Opinião

Kelly fez falta

Kelly Slater, onze vezes campeão mundial, apesar de estar em Fiji não comparece para levantar a cobertura da WSL em Cloudbreak.

Antes de mais nada, deixo claro que esse é um texto opinativo, baseado em observações subjetivas. Trata-se muito mais de passar minha sensação como espectador brasileiro do que uma análise técnica. Até porque nesse quesito a transmissão em inglês da WSL, que foi a que eu acompanhei, não costuma dar xabu. A capacidade deles em transmitir via internet, com todos seus detalhes, as imagens de um campeonato acontecendo numa bancada isolada em alto mar é admirável.
Por outro lado, dar uma atenção especial à audiência brasileira não é prioridade, talvez por achar que os brasileiros interessados já estão sendo atendidos pela cobertura em português que a própria WSL proporciona. Ou até mesmo, a transmissão feita pela Sportv, detentora dos direitos televisivos no Brasil. Mas ao fazer isso, a entidade esquece que a transmissão em inglês segue sendo a mais completa para quem quer, como eu, mesmo sendo brasileiro, ter acesso à maior quantidade de informações possível.
Normalmente é na bancada da WSL, comandada por seu comentarista principal, o californiano Joel Turpel, que sentam os convidados mais interessantes, com amplo conhecimento de surfe e boas histórias para contar. Turpel, que inclusive já foi agraciado com um Emmy por seu trabalho narrando as baterias do surfe nas Olimpíadas de Paris 2024 – para a emissora americana NBC Universal – é uma figura simpática, que costuma deixar todos bem à vontade.
Mas dessa vez, nem ele, nem seu parceiro na conduta da cobertura, o havaiano Kaipo Guerrero, com quem Turpel se reveza no baita desafio que é prender a atenção dos fãs, receberam convidados capazes de fazer alguma diferença significativa. Não é nada fácil ter assunto suficiente para falar continuamente quando a maior maior parte do tempo da transmissão é consumida pela espera das ondas. Mais ainda num dia em que elas estavam prometidas e não compareceram nem perto da maneira esperada.
Contando com a assistência da ex-competidora e big rider australiana Felicity Palmateer, ao lado do também aussie e ex-surfista profissional Richie Lovett, ambos frequentemente consultados, Turpel e Kaipo conduziram uma transmissão morna, tentando disfarçar a qualquer custo o erro crasso na previsão das ondas. E depois, o agravamento da situação, quando a WSL deu a ordem para começar o campeonato num mar que não condizia com a magnitude de um final de Circuito Mundial, prejudicando os competidores que estavam nas baterias iniciais do dia.
Como é de costume, a performance de um competidor gringo, americano ou aussie, sempre é acompanhada na bancada com muito mais vibração e elogios do que a de um “brazzo”. A passada de pano dada no fiasco do Jack Robinson, então, foi bizarra. Ele caiu de maneira ridícula, sempre na primeira manobra, em quatro ondas seguidas e ninguém falou nada. Sério que ele pretendia derrotar o Italo com aquele surfe? Obviamente que essa pergunta não foi levantada.
No barco da WSL, posicionados no teto com vista para as ondas ao fundo enquanto exageravam no blá blá blá, ou fazendo entrevistas longas demais e checando os quivers de pranchas dos finalistas de maneira aleatória, os irmãos australianos Ronnie e Vaughan Blakey tinham tudo para ter feito um excelente trabalho. Os dois até demonstraram conhecimento de causa, o que seria de esperar, pois atuam como jornalistas no meio do surfe há décadas. O que faltou foi carisma. 
Claro que o problema pode estar do meu lado, que sou chato mesmo, mas os irmãos não me conquistaram em nenhum momento. Aliás, já não aguentava mais eles, depois de uma semana acompanhando as entrevistas pretensiosamente engraçadas que fizeram durante todos os dias de espera sem ondas. Será que não tinha lugar na ilha para ao menos um repórter brasileiro também? Afinal de contas, somos responsáveis por uma parte robusta da audiência da WSL, além de termos dois competidores entre os cinco finalistas homens. Austrália, EUA e África do Sul, contavam apenas com um finalista cada. Sem contar que o lycra amarela, e virtual campeão, era nosso.
Mas minha maior decepção mesmo foi que Kelly Slater não deu as caras dessa vez. Por ele ter aparecido em vários conteúdos produzidos em Tavarua, inclusive falando um monte sobre como as ondas iriam ser as melhores de todos os tempos etc e tal, achei que isso aconteceria. Na verdade, estava certo na minha cabeça que o careca, mesmo se achando, como é de sua natureza e ele pode, iria nos brindar com as análises inteligentes de quem sabe tudo e um pouco mais sobre baterias de surfe. Afinal de contas, são onze títulos mundiais e mais de quatro décadas competindo.
Talvez por não ter querido ir dar um rolê de barco um pouco longo demais, até o Fiji Marriott Resort Momi Bay, onde a bancada dos comentaristas estava luxuosamente abrigada, Kelly deixou frustrado a quem, como eu, criou a expectativa de poder contar com sua presença. Será que não dava para terem instalado os comentaristas mais próximos da ação, em Tavarua mesmo? Fato é que, por essa e por outras, a transmissão não esteve à altura da grandiosidade do momento. Veja bem, a cobertura foi correta, mas nunca encantadora. Nem o Jessé Mendes, para ao menos fazer um aceno para a audiência verde amarela, eles levaram para Fiji. Fica a dúvida se não foi tudo uma questão de orçamento. Vai ver que o Kelly queria receber uma fortuna pela missão ingrata de comentar mais um brasileiro sendo campeão mundial.

P.S. Já ia esquecendo de mencionar, curti bastante o trabalho do californiano Strider Wasilewski na sua costumeira posição de repórter molhado. Suas entrevistas no calor do momento com os campeões mundiais Yago Dora e Molly Picklum trouxeram uma dose muito bem-vinda de emoção genuína, que agrega um grande valor para o espectador.

 

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