Molly Picklum

A jornada de uma campeã

Australiana de 22 anos, Molly Picklum sai das ondas de Central Coast para escrever seu nome na história do surfe com título mundial no WSL Finals 2025.
WSL Finals 2025, Cloudbreak, Tavarua, Fiji

Molly Picklum conquistou seu primeiro título mundial no WSL Finals 2025. Essa foi a quarta temporada da atleta de 22 anos entre as melhores do planeta. A australiana de Central Coast, New South Wales, cresceu curtindo campos de futebol, mas no ensino médio foi mais para perto da costa, em Shelly Beach, e a partir daí a praia passou a ser seu local favorito nos fins de semana.

O surfe entrou na vida da atleta por intermédio do pai e ela conta ter ficado em pé na prancha pela primeira vez com 3 ou 4 anos. Mas o interesse pelo esporte cresceu muito quando a mãe da atleta namorou um instrutor de surfe. A aussie ganhou reconhecimento rapidamente no país com títulos nacionais e chegou a ser eleita Estrela Feminina em Ascensão no Australian Surfing Awards de 2020.

Molly conquistou a vaga no CT após participar do CS em 2021. O circuito pós-pandemia teve apenas quatro etapas e ela terminou em oitavo lugar no ranking, tendo o quinto lugar na França como melhor resultado. O Challenger Series classificava sete surfistas para o Championship Tour do ano seguinte. Como a havaiana Carissa Moore, integrante do CT, terminou em sexto, a australiana ganhou um lugar na elite.

Molly não foi bem no CT 2022 e acabou cortada após ficar fora das dez primeiras posições depois dos cinco eventos iniciais. Ela finalizou o ano em 14º lugar. A aussie também competiu no CS, terminou em terceiro lugar e confirmou seu lugar no CT de 2023. O circuito CS na temporada teve sete etapas e ela venceu a de Ballito, África do Sul.

Em 2023 a atleta largou o CS e se deu bem no CT, ganhando reconhecimento em ondas perfeitas e também nas pesadas e tubulares. Ela venceu sua primeira etapa entre as melhores do mundo no segundo evento da temporada, nas direitas de Sunset, Havaí. Ela fez mais duas finais (Bells Beach e Jeffreys Bay), terminando como vice-campeã, e garantiu lugar no WSL Finals ao fechar a fase classificatória na quarta posição. Ela abriu a disputa contra a atleta que se tornaria a maior rival, a norte-americana Caitlin Simmers, e foi eliminada, finalizando o ano em quinto lugar no ranking.

Molly começou forte em 2024. A australiana foi vice-campeã em Pipeline, perdendo a final para Caitlin, e bicampeã em Sunset, superando a havaiana Bettylou Sakura Johnson na decisão. Nas duas etapas seguintes ela ficou em nono lugar, nas outras quatro em quinto e fechou o ano em Fiji com uma terceira posição. Molly novamente ficou em quarto lugar e novamente foi para a decisão do título mundial no WSL Finals. Ela perdeu mais uma vez na estreia, na ocasião para Tatiana Weston-Webb, e fechou o ano em quinto lugar no ranking.

Então chegou o ano de 2025. Molly abriu a temporada em Pipeline com semifinal. Depois ela foi vice-campeã na piscina de ondas dos Emirados Árabes. Nas duas etapas ela foi eliminada por Caitlin, que até então havia ganhado todas as seis disputas mulher a mulher entre as duas. O circuito seguiu para Portugal e El Salvador. Nas duas provas ele caiu na semi. Na Austrália ela conquistou um nono lugar (Bells Beach) e dois quintos (Gold Coast e Margaret River). Depois ela disparou no ranking com quatro finais seguidas. Molly ficou em segundo lugar na Califórnia, foi campeã no Brasil, vice na África do Sul e número 1 no Taiti. Foi nesse período que ela conseguiu suas primeiras vitórias sobre Caitlin, na semi em Trestles e na final em Teahupoo.


WSL Finals 2025 – Molly chegou ao WSL Finals 2025 como líder do ranking e precisava de apenas uma bateria para ser campeã mundial, porém perdeu a primeira batalha e a disputa passou a ser melhor de três.

Derrota na primeira final – A adversária de Molly na final foi a norte-americana Caroline Marks, que precisou vencer três disputas para chegar à decisão. A primeira bateria entre elas chegou à metade com pouca diferença no placar. Molly tinha como melhor nota 5.33 e Caroline 4.17 pontos. A surfista dos Estados Unidos precisava de apenas 2.17 para liderar. A australiana aumentou a vantagem aos 19 minutos. Molly acertou uma rasgada e uma batida para trocar 1.00 por 5.17 pontos. Caroline respondeu no minuto seguinte. Ela abriu a esquerda com uma batida forte e botou para dentro, mas não saiu. Ela buscava 6.33 e anotou 3.67 pontos.

Caroline assumiu a liderança a dez minutos do fim. A norte-americana rasgou, depois bateu duas vezes antes de fazer outra curva na borda. A atuação valeu 7.33 e deixou a australiana na busca de 6.18 para virar o resultado. A australiana tentou dar o troco com os tubos, mas não saiu nas duas tentativas que fez antes dos sete minutos finais.

Molly ameaçou entrar numa onda a seis minutos do fim, mas Caroline fez o uso do direito de escolha. A surfista dos Estados Unidos trocou 3.67 por 5.17 e aumentou a diferença para 7.18 pontos. A aussie não teve outra oportunidade e saiu da água derrotada na primeira disputa da final.

Final 2 – Caroline largou na segunda final com 1.50 e Molly, aos cinco minutos, anotou 7.00 depois de manobrar quatro vezes. Aos dez minutos a aussie aproveitou uma onda deixada pela adversária para aumentar ainda mais a vantagem com 6.00 pontos. Quatro minutos depois a australiana surfou novamente sem a prioridade e pegou um tubo para disparar na frente com 8.83 pontos. Caroline passou a buscar 15.83 para vencer. A norte-americana tentou reagir logo depois, mas desistiu da esquerda após a primeira manobra.

Molly ficou ativa, enquanto Caroline ficou mais seletiva. A australiana não conseguiu mexer no placar. A norte-americana conquistou sua melhor nota no confronto a três minutos do fim (5.53), mas não mudou sua situação no confronto e o título mundial foi decidido na última bateria do ano no CT.


O desempate e o título mundial – Molly começou forte o último confronto do CT na temporada. No segundo minuto a australiana rasgou e bateu forte para largar com 7.00 pontos. Dois minutos depois ela repetiu as manobras, porém numa onda menor, e adicionou 6.50 ao somatório. Caroline tentou entrar na briga, mas começou com 2.17 pontos e aos seis minutos entrou e saiu da onda (0.50).

A australiana disparou na frente aos dez minutos. Molly botou para dentro, mas não ficou muito fundo, saiu e acertou uma batida poderosa na junção. A performance valeu 8.83 pontos. Caroline passou a precisar de 15.83 para ser campeã mundial. Ela tentou reagir aos 13 minutos, mas a esquerda fechou após a primeira batida.

Enquanto Caroline seguia sem conexão com Cloudbreak, Molly aumentava o somatório. A cinco minutos do fim a aussie voltou a atacar a esquerda com duas manobras poderosas. Novamente ela chegou no critério excelente e, com a nota 8.10, aumentou a diferença para 16.93 pontos.

“Estou sem palavras agora”, disse Molly. “Sinto realmente que isso é a cereja do bolo do que fiz pela minha carreira e pela minha vida pessoal, realmente mudando tudo. É uma viagem e algo que ninguém nunca vai poder tirar de mim: ser Campeã Mundial. Conquistar isso depois de uma temporada tão incrível é muito especial e algo que vou lembrar para sempre. Ser a campeã indiscutível, inegável, é algo com que sonhei, e vencer dessa forma enche meu coração. Não consigo acreditar, sou apenas muito grata por ter a oportunidade de fazer o que amo”.

“Havia tanta dúvida, mas sinto que é justamente isso que forma uma campeã. Você precisa se impor e superar isso. Eu simplesmente permaneci fiel, confiando no desconhecido, e sou muito, muito grata por tudo ter dado certo. Depois da primeira bateria, engoli a situação, tirei o que pude dela, honrei minhas crenças e fui atrás”, continuou a atleta.

Questionada se curtiria um circuito com as categorias masculina e feminina juntas, já que teve atuações superiores as de alguns homens em ondas como Teahupoo, Molly disse: “Eu toparia. Não sei. Sinto que os caras são inacreditáveis. Eles estão definindo o que é possível no surfe em geral, e nós (mulheres) estamos apenas tentando fazer o mesmo para a nossa categoria. Então sim, eles são muito talentosos. Ainda bem que eu não entro nessa ‘diversidade’.”

Sobre agora fazer parte de um time de australianas campeãs mundiais, ela contou: “É uma viagem ser uma garota da Central Coast, ter crescido admirando a Steph (Gilmore), a Layne (Beachley), a Sally (Fitzgibbons) e a Tyler (Wright) e todas aquelas meninas, e agora estar numa lista junto com elas. Sinto-me muito honrada e grata. Houve tantas mulheres incríveis no surfe que vieram antes de nós e abriram o caminho para que eu e outras pudéssemos estar aqui fazendo o que amamos, então é uma viagem fazer parte disso agora. É realmente verdade que é preciso uma comunidade para criar uma criança, e ter toda a Central Coast me apoiando, assim como minha equipe o ano todo, minha família e meus amigos, que me conhecem e sabem o quanto eu trabalho duro, poder conquistar isso diante deles é algo muito, muito especial”, finalizou a australiana.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.