SSXP Saquarema Pro

Odarci Nonato tira nota dez

Odarci Nonato pega tubaço e conquista nota máxima no terceiro dia do SSXP Saquarema Pro, etapa Circuito Profissional da CBSurf na Praia da Vila, Saquarema (RJ).
SSXP Pro, Praia da Vila, Saquarema (RJ)

A Praia da Vila mostrou todo o seu potencial na quarta-feira, com séries de até 8 pés (2 metros e meio) para a estreia dos principais cabeças de chave do SSXP – SuperSurf Experience – Saquarema Pro apresentado pela Prefeitura de Saquarema. Foi um dia de mar clássico e o paulista Odarci Nonato surfou um tubaço para ganhar a primeira nota 10 do Circuito Profissional promovido pela nova diretoria da Confederação Brasileira de Surf – CBSurf – comandada pelo presidente Teco Padaratz. Nesta quinta-feira (7) começa a categoria feminina.

“Foi um momento incrível, porque eu estava um pouco perdido na bateria. Aí pedi a Deus e Ele mandou essa onda muito boa para eu conseguir uma nota 10, a primeira da minha carreira”, disse Odarci Nonato. “Eu venho pra cá há bastante tempo, fico na casa do tio Raoni (Monteiro), já peguei mar grande aqui com ele e surfei bons tubos nas ondas maiores. Eu fiquei exatamente no mesmo lugar das barcas que fiz aqui com ele e deu certo. Eu consegui achar essa onda boa e estou muito feliz pela nota 10”.

Antes do paulista Odarci Nonato ganhar essa nota 10 unânime dos cinco juízes, o experiente ex-top da elite mundial da World Surf League, Paulo Moura, tinha surfado o primeiro tubo do SSXP Saquarema Pro na Praia da Vila. Foi na terceira bateria do dia e o vice-presidente na nova diretoria da Confederação Brasileira de Surf – CBSurf – eleita esse ano, ainda pegou outra esquerda perfeita para fazer uma série de três manobras muito fortes de frontside. Paulo Moura confirmou a vitória logo nessas duas primeiras ondas que surfou na bateria.

“Hoje de manhã, antes do campeonato, eu peguei um tubo nessas esquerdas e Deus me abençoou com esse primeiro tubo do evento. Mas, eu acho que ainda vai dar muitos tubos hoje aqui”, previu com exatidão, Paulo Moura. “Eu venho aqui pra Saquarema há mais de 20 anos e nunca tinha vindo pra Praia da Vila, que tá dando um show. Estou superfeliz que o evento está sendo aqui e pelo show de surfe que os atletas estão apresentando”.

O vice-presidente da CBSurf também falou sobre o trabalho que a nova diretoria, comandada por Teco Padaratz, já está apresentando neste primeiro ano. “Poder ajudar a CBSurf a fazer esse novo momento do surfe profissional, dar essa dignidade aos atletas, me motiva muito. Com certeza, quero devolver um pouco para o nosso esporte, tudo o que ele me deu durante a minha carreira. Eu fico feliz em estar ao lado do Teco (Padaratz) e de toda a galera que forma a CBSurf, para fazer esse trabalho maravilhoso que a gente está só começando”.

Da África para Saquarema – Outro ex-top da elite do CT que estreou na quarta-feira foi o paulista Alex Ribeiro, que veio direto da África do Sul. Ele foi para Ballito competir na etapa do WSL Challenger Series, mas fez sua inscrição também nesta segunda etapa do Circuito Brasileiro da CBSurf, porque tinha começado bem a temporada, ficando em terceiro lugar em Maceió (AL).

Como perdeu na sua estreia em Ballito na segunda-feira, agilizou seu retorno imediato ao Brasil e chegou em Saquarema na madrugada da quarta-feira. A tempo de competir, porque era um dos 48 cabeças de chave que entraram direto na terceira fase. Só que para ficar ainda mais dramático, a sua bateria era a primeira do dia. Mesmo sem dormir, Alex Ribeiro achou boas ondas para se classificar em segundo lugar, no confronto vencido pelo carioca Theo Fresia.

“Foi uma loucura, porque o voo teve uma conexão muito curta e eu cheguei em São Paulo sem minhas pranchas. Aí pedi pro meu irmão trazer uma capa pra mim de casa (na Praia Grande), ele conseguiu chegar a tempo e deu tudo certo”, contou Alex Ribeiro. “Eu tava lá na África do Sul, mas tinha feito minha inscrição aqui, porque poderia acontecer de perder lá em Ballito e foi o que aconteceu. Eu sabia que ia ser apertado, mas daria tempo de chegar. Eu estou em terceiro no ranking, então tinha que dar o gás, fazer o máximo pra me manter na frente. Eu sabia que ia chegar cansado, mas deu tudo certo e agora é descansar para amanhã”.

Estreia dos líderes – Na quarta-feira também estrearam os líderes do ranking brasileiro profissional iniciado na Praia do Pontal, em Maceió, capital das Alagoas. O vice-campeão na etapa que abriu o Circuito CBSurf 2022, Messias Felix, foi o primeiro a competir no SSXP Saquarema Pro. O cearense já tem dois títulos brasileiros no currículo e o primeiro foi conquistado em 2009, no último ano da década de ouro do SuperSurf iniciada em 2000.

Messias estava passando a bateria até o último minuto, quando Uriel Sposaro pegou uma direita para voar num aéreo full rotation. Ele completou a manobra e ficou o suspense pela nota, que saiu 5,57 para completar uma dobradinha catarinense com Pedro Nogueira. Messias Felix acabou eliminado em 49.o lugar no SSXP Saquarema Pro e pode até descartar esse resultado, porque o ranking vai computar as cinco maiores pontuações conquistadas nas seis etapas do Circuito Brasileiro Profissional da CBSurf esse ano.

Já o líder do ranking, o potiguar Mateus Sena, campeão da etapa de Maceió, avançou para a terceira fase em Saquarema. Sua bateria aconteceu na sequência da eliminação de Messias Felix, numa hora de mudança da maré na Praia da Vila, com poucas ondas boas entrando para dividir entre quatro competidores. Ele procurou ficar ativo dentro d´água, buscando ondas para mostrar o seu surfe e passou em segundo lugar, junto com o paulista Luan Carvalho.

“A bateria foi difícil, porque o mar ficou complicado na maré muita seca, mas estou amarradão por ter passado a bateria”, disse Mateus Sena. “Estou vivendo um sonho, porque acabei de ganhar a primeira etapa lá em Maceió e agora fechei um patrocínio de bico (da prancha) com a Maresia. Quem me acompanha, sabe o quanto venho trabalhando para isso e estou muito feliz. Acho que a derrota do Messias (Felix) na bateria anterior, deu até uma pressão e ao mesmo um tempo um gás pra mim. Ele é um surfista incrível, vai descartar esse resultado, mas é uma oportunidade para eu alavancar no ranking e vou tentar aproveitar”.

Locais de Saquarema – Entre os surfistas locais da Capital Nacional do Surf, três seguem na disputa do título. O campeão mundial de ondas gigantes, Lucas Chumbo Chianca, tirou a maior nota da sua bateria (7,67), mas perdeu a invencibilidade na Praia da Vila. Ele passou em segundo na vitória do catarinense Luiz Mendes, por uma pequena diferença de 12,87 a 12,34 pontos.

Duas baterias depois, Valentin Neves bateu até um bicampeão brasileiro como o seu pai, Leonardo Neves (in memoriam). O capixaba Krystian Kymerson avançou junto com ele em segundo lugar. E o experiente Raoni Monteiro, que por muitos anos representou o Brasil na elite mundial da WSL, também venceu a sua primeira bateria disputada na Praia da Vila, já que ele é um dos 48 cabeças de chave que estrearam na terceira fase, realizada na quarta-feira.

“É muito bom estar participando do Circuito da CBSurf com essa nova gestão do Teco Padaratz, Paulo Moura e toda a galera boa que está envolvida em mudar o cenário do surfe brasileiro”, destacou Raoni Monteiro. “Parabéns a todos pelo esforço em fazer as várias modalidades nesse primeiro ano, ajustando tudo para a gente vir com tudo no próximo ano. Eu digo a gente, porque participei disso tudo no começo, junto com o Geraldinho (Cavalcanti), o Picuruta. Na verdade, eu fui o primeiro a botar a cara com aquele vídeo que postei nas mídias sociais, de protesto com a gestão anterior da CBSurf. Então, foi uma sementinha que a gente está colhendo agora. Todos os atletas estão com um sorrisão no rosto e a galera está de parabéns”.

Dream Tour – Neste primeiro ano da nova gestão da CBSurf, o objetivo de todos é se classificar para o Dream Tour de 2023, quando será formada uma elite do surfe nacional para disputar os títulos brasileiros profissionais da temporada. Estas vagas estão sendo disputadas nas seis etapas deste ano, com os rankings computando os cinco melhores resultados. O SSXP Saquarema Pro é a segunda chance de pontuar nos rankings que vão indicar para o Dream Tour de 2023, 50 surfistas na categoria masculina e 24 na feminina.

Esta primeira das duas etapas do SSXP – SuperSurf Experience – válidas pelo Circuito Brasileiro Profissional da CBSurf em 2022, é apresentada pela Prefeitura de Saquarema e patrocinada pela Dream Factory, Nicoboco, Silverbay, Fuwax, Surfland, com homologação da Confederação Brasileira de Surf (CBSurf) e apoio da Federação de Surf do Estado do Rio de Janeiro (FESERJ), da Associação de Surf de Saquarema (ASS) e divulgação do site Waves. O evento está sendo transmitido ao vivo pelo YouTube do SuperSurf XP e pelo site.

Terceira Fase

1 1-Theo Fresia (RJ), 2-Alex Ribeiro (SP), 3-Kim Matheus (SP), 4-Arthur Alves (RN)

2: 1-Marcos Correa (SP), 2-Caetano Vargas (SC), 3-Fernando Junior (SP), 4-João Lira (PB)

3: 1-Paulo Moura (PE), 2-Arthur Assis (RJ), 3-Alandreson Martins (BA), 4-Pedro Dib (SP)

4: 1-Alan Jhones (RN), 2-Luel Felipe (PE), 3-Pedro Neves (RJ), 4-Diogo Santos (BA)

5: 1-Odarci Nonato (SP), 2-Yage Araujo (BA), 3-Artur Silva (CE), 4-Gabriel Farias (PE)

6: 1-Renan Peres (SP), 2-Tales Araujo (SP), 3-Kauã Hanson (PB), 4-Matheus Souza (RJ)

7: 1-Vitor Ferreira (RJ), 2-Thiago Eduardo (CE), 3-Santiago dos Santos (CE), 4-Rafael Venuto (CE)

8: 1-Gabriel Klaussner (SP), 2-Geovane Ferreira (SP), 3-Derek Plachi (SC), 4-Lucas Pires (RN)

9: 1-Bernardo Pigmeu (AL), 2-Daniel Costa (RN), 3-Fabricio Bulhões (BA), w.o-Ryan Kainalo (SP)

10: 1-Gabriel André (SP), 2-Deyvson Santos (RN), 3-Leo Andrade (BA), 4-Giovani Pontes (SP)

11: 1-Kauê Germano (SP), 2-João Ferreira (SP), 3-Gustavo Borges (RS), 4-Madson Costa (RN)

12: 1-Pedro Nogueira (SC), 2-Uriel Sposaro (SC), 3-Messias Felix (CE), 4-Leonardo Berbet (RN)

13: 1-Luan Carvalho (SP), 2-Mateus Sena (RN), 3-Mathias Ramos (CE), 4-Kaique Oliveira (SC)

14: 1-Luan Hanada (SP), 2-Walley Guimarães (SC), 3-Samuel Joquinha (RN), 4-Niccolas Padaratz (SC)

15: 1-Leo Casal (SC), 2-Douglas Silva (PE), 3-Bruno Galini (BA), 4-Luciano Brulher (SP)

16: 1-Luiz Mendes (SC), 2-Lucas Chianca (RJ), 3-Hedieferson Junior (SC), 4-Glauciano Rodrigues (CE)

17: 1-Israel Junior (RN), 2-Cauã Gonçalves (SP), 3-Jannifer de Souza (CE), 4-Michel Roque (CE)

18: 1-Valentin Neves (RJ), 2-Krystian Kymerson (ES), 3-Wallace Vasco (SC), 4-Lucas Catapam (PR)

19: 1-Diego Aguiar (SP), 2-Daniel Matos (BA), 3-Leandro Bastos (RJ), 4-Dunga Neto (CE)

20: 1-Hizunomê Bettero (SP), 2-Yuri Gonçalves (SC), 3-Dodo Veiga (SP), 4-Felipe Oliveira (SP)

21: 1-Weslley Dantas (SP), 2-Cauã Costa (CE), 3-Heitor Alves (CE), 4-Kalany Ratto (RJ)

22: 1-Raoni Monteiro (RJ), 2-Caio Knappi (RJ), 3-Luan Ferreyra (PE), 4-Bino Lopes (RJ)

23: 1-Leonardo Barcelos (SC), 2-Daniel Templar (RJ), 3-Gabriel Ramos (SP), 4-Vicente Ferreira (RJ)

24: 1-Samuel Igo (PB), 2-Daniel Adisaka (SP), 3-Amando Tenorio (AL), w.o-Victor Costa (RN)

Baterias da quinta-feira
Primeira Fase

1 Tainá Hinckel (SC), Luara Thompson (RJ), Ariane Gomes (CE)

2 Kemily Sampaio (SP), Isabelle Nalu (SC), Kiany Cristina (SP)

3 Larissa dos Santos (CE), Nicole Silva (PE), Suelen Naraisa (SP)

4 Monik Santos (PE), Vitória Carneiro (CE), Paloma Pardo (RJ)

5 Kiany Hyakutake (SC), Alexia Monteiro (SC), Aysha Ratto (RJ)

6 Karol Ribeiro (RJ), Leticia Calleia (RJ), Yasmin Ferreira (SP)

7 Yanca Costa (CE), Potira Castaman (BA), Sarah Ozorio (RJ)

8 Sol Carrion (SP), Juliana dos Santos (CE), Isabela Saldanha (SP)

9 Silvana Lima (CE), Natalie Plachi (SC), Pamella Mel (SC)

10 Julia Santos (SP), Yohana Sarandini (SP), Juliana Meneguel (SP)

11 Julia Duarte (RJ), Kayane Reis (RJ), Gabriela Barros (RJ)

12 Mariana Areno (RJ), Taís Almeida (RJ), Laura Silva (CE)

Quarta fase

1: Paulo Moura (PE), Luel Felipe (PE), Caetano Vargas (SC), Theo Fresia (RJ)

2: Alex Ribeiro (SP), Marcos Correa (SP), Alan Jhones (RN), Arthur Assis (RJ)

3: Vitor Ferreira (RJ), Odarci Nonato (SP), Tales Araujo (SP), Geovane Ferreira (SP)

4: Yage Araujo (BA), Renan Peres (SP), Gabriel Klaussner (SP), Thiago Eduardo (CE)

5: Bernardo Pigmeu (AL), Deyvson Santos (RN), Kauê Germano (SP), Uriel Sposaro (SC)

6: Gabriel André (SP), Daniel Costa (RN), João Ferreira (SP), Pedro Nogueira (SC)

7: Leo Casal (SC), Luan Carvalho (SP), Walley Guimarães (SC), Lucas Chianca (RJ)

8: Mateus Sena (RN), Luan Hanada (SP), Douglas Silva (PE), Luis Mendes (SC)

9: Krystian Kymerson (ES), Israel Junior (RN), Diego Aguiar (SP), Yuri Gonçalves (SC)

10: Hizunomê Bettero (SP), Cauã Gonçalves (SP), Valentin Neves (RJ), Daniel Matos (BA)

11: Weslley Dantas (SP), Daniel Adisaka (SP), Leonardo Barcelos (SC), Caio Knappi (RJ)

12: Raoni Monteiro (RJ), Samuel Igo (PB), Cauã Costa (CE), Daniel Templar (RJ)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.