REMA

Cauã inspirado em Itaúna

Mar em Itaúna baixa, organização coloca apenas oito baterias na água e Cauã Costa aproveita para fazer maior nota e maior somatório do terceiro dia do REMA Saquarema Surf Festival.

O REMA WSL Saquarema Surf Festival em memória a Leo Neves apresentado pela Prefeitura de Saquarema, teve que ser interrompido na segunda-feira na Praia de Itaúna. O mar baixou, o vento sudoeste entrou prejudicando a formação das ondas e só rolou as 8 baterias que restavam para definir os 32 melhores surfistas do QS 6000 masculino.

O catarinense Lucas Vicente começou a defender o título com vitória na primeira bateria do dia. Depois, o cearense Cauã Costa deu um show, batendo todos os recordes com um aéreo nota 8,67. O QS 6000 feminino era para ser iniciado após o término da terceira fase masculina, mas foi adiado para abrir a terça-feira, às 8h, com transmissão ao vivo de Saquarema pelo WorldSurfLeague.com.

O Maior Festival de Surf da América do Sul, é realizado desde 2021 pela V3A / 213 Sports em memória ao bicampeão brasileiro Leo Neves, que faleceu quando participava de uma competição local nas mesmas ondas de Itaúna. O terceiro dia começou com Lucas Vicente defendendo o título do REMA WSL Saquarema Surf Festival com vitória. O catarinense competiu pela primeira vez depois de se sagrar campeão sul-americano da temporada 2024/2025 e liderou o confronto desde o início. O local de Saquarema, Arthur Maximo, se classificou em segundo lugar eliminando o jovem Anuar Chiah e o Facundo Arreyes.

“É muito bom tirar esse peso da primeira bateria, mas foi bem difícil. O mar mudou hoje, o vento acabou entrando e as ondas vieram pra essa bancada que não tava quebrando nos treinos que eu vinha fazendo, porque estou aqui há 10 dias já”, conta Lucas Vicente. “Mas passei a primeira bateria e Saquarema é um lugar muito especial pra mim. Aqui é o Maracanã do surfe né, não só pela torcida, como também pelas ondas que mudam muito. Eu trouxe umas seis pranchas e já usei todas, porque teve mar de quase 3 metros, quase ficou flat, então literalmente te testa em todas as condições. Mas, é um lugar que eu gosto muito e é isso, vamos bateria por bateria, tem muita coisa pra acontecer ainda, mas vamos em busca desse bi”.

Recordista absoluto – Apesar das condições difíceis do mar, o vento soprando nas esquerdas de Itaúna acabou favorecendo as manobras aéreas. E foi voando que o cearense Cauã Costa bateu todos os recordes deste ano no REMA WSL Saquarema Surf Festival. Ele completou um full rotation incrível, muito alto, que arrancou nota 8,67 dos juízes e somou com 6,50 para atingir 15,17 pontos. O cearense mora na capital carioca há muitos anos e agora é o recordista absoluto do campeonato, superando a nota 8,17 e os 15,00 que o paulista Weslley Dantas tinha conseguido em sua estreia no sábado.

“A bateria foi animal. Consegui acertar dois aéreos e eu já tava com a estratégia de mandar os aéreos, quando vi que o vento estava propício para isso”, diz Cauã Costa. “Os moleques que entraram na bateria anterior à minha, mandaram aéreo também, então já entrei com esse plano montado e deu tudo certo, graças a Deus. Fiz uma boa bateria, consegui a maior nota, os recordes e estou muito feliz”.

Cauã Costa já festejou vitória no Saquarema Surf Festival, ganhando o título Pro Junior em 2021 e 2022. Nestes dois anos, também se sagrou bicampeão sul-americano desta categoria para surfistas com até 20 anos de idade. Antes do cearense se tornar o novo recordista absoluto deste ano, o potiguar Mateus Sena já tinha igualado a nota 8,17 do Weslley Dantas no segundo confronto do dia. Ele também chegou perto do recorde de pontos com a vitória por 14,94 pontos, contra os 15,00 do surfista de Ubatuba.

“Estou amarradão, a bateria foi irada pra mim e deu tudo certo”, vibra Mateus Sena. “Eu peguei bastante ondas e fui trocando de nota cada onda que surfava. Eu tentei me manter bem ativo, até porque tá bem frio e poderia congelar se ficasse parado (risos). Graças a Deus, meu equipamento tá nota 10 e to amarradão. Eu to com o meu pai e o Jadson (André) também tá aqui na torcida. Essa roupa de borracha que eu estou usando, é dele, as quilhas da minha prancha são dele também e é um cara que não mede esforços pra me ver bem. Estou feliz demais, mas foi só o primeiro passo de uma semana abençoada, se Deus quiser”.

32 melhores – Mateus Sena e Jadson André são do mesmo bairro de Ponta Negra em Natal, onde Mateus conseguiu a primeira vitória da sua carreira em etapas do QS, na Praia de Miami em novembro do ano passado. O peruano Raul Rios passou junto com ele, eliminando os catarinenses Heitor Mueller e Matheus Navarro. Depois, dois surfistas que vão disputar o Challenger Series esse ano, não passaram das suas estreias na segunda-feira, o paulista Wesley Leite e o paraibano José Francisco. Já o argentino Franco Radziunas, vice-campeão no ano passado, ganhou a última bateria do dia. O ex-recordista Weslley Dantas barrou o campeão mundial de ondas gigantes, Lucas Chianca, para passar junto com o argentino.

Dos 124 participantes do primeiro QS 6000 da história da World Surf League, apenas 32 seguem na disputa pelo título da quinta edição do REMA WSL Saquarema Surf Festival. O resultado na Praia de Itaúna vai formar o primeiro ranking da temporada 2025/2026 da WSL South America, que decide os títulos sul-americanos e classifica 7 homens e 3 mulheres para o Challenger Series, circuito de acesso para a elite do World Surf League Championship Tour (CT). Entre as 8 baterias, destaque para a penúltima, com os recordistas deste ano, Cauã Costa e Weslley Dantas, o recordista de 2024, Samuel Igo, além do atual bicampeão sul-americano Pro Junior da WSL, Ryan Kainalo.

QS 6000 Feminino – A programação da segunda-feira era realizar as 8 baterias restantes da terceira fase masculina e depois iniciar o QS 6000 feminino do REMA WSL Saquarema Surf Festival. Mas, as condições do mar se deterioraram rapidamente, com a entrada do vento sudoeste na Praia de Itaúna e a direção técnica decidiu adiar a estreia das meninas para a terça-feira. As 46 participantes foram divididas em duas fases com 8 baterias cada. As 16 mais bem colocadas no ranking da WSL South America, formam a lista das cabeças de chave que só irão estrear na segunda fase.

Entre elas, as quatro campeãs do Saquarema Surf Festival que já tiveram seus nomes registrados no Troféu Leo Neves. A primeira foi a paulista Sophia Medina em 2021, que foi escalada na bateria que vai abrir a segunda fase. Na segunda está a campeã de 2023, Tainá Hinckel. Na quinta entra a defensora do título e atual campeã sul-americana da WSL, Laura Raupp. E na oitava e última, estreia a peruana Daniella Rosas campeã em 2022. A catarinense Laura Raupp estava na praia e concordou com o adiamento.

“Eu achei que foi a decisão certa, porque realmente esse vento vai ficar bem forte e a maré cheia vai ficar mais complicado ainda. Então poder dar uma oportunidade melhor pras atletas, vai ser bem legal”, diz Laura Raupp. “Eu já nem ia competir hoje (segunda-feira), a minha bateria seria a primeira do dia amanhã, então agora é esperar pra ver, mas o bom é que será em melhores condições. Eu estou um pouco nervosa pra começar essa temporada, mas bem animada como sempre e espero fazer boas performances e bons resultados esse ano de novo”.

Outras competições – As outras competições do REMA WSL Saquarema Surf Festival também serão iniciadas no decorrer da semana na Praia de Itaúna. Além de abrir a temporada 2024/2025 com o inédito QS de 6.000 pontos, o Maior Festival de Surf da América do Sul vai promover a terceira etapa da categoria Pro Junior e a segunda do Longboard também deste ano de 2025. O saquaremense Rickson Falcão divide a liderança do ranking Pro Junior com o paulista Ryan Kainalo e a peruana Catalina Zariquiey está na frente do feminino. No Longboard, os líderes são o uruguaio Ignacio Pignataro e a paulista Luana Soares.

A Prefeitura de Saquarema apresenta o REMA WSL Saquarema Surf Festival em memória a Leo Neves, uma realização da 213 Sports, vertical de esportes da V3A, com homologação da WSL Latin America e acontece com patrocínios da Cerveja Praya, Rip Curl e Monster Energy Drink; apoio da Ocean Drop e Viação 1001; parceria de mídia do Canal Woohoo, Flamboiar, Waves, Surfguru, Saquarema da Informação, Costa do Sol FM e parceria institucional da Federação de Surf do Estado do Rio de Janeiro (FESERJ), Associação de Surf de Saquarema (ASS) e Centro de Treinamento Leo Neves. As competições de surfe estão sendo transmitidas ao vivo pelo WorldSurfLeague.com.

Resultados da segunda-feira (14)
Terceira fase Masculino do QS 6000 – 3.o=33.o lugar (540 pontos) e 4.o=49.o lugar (480 pts):

09: 1 Lucas Vicente (BRA), 2 Arthur Maximo (BRA), 3 Anuar Chiah (BRA), 4 Facundo Arreyes (BRA)

10: 1 Mateus Sena (BRA), 2 Raul Rios (PER), 3 Heitor Mueller (BRA), 4 Matheus Navarro (BRA)

11: 1 Wallace Vasco (BRA), 2 Luan Wood (BRA), 3 Wesley Leite (BRA), 4 Krystian Kymerson (BRA)

12: 1 Francisco Bellorin (VEN), 2 Martin Ottado (URU), 3 Kaue Germano (BRA), 4 Felipe Oliveira (BRA)

13: 1 Samuel Igo (BRA), 2 Wiggolly Dantas (BRA), 3 José Francisco (BRA), 4 Leo Casal (BRA)

14: 1 Cauã Costa (BRA), 2 Alonso Correa (PER), 3 Pedro Dib (BRA), 4 Matheus Neves (BRA)

15: 1 Caio Costa (BRA), 2 Ryan Kainalo (BRA), 3 Anderson da Silva (BRA), 4 Nacho Gundesen (ARG)

16: 1 Franco Radziunas (ARG), 2 Weslley Dantas (BRA), 3 Rafael Barbosa (BRA), 4 Lucas Chianca (BRA)
Próximas baterias do REMA Saquarema Surf Festival
Primeira fase Feminino do QS 6000 – 3.a=33.o lugar (540 pontos) e 4.a=41.o lugar (510 pontos):

1 Julia Duarte (BRA), Luara Mandelli (BRA) e Sofia Artieda (PER)

2 Tais Almeida (BRA), Brianna Barthelmess (PER), Karol Ribeiro (BRA), Maeva Guastala (BRA)

3 Isidora Bultó (CHL), Kemily Sampaio (BRA), Leticia Calleia (BRA), Ana Gonzalez Velasco (MEX)

4 Yanca Costa (BRA), Potira Castaman (BRA), Maria Eduarda (BRA), Juliana Meneguel (BRA)

5 Sol Aguirre (PER), Isabela Saldanha (BRA), Kayane Reis (BRA)

6 Catalina Zariquiey (PER), Laiz Costa (BRA), Valentina Zanoni (BRA), Victoria Munoz Larreta (ARG)

7 Julia Nicanor (BRA), Estela Lopez (CHL), Carol Bastides (BRA), Isabela de Liz (BRA)

8 Kiany Hyakutake (BRA), Sol Carrion (BRA), Matilda Bultó (CHL), Aysha Ratto (BRA)
Segunda fase Feminino – entrada das 16 cabeças de chave mais do REMA Surf Festival ———–3.a=17.o lugar (960 pontos) e 4.a-25.o lugar (864 pontos)

1 Sophia Medina (BRA) e Paloma Pardo (BRA)

2 Tainá Hinckel (BRA) e Isabelle Nalu (BRA)

3 Vera Jarisz (ARG) e Kalea Gervasi (PER)

4 Arena Rodriguez (PER) e Melanie Giunta (PER)

5 Laura Raupp (BRA) e Camila Sanday (PER)

6 Juliana dos Santos (BRA) e Genesis Garcia (EQU)

7 Silvana Lima (BRA) e Alexia Monteiro (BRA)

8 Daniella Rosas (PER) e Sophia Gonçalves (BRA)
Quarta fase Masculino – 3.o=17.o lugar (960 pts) e 4.o=25.o lugar (864 pts):

1 Peterson Crisanto (BRA), Daniel Templar (BRA), Valentin Neves (BRA), Renan Pulga (BRA)

2 Lucas Silveira (BRA), Mateus Herdy (BRA), Alex Ribeiro (BRA), Guilherme Lemos (BRA)

3 Michael Rodrigues (BRA), Rickson Falcão (BRA), Gabriel Klaussner (BRA), Vitor Ferreira (BRA)

4 Igor Moraes (BRA), Daniel Adisaka (BRA), Roberto Araki (CHL), Santiago Muniz (ARG)

5 Lucas Vicente (BRA), Mateus Sena (BRA), Luan Wood (BRA), Francisco Bellorin (VEN)

6 Wallace Vasco (BRA), Raul Rios (PER), Arthur Maximo (BRA), Martin Ottado (URU)

7 Cauã Costa (BRA), Weslley Dantas (BRA), Ryan Kainalo (BRA), Samuel Igo (BRA)

8 Franco Radziunas (ARG), Alonso Correa (PER), Caio Costa (BRA), Wiggolly Dantas (BRA)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.