Quiksilver Iquique Pro

Weslley Dantas é recordista

Weslley Dantas aumenta seus próprios recordes no Quiksilver Iquique Pro, no Chile.
Weslley Dantas, Quiksilver Iquique Pro, Chile

O Quiksilver Iquique Pro prosseguiu em mais um dia de ondas excelentes no Chile, para a estreia dos cabeças de chave da primeira etapa do World Surf League (WSL) Qualifying Series com status QS 3000 na América do Sul esse ano. As condições do mar melhoraram na quarta-feira, com as séries de 3-5 pés abrindo paredes perfeitas para manobras, formando belos tubos e até rampas para os aéreos nas direitas de La Punta, na Playa Cavancha de Iquique. Após dois dias só de competições masculinas, na quinta-feira o Roxy Iquique Pro vai abrir o QS 3000 e o Pro Junior feminino, a partir das 8h00 no Chile, ao vivo pelo WorldSurfLeague.com.

Na quarta-feira foram realizadas mais 24 baterias, com o dia começando pelas oito que restavam para fechar a primeira fase do Pro Junior. Depois, rolaram as 16 que marcaram a estreia dos cabeças de chave do Pro QS 3000, enfrentando os 32 surfistas que se classificaram na primeira fase disputada na terça-feira. Foi nas baterias da categoria Pro Junior Sub-20, que o chileno Martin Vidueira surfou o primeiro tubaço do dia. Ele ficou entocado lá dentro e saiu fazendo uma série de manobras, para receber a primeira nota 9,00 dos dois primeiros dias de competição em Iquique.

“Foi um tubo perfeito, incrível. No começo, tinha uma sessão difícil de passar, mas depois o tubo abriu perfeito e consegui ficar vendo a saída, então só segui o trilho”, disse Martin Vidueira. “Foi um dos melhores tubos que peguei pra direita, porque eu sou do Sul do Chile (Punta de Lobos-Pichilemu) e lá tem mais esquerdas. Usei com uma prancha 5’10´´ com rabeta squash, que ficou muito boa para os tubos aqui. Estou muito feliz e quero mandar um salve para a minha família e todos os meus patrocinadores”.

O chileno Martin Vidueira bateu o recorde de nota do brasileiro Weslley Dantas na terça-feira e o outro foi superado três baterias depois, ainda pela categoria Pro Junior. O jovem Heitor Mueller, de 17 anos de idade, chegou no Chile embalado pelo título na etapa do QS 1000 encerrada no domingo em Salvador, na Bahia, Brasil. Ele assumiu a liderança no ranking regional da WSL Latin America com a vitória e estreou bem no Pro Junior, aumentando o maior placar do evento, de 15,04 para 15,27 pontos.

“As ondas estão muito boas, tem umas direitas muito boas e estou contente por ter surfado bem minha primeira bateria aqui”, disse Heitor Mueller. “Eu consegui pegar uma para começar com uma batida forte no outside e outra aqui mais embaixo, que ganhei 7,60. Depois, surfei outra onda boa para tirar 7,67, então estou muito feliz. Minha prancha está muito boa também e espero seguir assim nas próximas”.

Liderança do ranking – Depois, Heitor Mueller voltou a competir à tarde, para fazer sua primeira defesa da liderança do ranking da WSL Latin America no Chile. Ele precisava avançar, pois um concorrente direto já tinha vencido o confronto anterior. Com a classificação para a terceira fase, Ryan Kainalo passou à sua frente. Mas, Heitor achou boas ondas de novo para surfar um belo tubo e mostrar seu frontside agressivo, manobrando forte para vencer a bateria e se manter em primeiro no ranking.

Os dois faziam parte dos cabeças de chave que entraram direto na segunda fase, que já começou com show de surfe nas direitas de La Punta. O peruano Miguel Tudela, campeão do QS 1000 realizado nas Ilhas Galápagos, no Equador, derrotando o jovem Ryan Kainalo na final, ganhou a primeira bateria somando notas 8,00 e 7,00. Na segunda, entrou outro surfista que representou seu país na estreia do surfe como modalidade olímpica nos Jogos de Tóquio, o chileno Manuel Selman. Esta bateria foi adrenalizante, uma das melhores do campeonato.

O atual campeão sul-americano Pro Junior da WSL Latin America, Cauã Costa, largou na frente com nota 7,17 em um tubo de frontside nas direitas de La Punta. Depois, destruiu outra onda muito boa que igualou a nota 9,00 recorde do campeonato. O chileno Manuel Selman também deu um show nas duas últimas ondas que surfou e valeram 8,43 e 7,60, com os dois fazendo as maiores pontuações até ali, 16,17 e 16,03 respectivamente.

“Essa onda é muito boa e estou muito contente de ter achado umas direitas muito boas para passar mais uma bateria em primeiro”, disse Cauã Costa, que tinha estreado com vitória na categoria Pro Junior na terça-feira. “Eu procuro me concentrar bastante antes da bateria, costumo me aquecer, alongar e me alimentar bem também, para chegar pronto e preparado para competir. Então, estou felizão, amarradão, por ter feito um bom trabalho mais uma vez e vamos com tudo para a próxima”.

Recordista absoluto – As ondas continuaram bombando e na bateria seguinte o brasileiro Weslley Dantas retornou ao topo das listas de recordes do Pro QS 3000. Ele foi impecável na escolha das ondas e destruiu as direitas de La Punta com seu backside, que já tinha feito as maiores marcas do primeiro dia. Weslley só surfou três ondas nos 25 minutos da bateria. Na segunda, ganhou 8,80 e a última arrancou 9,23 dos juízes, totalizando incríveis 18,03 pontos de 20 possíveis.

Weslley Dantas chegou bem perto do recorde histórico desta etapa de Iquique, realizada em 2018 e em 2019. Ela não aconteceu em 2020 e em 2021 por causa da pandemia e está retornando agora. A maior somatória nos dois primeiros anos foi registrada em 2018 pelo peruano Alonso Correa, 18,25 pontos. Os 18,03 de Weslley aparecem agora em segundo lugar, superando os 17,74 do também brasileiro João Chianca, da sua vitória na final do Heroes de Mayo Iquique Pro de 2019.

“As ondas estão melhores hoje, eu consegui achar uma muito boa que valeu 9, e já tinha feito um 8 e pouco, então é isso aí, estou muito feliz por ter surfado bem”, disse Weslley Dantas. “Estou bem preparado, as ondas estão boas, então é só soltar o surfe. Tentei fazer uma boa escolha das ondas, para pegar as melhores e fazer o que eu sei quando o mar está bom. Graças a Deus, tem dado tudo certo e quero agradecer meus patrocinadores, minha família, meu irmão que está aqui, minha mulher que está em casa e vamos pro próximo rounde”.

Na terceira fase, o recordista absoluto do evento vai enfrentar o também brasileiro Leo Casal, campeão da categoria Pro Junior na última edição desta etapa em 2019, o chileno Manuel Selman e o argentino Radziunas Franco. Mas, este confronto só vai acontecer na sexta-feira. Depois de dois dias só de competições masculinas, a quinta-feira será iniciada com a estreia das mulheres nas direitas de La Punta.

Início do feminino – O terceiro dia vai começar com as 33 participante competindo em nove baterias, desde as 8h até as 11h40 no Chile. Depois, serão realizados os oito confrontos da rodada inicial até as 14h20, com a quinta-feira sendo encerrada com mais quatro das oito baterias da segunda fase acontecendo até 15h40 na Playa Cavancha.

Resultados da quarta-feira
Quiksilver Iquique Pro Junior

9 1-Ryan Kainalo (BRA), 2-Kayan Medeiros (BRA), 3-Kuhane Pakomio (CHL)
10 1-Philippe Neves (BRA), 2-Wallace Vasco (BRA), 3-Gabriel Klaussner (BRA), 4-Nicolas Ramos Falcon (CHL)
11 1-Caio Costa (BRA), 2-Igor Shibata (BRA), 3-Victor Cortes (CHL), 4-Tomas Palma Briceno (CHL)
12 1-Martin Vidueira (CHL), 2-Raul Rios (PER), 3-Pedro Bianchini (BRA), w.o-Nicolas Dias Barriga (CHL)
13 1-Daniel Templar (BRA), 2-Morris Tapia (CHL), 3-Joaquin Reyes (CHL), 4-Dimitri Peffort Pizarro (CHL)
14 1-Valentin Neves (BRA), 2-Nazareno Pereyra (ARG), 3-Diego Kohler (CHL), 4-Renato Medina (CHL)
15 1-Heitor Mueller (BRA), 2-Fabricio Rocha (BRA), 3-Ryan Coelho (BRA), 4-Vicente Becerra (CHL)
16 1-Renan Rodrigues (BRA), 2-Vicente Mella (CHL), 3-Mana Roa Rapu Gazmuri (CHL), 4-Lucas Magna (CHL)

Segunda Fase Quiksilver Iquique Pro

1 1-Miguel Tudela (PER), 2-Radziunas Franco (ARG), 3-Philippe Neves (BRA), 4-Leon de la Torre (CHL)
2 1-Cauã Costa (BRA), 2-Manuel Selman (CHL), 3-Israel Junior (BRA), 4-Christopher Herold (CHL)
3 1-Weslley Dantas (BRA), 2-Roberto Araki (CHL), 3-Vitor Ferreira (BRA), 4-Samuel Joquinha (BRA)
4 1-Leo Casal (BRA), 2-Gabriel Arturo Vargas (PER), 3-Tomas Lopez Moreno (ARG), 4-Uriel Sposaro (BRA)
5 1-Valentin Neves (BRA), 2-Kaue Germano (BRA), 3-Renan Peres Pulga (BRA), 4-Joaquin del Castillo (PER)
6 1-Samuel Igo (BRA), 2-Guillermo Satt (CHL), 3-Rodrigo Saldanha (BRA), 4-Matias Veloz Rojas (CHL)
7 1-Felipe Oliveira (BRA), 2-Noel de la Torre (CHL), 3-Leandro Usuna (ARG), 4-Daniel Templar (BRA)
8 1-Ryan Kainalo (BRA), 2-Alex Suarez (PER), 3-Danilo Cerda (CHL), 4-Tomas Tudela (PER)
9 1-Heitor Mueller (BRA), 2-Caio Costa (BRA), 3-Niccolas Padaratz (BRA), 4-Nicolas Ramos Falcon (CHL)
10 1-Francisco Bellorin (VNZ), 2-Rafael Teixeira (BRA), 3-Pedro Dib (BRA), 4-Maximiliano Saenz (ECU)
11 1-José Francisco (BRA), 2-Wiggolly Dantas (BRA), 3-Gustavo Dvorquez (CHL), 4-Theo Fresia (BRA)
12 1-Luan Hanada (BRA), 2-Daniel Adisaka (BRA), 3-Mateus Sena (BRA), 4-Martin Ottado (URU)
13 1-José Gundesen (ARG), 2-Raul Rios (PER), 3-Kayan Medeiros (BRA), 4-Douglas Silva (BRA)
14 1-Lucas Vicente (BRA), 2-Igor Moraes (BRA), 3-Alan Jhones (BRA), 4-Nazareno Pereyra (ARG)
15 1-Diego Aguiar (BRA), 2-Sebastian Olarte (URU), 3-Luan Carvalho (BRA), 4-Eric Bahia (BRA)
16 1-Gabriel André (BRA), 2-Pedro Neves (BRA), 3-Cauã Gonçalves (BRA), 4-Wallace Vasco (BRA)

Baterias programadas para quinta-feira
Primeira fase do Roxy Iquique Pro

1.a: Sofia Jory Bernales (CHL), Antonia Vidueira (CHL), Beatriz Mella (CHL)

Segunda Fase

1 Tainá Hinckel (BRA), Valeria Ojeda (VNZ), Catalina Mercere (ARG), Dominique Charrier (CHL)
2 Sol Aguirre (PER), Melanie Giunta (PER), Esperanza Higuera (CHL), Chiara Bagoni Landeta (CHL)
3 Yanca Costa (BRA), Karol Ribeiro (BRA), Estela Lopez (CHL), Isidora Bultó (CHL)
4 Dominic Barona (ECU), Nairê Marquez (BRA), Lucia Cosoleto (ARG), 1.a da 1.a fase
5 Arena Rodriguez Vargas (PER), Genesis Garcia (ECU), Rafaella Montesi (CHL), 2.a da 1.a
6 Kiany Hyakutake (BRA), Isabela Saldanha (BRA), Sofia Driscoll (CHL), Mariana Areno (BRA)
7 Silvana Lima (BRA), Kalea Gervasi (PER), Lorena Fica (CHL), Josefina Vidueira (CHL)
8 Isabelle Nalu (BRA), Sophia Gonçalves (BRA), Lucia Indurain (ARG), Natalia Escobar (CHL)

Roxy Iquique Pro Junior

1 Sol Aguirre (PER), Lia Uteau (CHL), Antonia Meriño (CHL)
2 Matilda Bultó (CHL), Isidora Bultó (CHL), Dominique Charrior (CHL), Rafaella Montesi (CHL)
3 Kiany Hyakutake (BRA), Maria Weiss (CHL), Isabela Saldanha (BRA), Genesis Garcia (ECU)
4 Kalea Gervasi (PER), Matilda Vargas (CHL), Camila Verdejo (CHL)
5 Tainá Hinckel (BRA), Esperanza Higuera (CHL), Mariana Areno (BRA)
6 Trinidad Gomez Egaña (CHL), Estela Lopez (CHL), Valeria Ojeda (VNZ), Arena Rodriguez Vargas (PER)
7 Chiara Bagoni Landeta (CHL), Sofia Driscoll (CHL), Sophia Gonçalves (BRA), Isabelle Nalu (BRA)
8 Nairê Marquez (BRA), Leia Phillips (CHL), Florencia Belmar Rivera (CHL)

Segunda Fase do Iquique Pro Junior

1 Cauã Costa (BRA), Tomas Bock (CHL), Christian Ignacio (CHL), Mateus Sena (BRA)
2 Radziunas Franco (ARG), Rodrigo Saldanha (BRA), Cauã Gonçalves (BRA), Leo De La Torre (CHL)
3 Diego Aguiar (BRA), Noel De La Torre (CHL), Viggo Ferret (CHL), Marcell Neves (BRA)
4 Maximiliano Saenz (ECU), Maximus Petrina (ARG), Daniel Adisaka (BRA), Leo Casal (BRA)
-Vaterias que vão abrir a sexta-feira:
5 Ryan Kainalo (BRA), Philippe Neves (BRA), Igor Shibata (BRA), Raul Rios (PER)
6 Kayan Medeiros (BRA), Wallace Vasco (BRA), Caio Costa (BRA), Martin Vidueira (CHL)
7 Daniel Templar (BRA), Valentin Neves (BRA), Fabricio Rocha (BRA), Vicente Mella (BRA)
8 Heitor Mueller (BRA), Morris Tapia (CHL), Nazareno Pereyra (ARG), Renan Rodrigues (BRA)

Terceira Fase do Iquique Quiksilver Pro

1 Miguel Tudela (PER), Cauã Costa (BRA), Roberto Araki (CHL), Gabriel Arturo Vargas (PER)
2 Weslley Dantas (BRA), Manuel Selman (CHL), Leo Casal (BRA), Radziunas Franco (ARG)
3 Samuel Igo (BRA), Valentin Neves (BRA), Noel De La Torre (CHL), Alex Suarez (PER)
4 Ryan Kainalo (BRA), Guillermo Satt (CHL), Kaue Germano (BRA), Felipe Oliveira (BRA)
5 Heitor Mueller (BRA), Wiggolly Dantas (BRA), Daniel Adisaka (BRA), Francisco Bellorin (VNZ)
6 Rafael Teixeira (BRA), José Francisco (BRA), Caio Costa (BRA), Luan Hanada (BRA)
7 Lucas Vicente (BRA), José Gundesen (ARG), Sebastian Olarte (URU), Pedro Neves (BRA)
8 Gabriel André (BRA), Igor Moraes (BRA), Diego Aguiar (BRA), Raul Rios (PER)

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.