Museu do Surfe

Nino Matos, de São Vicente

Coluna Museu do Surfe, de Gabriel Pierin e Diniz Iozzi, resgata trajetória do vicentino Nino Matos, um surfista à frente de seu tempo.

Nino Matos, nascido Edemir de Matos Fernandes, em 30 de setembro de 1963, filho de Antônio Oliveira Fernandes, comerciante, e Marlene de Matos, manicure, é lembrado como um dos surfistas mais extraordinários que São Vicente já produziu.

Criado na Baixada Santista, ele encontrou no mar do Itararé seu primeiro grande território. Sua primeira prancha de fibra, uma monoquilha Homero, marcou o início de uma relação visceral com as ondas, que logo o transformaria em lenda local.

Começou a surfar no Itararé, mas bastava o mar reagir para que corresse até o píer da Praia da Biquinha, em São Vicente, em frente à Padaria Marrocos, onde sua presença se tornava imediatamente notada.

O talento bruto, a leitura natural do mar e a coragem quase intuitiva formaram um conjunto raro, que impressionava surfistas mais velhos e inspirava os mais jovens. Quem conviveu com ele repete sempre a mesma ideia: Nino estava à frente do seu tempo, capaz de progredir em qualquer tipo de onda, destacando-se até nas merrecas, como um fly boy.

Seu surfe é descrito por aqueles que conviveram com ele como agressivo, porém fluído, que combinava potência e criatividade. Borg, amigo de infância e companheiro de inúmeras sessions, atribui características ao seu estilo: “Estilo corajoso, acrobático, veloz e radical”.

Orelhinha, outro ícone do surfe vicentino, resume o surfe de Nino numa expressão: “explosão de energia”. Esse estilo único rendeu a capa da Revista Visual Esportivo, de 1985, do surfista e jornalista carioca Jacques Nery.

Em 1980, Nino recebeu o patrocínio da La Barre, do Flávio, e com ele competiu no Festival Olympikus de Surf Nacional, na Praia da Joaquina. Ele ainda integrou as equipes do Pascoal, Stubbies do Delton Menezes (Classic Longboards), e do lendário Janjão, de São Vicente, grupo responsável por revelar talentos da época.

Para ele, Nino realizava manobras surreais, difíceis de imaginar na época.

Competitivo, participou de diversos campeonatos da região e fora dela. Um depoimento marcante de Aloysio, o “Aluguel”, relata que, em Festival Brasileiro de Surf, em Ubatuba, ele competiu ao lado de Sapo e Orelhinha, em 1984, tornando-se vice-campeão, e durante o Summertime Surf Sul, em Matinhos, em 1985, Nino deixou de ganhar um carro porque saiu na porrada com o Piola durante a bateria — um exemplo da intensidade emocional que o acompanhava dentro e fora d’água.

Sua trajetória também o coloca ao lado de grandes figuras que construíram o surfe vicentino, como Luiz Bocão, Jaime Ventania, Picuruta de São Vicente, Marcelo Peixe, Odim, Brechó, entre outros.

São Vicente forma nomes como Marcos Corrêa, Julia Santos e Diego Meinha — e Nino permanece entre as lendas que pavimentaram esse caminho.

A vida de Nino, porém, teve um fim brutal. Ele vivia uma grande fase da sua vida, ensinando e aprendendo com os jovens surfistas de São Vicente, quando foi assassinado em 25 de janeiro de 2002.

Sua morte deixou perguntas sem respostas, mas sua memória segue viva — nas histórias dos amigos, no respeito dos surfistas e no legado eterno de quem surfou o futuro antes que ele chegasse. Seu nome está eternizado no Píer Nino Matos, localizado defronte à Praça dos Heróis de 32.

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