
Todos nós brasileiros, torcedores e nas horas vagas juízes “experts” de qualquer modalidade esportiva competitiva, gostamos também de fazer análise no surfe, admiramos aquela onda “bem surfada” com um misto de radicalidade, ousadia e inovação. Eu me incluo, e pelo conhecimento da mecânica do corpo humano, faço as minhas análises olhando por essa lente médica.
Observei que muitas vezes a diferença entre o surfista que avançou e o que foi eliminado não estava no tamanho da onda, nem na prancha que usavam. Estava na fluidez. Enquanto um parecia lutar contra a água em cada rasgada, o outro transformava a energia da onda em velocidade de forma natural e fácil. Muitos chamam isso de “talento natural”. Hoje, com a óptica médico-científica, eu chamo de eficiência da cadeia cinética.
Acompanhando essa etapa da WSL na Nova Zelândia em condições pequenas de onda, foi fácil observar os surfistas que conseguiam extrair o máximo da energia da onda e transformá-la em manobras. Ficou evidente que o surfe de alto rendimento mudou. A era do “só surfar para treinar” acabou. Os atletas de elite e os amadores dedicados estão cada vez mais imersos em treinamentos “fora da água”, com atividades funcionais e análises de vídeo. Mas o que exatamente a ciência nos diz sobre tudo isso?
Como ortopedista, recebo diariamente no consultório surfistas frustrados. A queixa comum não é apenas a dor na lombar ou o incômodo nos ombros, mas a estagnação. “Doutor, meu cutback perdeu a força”, ou “Não consigo voltar da manobra com velocidade”. A resposta para esses enigmas raramente está no joelho ou no quadril isoladamente. Ela reside no corpo inteiro, principalmente no centro do nosso corpo.
Um estudo publicado recentemente pela revista Biomechanics (MDPI, 2026) jogou luz exatamente sobre esse tema. A pesquisa, liderada por cientistas do esporte, mapeou a literatura atual sobre a biomecânica aplicada à performance no surfe. Os resultados confirmam o que observamos na prática clínica: a performance no surfe moderno depende criticamente da transferência eficiente de energia através da cadeia cinética.
Imagine o seu corpo como um chicote. A força de uma manobra como uma cavada bem executada nasce nos pés, empurrando a prancha contra a água. Essa energia precisa subir pelas pernas, cruzar o quadril, atravessar o tronco e explodir nos ombros e braços para direcionar a prancha para a manobra seguinte. O estudo demonstrou que a estabilidade do core (a musculatura profunda do abdômen, lombar e pelve) atua como o elo vital nessa transferência. É o core que conecta a força gerada pelos membros inferiores à rotação do tronco necessária para manobras críticas.

Os dados são reveladores. Pesquisadores mediram a rotação torácica de surfistas de elite e descobriram que eles alcançam uma média de 63 graus de rotação, contra apenas 40 graus de surfistas comuns. Essa capacidade de torcer o tronco com controle e potência é o que permite a um atleta profissional inverter a direção da prancha em uma fração de segundo.
No entanto, quando esse elo invisível falha, o preço é alto. Se o seu core não tem a estabilidade rotacional necessária, a energia gerada pelos braços se dissipa antes de chegar às pernas. O resultado? Uma manobra sem power. Pior ainda: a força que deveria ser transferida de forma fluida acaba sendo absorvida pelas articulações. Falhas nessa transferência biomecânica não apenas reduzem a potência da manobra, mas sobrecarregam brutalmente a coluna lombar e os quadris, sendo a causa raiz de muitas das lesões crônicas que trato na clínica.
É por isso que os vídeos recentes de treinamento de atletas profissionais mostram tantos exercícios de estabilidade lateral, como os Cossack squats, e movimentos de rotação com resistência. Eles não estão apenas construindo músculos; estão lubrificando a cadeia cinética. O estudo de 2026 conclui com uma implicação clínica clara: programas de treinamento e reabilitação para surfistas devem abandonar o foco no fortalecimento isolado de grupos musculares (como fazer apenas abdominais tradicionais ou leg press) e priorizar exercícios que integrem o corpo todo, com ênfase absoluta na estabilidade rotacional do core.
A evolução do esporte exige que sejamos mais inteligentes na forma como preparamos nossos corpos. O surfe é, em sua essência, uma dança de transferência de energia entre o oceano, a prancha e o surfista. Se o seu corpo não consegue conduzir essa energia de forma eficiente, você estará sempre lutando contra a onda, em vez de fluir com ela.
Minha recomendação para você que busca evoluir no surfe e prolongar seus anos no mar é simples: olhe para o CORE. Antes de culpar a litragem da prancha ou o formato das quilhas pela falta de velocidade nas manobras, invista na sua cadeia cinética. Um core forte e estável não apenas blinda a sua coluna contra lesões, mas é o verdadeiro motor de explosão que transforma uma onda boa em uma onda inesquecível.
No fim das contas, a prancha mais mágica do mundo não fará milagres se o motor que a impulsiona estiver com as engrenagens desconectadas.
*Dr. Guilherme Vieira Lima, o Guiga, é especialista na área de medicina esportiva e médico da Surfing Medicine International. Para saber mais sobre o seu trabalho, siga o perfil @guiga_surfesaude no Instagram.