New Zealand Pro 2026

Medina e Toledo se reencontram

Gabriel Medina e Filipe Toledo avançam com autoridade e se enfrentam na terceira fase do New Zealand Pro 2026.
New Zealand Pro 2026, Manu Bay, Raglan, Nova Zelândia

Um dia histórico marcou a abertura do New Zealand Pro 2026, nesta sexta-feira (15), em Manu Bay, Raglan. Pela primeira vez, baterias combinadas de homens e mulheres do Championship Tour foram concluídas em solo neozelandês, na quarta etapa da temporada 2026 da World Surf League (WSL). Com ondas limpas com cerca de 1 metro, por vezes demoradas, mas com paredes de alta performance, os melhores surfistas do mundo se apresentaram para um grande público que se alinhou no point para acompanhar a conclusão da primeira fase masculina e feminina, além das oito primeiras baterias da segunda fase masculina.

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O grande destaque ficou para os brasileiros, especialmente Gabriel Medina e Filipe Toledo, que avançaram com domínio e vão se enfrentar novamente na terceira fase, repetindo o duelo recente na Gold Coast.

Medina aproveitou a oportunidade de surfar de frontside e se manteve extremamente ativo na bateria contra Eli Hanneman. O brasileiro surfou 12 ondas, o dobro do havaiano, demonstrando disposição para entrar em qualquer oportunidade em busca de nota, com aéreos reverse em praticamente todas as tentativas. Sua melhor nota foi um 7.67, em uma versão ajustada da manobra, além de outra nota na casa dos sete pontos (7.53) com um layback, fechando com 15.20 no somatório.

“Tem tanta gente aqui, isso é muito bom para o surfe. Ter pessoas ao redor, gritando seu nome, é muito bom”, disse Medina. “As crianças são a melhor parte desse mundo, eu acho. Elas são tão puras. Elas gostam de você porque gostam de você; é um sentimento verdadeiro. Eu sei que é especial porque não viemos aqui com frequência, então é bom retribuir um pouco de amor a elas. Estou feliz de ver todo mundo feliz aqui hoje. É especial estar na Nova Zelândia. Esta é minha segunda vez aqui, então me sinto ótimo por ter o apoio. Eu estava pegando ondas, apenas me mantendo ativo. Ir para a esquerda é sempre divertido. Estou feliz de estar surfando hoje.”

Já Filipe Toledo registrou a maior nota individual do dia, 8.83 pontos. Utilizando uma prancha totalmente diferente do restante do circuito, uma biquilha larga, com pouco rocker e estabilizador, o bicampeão mundial manteve sua velocidade característica em todas as ondas. Foi em uma das maiores do dia que ele alcançou a melhor nota, conectando seções importantes até a área da rampa de barcos. Com um 6.83 na abertura, deixou o compatriota João Chianca precisando de quase a perfeição durante boa parte da bateria.

“João (Chianca) e eu somos bons amigos. Estou morando no Rio agora, e temos surfado juntos”, disse Filipe. “É o que acontece quando há muitos brasileiros no Tour, e o mesmo com os australianos e todos, você com certeza vai acabar surfando contra um amigo. É aí que você precisa realmente se concentrar. Eu escolhi um equipamento diferente para essa bateria, surfando com uma Modern 2. É um modelo que o Marcio (Zouvi) trabalhou por alguns anos, e chegamos a esse modelo. A prancha está muito, muito boa, e aquela onda abriu até o fim, esse é o Raglan que queremos, a onda que queremos”.

 

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Quem também deu show no dia foi Alejo Muniz. O brazuca venceu a última bateria do dia, contra o campeão da etapa de Margaret River, o australiano George Pittar, com o somatório de 15.20 pontos.

 

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Entre os goofy-footers, que tiveram na etapa a primeira esquerda da temporada, Medina liderou as ações no masculino, enquanto Vahine Fierro, Erin Brooks e Alyssa Spencer aproveitaram as condições no feminino.

Erin, em sua segunda temporada no Tour, vinha de um início fraco, com apenas uma bateria vencida nos três eventos anteriores, mas reagiu com 14.20 pontos. Após perder a troca inicial para a portugues Yolanda Hopkins, respondeu com 7.50 e assumiu a liderança.

“Eu estava realmente ansiosa para surfar para a esquerda. Esse pico não poderia ter chegado mais rápido”, disse Erin. “Eu estava apertando os dedos dos pés o mais forte que podia lá fora para garantir que ficaria na prancha. Eu estava super, super nervosa. Eu realmente não tive o melhor começo de ano, então era muito importante para mim passar essa bateria. Espero que tenhamos condições diferentes para que eu possa tentar alguns aéreos, porque sei que muitas pessoas estão me mandando mensagens e é isso que elas querem ver de mim. Espero poder mostrar esse lado do meu surfe”.

 

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A primeira bateria do evento foi vencida pela Vahine Fierro, que superou a australiana Sally Fitzgibbons. A francesa construiu sua atuação gradualmente até encontrar seções abertas para manobras fortes, somando 6.83 como melhor nota. Criada no Taiti, Fierro destacou sua conexão com as raízes polinésias da Nova Zelândia, evidenciada na cerimônia tradicional Powhiri.

“É uma honra estar na primeira bateria da história aqui em Raglan para o CT e dividir isso com a Sally foi muito especial para mim”, disse Vahine. “A cerimônia de abertura, acho que se chama Powhiri aqui, e foi arrepiante. A forma como todos cantaram juntos. Eles fizeram a apresentação Maori e depois nos sentaram, foi muito poderoso, muito intenso. Eles são como nossos irmãos e irmãs de outra ilha. Somos o triângulo polinésio, Nova Zelândia, Havaí e Taiti e todas as ilhas no meio. Foi uma grande honra fazer parte dessa cerimônia e compartilhar um pouco da nossa cultura polinésia. Foi um grande lembrete para sermos fiéis a quem somos, de onde viemos e compartilhar isso com a próxima geração”.

Carissa Moore começou a etapa na Nova Zelândia em alto nível e ditou o ritmo entre as mulheres, somando 16.34 pontos (de um máximo de 20), seu primeiro total excelente na temporada, impulsionado por uma nota 8.67 — a maior onda do dia no feminino. A cinco vezes campeã mundial e medalhista de ouro olímpica superou a norte-americana Bella Kenworthy.

Carissa reforçou sua ligação especial com o país, onde venceu pela primeira vez no CT em 2010, ainda como novata, ocasião em que doou toda a premiação para um clube local, e destacou o peso emocional do retorno ao pico. “É muito bom estar de volta. A Nova Zelândia sempre teve um lugar especial no meu coração e sempre terá. Eu estava realmente com dificuldades no meu ano de novata. Comecei com dois últimos lugares e, então, vim para cá e encontrei um senso de comunidade, de lar, de amor e de aloha, e conquistei minha primeira vitória no CT. É muito especial estar de volta aqui e poder trazer minha filha. Eu também não tive o melhor começo de temporada este ano. Tem algo neste lugar que te reconecta com o que é mais importante e significativo. O sentimento de amor e aloha aqui é muito forte, então me lembra um pouco de casa. Também quero mandar um grande abraço para a Bella (Kenworthy). Foi uma bateria muito especial. Conheço ela desde que era bem pequena e adoro a família dela. Gosto muito deles”.

Entre as novidades, a francesa Tya Zebrowski conquistou sua primeira vitória em bateria no CT ao superar Nadia Erostarbe, com 14.60 pontos, a segunda maior soma da fase.

“Finalmente consegui passar a primeira fase, e é incrível finalmente dar uma entrevista sem estar sempre perdendo”, disse Tya. “Leo (Fioravanti) me disse que é muito mais difícil do que o Challenger Series, como um clima completamente diferente entre os outros surfistas e os juízes e apenas o surfe. Nos três primeiros eventos, eu estava tentando me acostumar, e também cometi alguns erros, e estou aprendendo, e é assim que eu cresço. É meio difícil no começo, mas acho que a máquina está começando, então espero continuar assim”.

Outro a vencer sua primeira bateria na temporada foi o havaiano Seth Moniz, que superou o marroquino Ramzi Boukhiam e agora enfrenta o campeão mundial de 2019, Italo Ferreira, na segunda fase.

“Todo mundo no Tour este ano é muito forte”, disse Seth. “Eu não fiquei muito feliz em começar nessa fase, mas é quase bom para mim apenas surfar e pegar ondas e aquecer antes do evento principal. Se o corte fosse aqui, eu provavelmente já estaria fora do Tour. É o evento número quatro. Eu ainda não tinha vencido uma bateria, mas estou muito animado. Temos um longo ano pela frente, muitos eventos que estou ansioso. Nunca estive aqui antes, é minha primeira vez, mas me sinto muito centrado, e as pessoas aqui foram muito receptivas comigo. É incrível ver como a cultura é vibrante e viva. Me deixa orgulhoso de ser polinésio e compartilhar um pouco disso”.

O indonésio Rio Waida também chamou atenção ao vencer o japonês Connor O’Leary com 15.20 pontos, igualando a terceira maior pontuação do evento, reforçando sua força nas esquerdas, característica desenvolvida nas ondas de Bali.

Os convidados neozelandeses também tiveram seu momento. Alani Morse, Tom Butland e Billy Stairmand competiram em sequência, mas não avançaram. Alani, de 15 anos, enfrentou a havaiana Bettylou Sakura Johnson e recebeu grande apoio do público local.

“Foi uma honra dividir o lineup com essas meninas, Steph (Gilmore), Bettylou (Sakura Johnson), Anat (Lelior), não consigo pensar em nada mais especial, honestamente”, disse Alani. “Representar a bandeira kiwi com orgulho é muito especial para mim. Eu amo esse esporte, estou super animada por estar aqui, que oportunidade. Meu coração está cheio. Essa comunidade é incrível. O apoio é incrível tanto de Raglan quanto da Nova Zelândia. Não consigo nem explicar como esse apoio tem sido para mim. Esse sucesso não é só meu, é de todos, e é muito legal compartilhar essa jornada e essa experiência com eles. Na praia, todos estavam torcendo, e senti como se estivessem lá comigo. Acho que isso é a melhor coisa do mundo e provavelmente uma das melhores experiências da minha vida”.

Billy, duas vezes olímpico e local de Raglan, também destacou a experiência de competir em casa.

“Enfrentar qualquer um nessa competição sempre será uma tarefa difícil, mas honestamente, senti muito amor durante toda a semana”, disse Billy. “Obviamente, eu queria muito ir bem neste evento, e acreditava que poderia, mas infelizmente a natureza não colaborou no final. Estou feliz, estou saudável. Tenho meus amigos e família aqui, e há muito amor e apoio ao redor. Agora posso sentar, aproveitar o espetáculo e retribuir às crianças de alguma forma e simplesmente me divertir”.

Próxima chamada e previsão das ondas – A próxima chamada para o New Zealand Pro 2026 acontece nesta sexta-feira (15), às 16h20 (de Brasília). A previsão indica ondas de 0,5 a no máximo 1 metro em Manu Bay.

Como assistir ao vivo – O New Zealand Pro 2026 pode ser assistido ao vivo pelo Sportv e Globoplay. A transmissão também pode ser acompanhada pelo WorldSurfLeague.com e pelo Aplicativo da WSL. O Canal da entidade no YouTube também transmite, porém só até o término das oitavas de final.

New Zealand Pro 2026
Round 1 Masculino

1 Luke Thompson (AFR) 12.50 x 10.10 Tom Butland (NZL)

2 Morgan Cibilic (AUS) 14.50 x 12.97 Billy Stairmand (NZL)

3 Eli Hanneman (HAV) 13.50 x 13.33 Oscar Berry (AUS)

4 Seth Moniz (HAV) 12.10 x 11.40 Ramzi Boukhiam (MAR)

Round 1 Feminino

1 Vahine Fierro (FRA) 12.60 x 10.60 Sally Fitzgibbons (AUS)

2 Erin Brooks (CAN) 14.20 x 11.30 Yolanda Hopkins (POR)

3 Tyler Wright (AUS) 12.50 x 10.27 Francisca Veselko (POR)

4 Carissa Moore (HAV) 16.34 x 12.43 Bella Kenworthy (EUA)

5 Alyssa Spencer (EUA) 14.10 x 11.74 Brisa Hennessy (CRI)

6 Tya Zebrowski (FRA) 14.60 x 10.73 Nadia Erostarbe (ESP)

7 Stephanie Gilmore (AUS) 12.80 x 5.87 Anat Lelior (ISR)

8 Bettylou Sakura Johnson (HAV) 14.16 x 8.30 Alani Morse (NZL)

Round 2 Masculino

1 Crosby Colapinto (EUA) 10.70 x 9.40 Jordy Smith (AFR)

2 Griffin Colapinto (EUA) 14.17 x 10.50 Alan Cleland (MEX)

3 Gabriel Medina (BRA) 15.20 x 10.06 Eli Hanneman (HAV)

4 Filipe Toledo (BRA) 15.66 x 10.84 Joao Chianca (BRA)

5 Liam O’Brien (AUS) 11.97 x 11.46 Jake Marshall (EUA)

6 Morgan Cibilic (AUS) 14.33 x 10.00 Ethan Ewing (AUS)

7 Rio Waida (IND) 15.20 x 13.44 Connor O’Leary (JAP)

8 Alejo Muniz (BRA) 15.50 x 14.84 George Pittar (AUS)

Próximas baterias

9 Yago Dora (BRA) x Luke Thompson (AFR)

10 Barron Mamiya (HAV) x Marco Mignot (FRA)

11 Samuel Pupo (BRA) x Cole Houshmand (EUA)

12 Leonardo Fioravanti (ITA) x Mateus Herdy (BRA)

13 Italo Ferreira (BRA) x Seth Moniz (HAV)

14 Kanoa Igarashi (JAP) x Joel Vaughan (AUS)

15 Jack Robinson (AUS) x Kauli Vaast (FRA)

16 Miguel Pupo (BRA) x Callum Robson (AUS)

Round 2 Feminino

1 Gabriela Bryan (HAV) x Erin Brooks (CAN)

2 Caitlin Simmers (EUA) x Alyssa Spencer (EUA)

3 Luana Silva (BRA) x Tyler Wright (AUS)

4 Sawyer Lindblad (EUA) x Stephanie Gilmore (AUS)

5 Molly Picklum (AUS) x Vahine Fierro (FRA)

6 Isabella Nichols (AUS) x Bettylou Sakura Johnson (HAV)

7 Lakey Peterson (EUA) x Carissa Moore (HAV)

8 Caroline Marks (EUA) x Tya Zebrowski (FRA)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.