastado pelo falecimento de sua filha Willow na mesa de parto, Nathan produziu uma das mais belas e memoráveis sequências já apresentadas em um filme de surf, revelando o processo de juntar os pedaços de uma existência destroçada pela dor de um acontecimento tão contundente e, de uma forma também contundente, eternizar o seu amor paterno. Foi assim que ele decidiu criar uma prancha e batizá-la de “Willow”, que foi passada de mão em mão entre seus camaradas surfistas, numa homenagem que mistura suas lágrimas salgadas com a água salgada do mar. Nesse contexto, “The Heart & The Sea” é uma evolução natural desse processo, um amadurecimento desses temas e, por consequência, o melhor filme de Nathan até o momento.

Confira na última página desta matéria o trailer do longa-metragem dirigido por Nathan Oldfield.##

Sem medo da emoção

Certa vez o escritor Charles Bukowsi definiu a literatura do seu não menos talentoso colega de profissão John Fante com a seguinte frase: “Eis aqui um escritor que não tem medo da emoção”. Parafraseando o grande escritor maldito da literatura norte-americana, ao fim da exibição de “The Heart & The Sea” podemos afirmar que Nathan Oldfield pertence à classe dos artistas que não têm medo da emoção. E, para nossa sorte, ele é surfista.

As imagens que alternam “time-lapses” e “takes” contemplativos são fruto das viagens que o diretor realizou nos últimos anos por locações em sua Austrália natal, na Nova Zelândia e no País Basco, onde ele foi atrás de suas raízes na região de Zarautz, onde seu avô nasceu, e ainda deu um pulo na costa basca francesa. O objetivo de compartilhar aquilo que de mais íntimo existe na relação de cada indivíduo com as ondas do oceano revela-se em nuances de subjetividade que cada personagem oferece, seja deslizando nas ondas ou vivenciando momentos cotidianos de lazer e trabalho. O conjunto de talentosos amigos surfistas que aparecem na tela é um reflexo palpável da admiração que o trabalho de Nathan alcançou entre seus pares.

São muitas as facetas que os relacionamentos entre o homem e o mar costumam produzir, e Nathan focou sua narrativa na paixão como o denominador comum que une todos os acontecimentos do filme. A paixão como a busca por uma experiência maior e mais desafiadora relacionada ao surf fica explícita na aventura de Dave Rastovich em encarar ondas pesadas com uma réplica de uma colossal prancha de madeira Olo de 16 pés shapeada por Tom Wegener. As descrições de Rasta sobre as sensações únicas que o modelo de prancha ancestral havaiana proporciona combinam com os takes dele tentando domar essa verdadeira embarcação aquática de madeira num esforço sobre-humano de equilíbrio e resistência. “A experiência de surfar uma Olo é daquelas que te fazem sair da água tão aceso e empolgado, apesar de estar exausto”, resume Rasta, ressaltando os sentimentos de respeito e humildade que tantas vezes vivenciamos dentro da água, quando o mar nos coloca diante de nossa insignificância diante da força da natureza.

A paixão no prazer puro e infantil de pegar uma onda é a marca registrada de Tom Wegener, que não por acaso é uma figura essencial na filmografia de Nathan. Aqui ele reaparece em cena em mais um capítulo de sua busca por um moderno retorno às origens mais primitivas do surf. Desta vez, ele não está com uma de suas alaias, mas, sim, deitado em pranchas menores de madeira para surf de peito, desfrutando um quebra-coco com a família a tiracolo e sempre com um sorriso estampado no rosto, expressando o desejo de compartilhar essa experiência: “Se você for um surfista, você irá adorar a sensação. E, se tiver filhos e quiser dividir isso com seus melhores amigos, não tem coisa melhor!”, sentencia Wegener. 

Confira na última página desta matéria o trailer do longa-metragem dirigido por Nathan Oldfield.##

Da semente até o mar 

A paixão como um exercício de paciência e aceitação do tempo se manifesta na incrível trajetória do veterano shaper Paul Joske, que conseguiu realizar o sonho de conceber uma prancha de surf “da semente até o mar”, plantando uma árvore de pawlonia em sua propriedade, esperando ela crescer por dez anos até cortar o tronco, trabalhar a madeira e produzir a partir dela uma prancha. Um processo finalizado em grande estilo, quando o vemos curtir a emoção de surfar (e bem) umas ondas com a nova prancha em seu pico de estimação e sentir-se rejuvenescido com isso: “Quando voltei dessa sessão de surf parecia um moleque de 16 anos por dentro, mas, por fora, esses números se invertem e sou um homem velho”, Joske explica.

A paixão pelo surf como uma forma de repassar para os nossos herdeiros os valores da vida aprendidos junto ao mar fica evidente na relação de Belinda Baggs – uma autêntica bailarina em cima de seu longboard – lembrando como o surf foi um elemento de união com seus pais, e como ela agora pretende transmitir isso para o filho ainda bebê, fruto do casamento com o talentoso surfista e fotógrafo Dane Peterson. “Crescer na praia com minha família foi a minha herança. Agora o ciclo se fechou e temos a nossa pequena família”, avalia.

Um sentimento que o surfista australiano Johnny Abbegg já antecipa em sua nova realidade de futuro pai, percebendo a necessidade de abrir mão do surf como fonte primordial de prazer individual, para dividir as responsabilidades de criar uma família com sua esposa, prestes a dar à luz. Um caminho de renúncia de seus ambiciosos sonhos da juventude, de ser um surfista profissional campeão, em nome de um bem maior e menos egoísta: “Estou prestes a ser recebido em uma família com uma parceira adorável e não é mais sobre conseguir a melhor manobra ou pegar a melhor onda”, pondera.

A paixão do surf como elemento catalisador de novas amizades fica clara na viagem de Nathan em busca de suas raízes no País Basco e da camaradagem quase instantânea estabelecida com os surfistas locais. Uma experiência com a qual todo surfista viajante consegue se identificar, mesmo nesta nova realidade de praias superlotadas e surfistas agressivos em nome da preservação de suas ondas. “Nós surfistas vivemos toda a vida em busca de ondas, mas, depois de surfá-las, elas se dissolvem até a beira sob nossos pés e se vão. Mas as amizades duram uma vida toda”, Nathan explica, ressaltando o prazer de poder levar a família junto com ele em todas as viagens do filme.

Confira na última página desta matéria o trailer do longa-metragem dirigido por Nathan Oldfield.##

Arte em movimento 

A paixão pelo surf como a mais inútil e ao mesmo tempo sagrada brincadeira de interagir com o oceano e de se expressar livremente em cima de uma prancha é muito bem representada nos estilos singulares de surfistas como Ryan Burch, Kassia Meador, Joel Tudor e Alex Knost. Talentos natos e verdadeiros estetas do ato de deslizar por uma onda, nos melhores momentos, eles transformam o surf em “arte em movimento”, e Nathan soube realçar essa beleza nos clipes musicais, compostos de uma caprichada trilha sonora em que o folk rock predomina.

“O oceano tem uma forma incrível de atrair as boas energias e nos proporcionar tanta alegria”, celebra Chris Del Moro, outro representante desse tipo de surfista que se diverte e surfa com muito estilo e pressão qualquer tipo de onda e em qualquer tipo de prancha. E, se essa busca por evidenciar o surf como uma atividade espiritual por vezes pode resvalar num sentimentalismo piegas, Nathan consegue passar batido por essa armadilha, acertando na dose de minimalismo, em que a beleza das imagens fala mais do que as palavras. Um contexto em que a mensagem latente não precisa ser explicada em excesso nem jogada toda hora na cara do espectador.

No fim das contas, “The Heart & The Sea” é uma celebração da pluralidade de emoções provocadas pelo surf, e um incentivo para que cada um de nós aprenda a vivenciar da maneira mais plena as possibilidades reveladas nas pequenas e intensas alegrias e ensinamentos que a relação com as ondas pode proporcionar. Momentos que fazem do oceano um território sagrado para os surfistas, que o carregam por onde for, mesmo que estejam a quilômetros de distância do mar. Esse sentimento é resumido nas sábias palavras de Belinda Baggs: “Minha casa é onde está meu coração, e meu coração esteve sempre com o mar”. Que assim seja.

Confira no vídeo abaixo o trailer do longa-metragem dirigido por Nathan Oldfield:

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