Ele não desistiu

Tulio Brandão fala sobre a emocionante vitória de Willian Cardoso em Uluwatu.

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A vitória de Willian Cardoso é uma daquelas vitórias coletivas, de todos os que não desistem de alcançar sonhos.

Passou mais de dez anos no sanhaço da divisão de acesso. Muitas vezes deu de cara na porta no fim da temporada, a poucos pontos da elite. Viu uma pá de surfistas lhe ultrapassando na fila. Perdeu patrocínio de bico em 2017.

Panda não desistiu. Precisamos lembrar disso antes de falar sobre qualquer coisa.

A vitória do catarinense de Balneário Camboriú, ou de modo mais formal, do gentil peso-pesado Willian Cardoso, é uma daquelas vitórias coletivas, de todos os que não desistem de alcançar sonhos. Deu para ver, na comemoração, o tanto de gente que sentia campeã, inspirada por ele.

Para chegar lá o surfista gente boa pelejou no último ano do QS, viajando com a grana que tinha guardado e com a fundamental ajuda do sogro, dono de uma madeireira em Santa Catarina. Grande Jairo.

Em 2017, patinava com resultados inconsistentes até a etapa de Ballito, que valia 10 mil pontos, na África do Sul. Se não fizesse um resultado ali, já estava decidido, ele trabalharia com o sogro. Foi finalista da etapa e, no Havaí, desta vez, venceu as baterias que lhe garantiam finalmente a vaga na elite.

Começou 2018 debaixo de desconfiança de muita gente. Chegou à primeira temporada do CT aos 32 anos, sem o cada vez mais exigido pacote de manobras aéreas atualizado. Nos primeiros dias do ano, ainda estava sem patrocínio de bico. Tudo indicava que ele teria que se desdobrar para apenas manter a vaga.

Só que o Panda pensava diferente. Tinha acabado de realizar seu sonho da vida. Ampliou a carga de treinos, seguiu dieta rígida para perder peso – o que incluía não beber cerveja até vencer uma prova – e encontrou uma galera bacana da Praia Brava, em Santa Catarina, que lhe ofereceu o patrocínio que faltava. É hora de reverenciar também a Santacosta, marca que apostou no cara antes de qualquer troféu.

Manobras que lançam um leque de água no céu, pancadas no crítico, transições bem executadas, erro quase zero em finalizações.

A persistência o levou à elite, mas, em Uluwatu, onde foi finalizada dias atrás a terceira parada do CT, o que prevaleceu realmente foi a potência de seu surfe.

Manobras que lançam um leque de água no céu, pancadas no crítico, transições bem executadas, erro quase zero em finalizações: a conhecida fórmula do Panda, que já fizera estrago nos tempos de convidado em Bells Beach, contra Kelly Slater no auge, foi replicada nas finais de uma Ulu menos afeita a tubos que o normal.

Alguém há de dizer que ele teve sorte, pela ausência de cilindros, o que em tese favoreceria surfistas como Julian Wilson e Gabriel Medina. Nada disso. “A perseverança é a mãe da boa sorte”, dizia Miguel de Cervantes.

O caminho para o título foi o mais legítimo possível – desde o round 3, fase em que o evento começou a ser disputado em Uluwatu, ele venceu Adriano de Souza, Filipe Toledo, o protegido Mikey Wright e, na final, o novo líder do ranking mundial, Julian Wilson. Note que, para vencer Julian, é preciso ter margem na vitória.

Mas Panda é um cara tão querido que provavelmente todos compartilharam um pouco da felicidade que se espalhou no pico com sua conquista. Na entrevista pós-evento, ficou clara a personalidade do surfista: um discurso de gratidão e o olhar para brasileiros, já que ele pediu licença para falar primeiro em português.

“Galera, eu amo vocês, todo mundo que ficou acordado de madrugada. Eu estou muito feliz. Todas as mensagens que vocês mandaram, tudo o que vocês fizeram por mim… Ano passado foi um ano muito difícil, só a minha família sabe o quanto eu me sacrifiquei para estar aqui… Vocês merecem escutar a minha voz em português, antes de todo o resto do mundo. Isso é para vocês, todo mundo que ficou madrugada adentro, meus patrocinadores… obrigado. Amo vocês.”

Neste momento, Panda está entre os cinco melhores do mundo.

A pontuação de Panda com o título, somado ao bom resultado de Keramas, coloca-o em situação bem confortável na temporada. Neste momento, ele está entre os cinco melhores do mundo, a caminho de Jeffreys Bay, uma onda encaixada ao seu power, em que pode voltar a surpreender os favoritos ao título da temporada.

Há grandes desafios à frente de Panda, como a onda de Teahupoo. Mas, assim, perseverante, ele vai espalhando água e alegria por onde surfa. Agora, é hora de comemorar em Camboriú, cidade que tem uma forte comunidade de surfe. No passado, o balneário revelou Teco Padaratz e, agora, abraça Panda. Vale reverência também ao shaper local Alexandre Snapy, que tem produzido os foguetes para peso-pesado do surfista. Uma amiga, a Karina Propinhak, contou que já tem até faixa com o nome dele na cidade, à espera da chegada. Vai ter cerveja na festa, é certo.

Num texto sobre perseverança, não seria incorreto dizer que Julian Wilson é um dos que mais persevera na briga pelo título. Nas portas do evento que marca a metade da temporada, na África do Sul, o australiano brilhou em não mais que duas ocasiões – no dia final da etapa de abertura, em Kirra, e nas quartas de Uluwatu, contra Jordy Smith, ainda que tenha vencido esta última bateria de modo polêmico.

No mais, um surfe excessivamente burocrático, às vezes lento, nitidamente inferior aos melhores surfistas de cada evento. Julian ampliou consideravelmente sua capacidade competitiva ao encontrar o caminho da regularidade, mas isso não seria o bastante para liderar num ano em que a vitória vale mais que nunca.

Não vou fugir de emitir opinião: o australiano tem sido decisivamente sobrevalorizado no julgamento, e isso, sim, afeta a temporada. Não sei a causa, mas acontece.

Vi, em maior ou menor grau, pelo menos três baterias controversas do australiano em Uluwatu: no round 3, contra Kael Walsh; nas quartas, contra Jordy Smith; e, por último, na bateria semifinal, contra Kolohe Andino.

Para Tulio Brandão, Julian tem sido decisivamente sobrevalorizado no julgamento, e isso, sim, afeta a temporada.

Em muitos casos, a última onda de Julian, isoladamente, parece realmente valer o que ele precisa para vencer, mas ali a distorção já está estabelecida. Os erros têm ocorrido no meio da bateria, sobretudo pela baixa diferença entre ondas inferiores do australiano e as melhores notas de seus adversários. Um exemplo aconteceu na bateria contra Jordy, entre o seu 8,17 e o 9,0 do sul-africano.

É lamentável ainda porque, em 2018, diferentemente de anos anteriores, a liderança de 2018 insiste em cair no colo de um surfista que, embora seja excepcional, está muito longe de sua melhor forma. A WSL, com seus erros e acertos, nas temporadas anteriores, deu o título a atletas no auge, que realmente brilharam na temporada.

A Austrália, sem um título mundial desde 2013, quando Mick Fanning beliscou seu tricampeonato, tem ainda um segundo “eleito”. Mikey Wright surfou sem jeito em Uluwatu, mas novamente desandou a ganhar notas acima da escala.

O caçula dos Wright eliminou Gabriel Medina numa bateria quase flat, mas prefiro creditar o resultado, neste caso, ao erro do brasileiro, que caiu da prancha na onda que poderia lhe dar a vitória, e à falta de sorte de uma calmaria inesperada.

A persistência do texto deve seguir também para a turma de brasileiros que ocupa a faixa superior do ranking. Essa marca – quatro surfistas de Pindorama entre os cinco melhores do mundo – com toda a certeza é inédita na história da elite do surfe.

Filipe Toledo, Gabriel e Italo Ferreira – agora com a ilustre companhia de Panda – estão em melhor forma que o líder. Mas precisam entender que, para levar a temporada, terão que destruir inapelavelmente seus adversários. Mais ou menos como fez Italo em Bells e Keramas, como fez Filipe no Rio. Surfar em outra escala, é o que precisam, além de buscarem uma constância mínima de resultados.

Se deixarem a decisão para o acaso, o caneco será do bom Julian. Sem chororô.